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HISTÓRIA DE UMA ALMA
Manuscrito «A»
ALENÇON (1873 - 1877)
J.M.J.T.
Jesus
Janeiro de 1895
História primaveril de uma Florzinha branca escrita por ela mesma e dedicada à
Reverenda Madre Inês de Jesus.
A vós, querida Madre, que sois duplamente minha mãe, quero confiar a história de
minha alma... No dia em que me pedistes para fazê-lo, cheguei a pensar que isso
dissiparia meu coração, ao ocupá-lo consigo mesmo; mas depois Jesus me levou a
compreender que, obedecendo com toda simplicidade, eu o agradaria. Aliás, só
quero uma coisa: Começar a cantar o que repetirei por toda a eternidade: "As
Misericórdias do Senhor!!!"...
Antes de pegar a caneta, ajoelhei-me diante da imagem de Maria (aquela mesma que
tantas provas nos deu das maternas predileções da Rainha do céu por nossa
família), e lhe pedi que guiasse minha mão para que eu não escrevesse uma linha
sequer que não a agradasse. Em seguida, abrindo o Evangelho, meus olhos pousaram
sobre estas palavras: «Jesus, tendo subido a uma montanha, chamou a si quem Ele
quis; e vieram a Ele" (são Marcos, cap. III, v. 13). Eis o mistério de minha
vocação, de minha vida inteira, e, sobretudo, o mistério dos privilégios
dispensados por Jesus à minha alma... Não chama os que são dignos, mas quem Ele
quer, ou, como diz São Paulo: "Farei misericórdia a quem eu fizer misericórdia;
terei compaixão de quem eu tiver compaixão. Desta forma, a escolha não depende
daquele que quer, nem daquele que corre, mas da misericórdia de Deus" (Carta aos
Romanos, cap. IX, v. 15 e 16).
Durante muito tempo eu me perguntava por que Deus tinha preferências, por todas
as almas não recebiam a mesma medida de graças. Estranhava ao vê-lo prodigalizar
favores extraordinários aos santos que o haviam ofendido, como são Paulo ou
santo Agostinho, a quem forçava, por assim dizer, a receber suas graças; e
quando lia a vida daqueles santos a quem o Senhor acariciou desde o berço até a
sepultura, retirando de seu caminho todos os obstáculos que os impedisse de se
elevar até Ele e provendo essas almas com tais benefícios para que nada lhes
ofuscasse o brilho imaculado de suas vestes batismais, eu me perguntava por que
tantos pobres selvagens, por exemplo, morriam antes mesmo de ouvir ou sequer
pronunciar o nome de Deus...
Jesus quis instruir-me a respeito deste mistério. Pôs diante dos meus olhos o
livro da natureza e compreendi que todas as flores por ele criadas são belas, e
que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não tiram o perfume da humilde
violeta nem a simplicidade encantadora da margarida... Compreendi que se todas
as flores quisessem ser rosas, a natureza perderia sua pompa primaveril e os
campos já não seriam salpicados de florzinhas...
O mesmo ocorre no mundo das almas, o jardim de Jesus. Ele quis criar grandes
santos, que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas criou também outros
menores, e estes devem se conformar em ser margaridas ou violetas destinadas a
alegrar os olhos de Deus quando contempla seus pés. A perfeição consiste em
fazer sua vontade, em ser aquilo que Ele quer que sejamos...
Compreendi também que o amor de Nosso Senhor se manifesta tanto na alma mais
simples, que não coloca nenhuma resistência a sua graça, quanto na alma mais
sublime. É próprio do amor abaixar-se. Se todas as almas se parecessem às dos
santos doutores que iluminaram a Igreja com a luz de sua doutrina, parece que
Deus não teria que se abaixar bastante para vir a seus corações. Mas criou a
criança, que nada sabe e só balbucia fracos gemidos, criou o pobre selvagem, que
só tem a lei natural para guiá-lo. E também a seus corações ele se abaixa! São
suas flores campestres, cuja simplicidade o encanta...
Assim se abaixando, Deus mostra sua grandeza infinita. Assim como o sol ilumina
os cedros e cada florzinha, como se somente ela existisse sobre a terra, da
mesma forma Deus cuida pessoalmente de cada alma, como se não existisse outra
além dela. E assim como na natureza todas as estações estão de tal modo
organizadas que no momento certo se abre até a mais humilde margarida, da mesma
forma tudo concorre para o bem de cada alma.
Certamente, querida Madre, estais vos perguntando onde quero chegar, pois até
agora nada disse que se pareça com a história de minha vida. Mas pedistes-me que
escrevesse tudo que viesse ao meu pensamento, sem nenhum constrangimento. Assim
sendo, o que vou escrever não é propriamente minha vida, mas meus pensamentos
sobre as graças que Deus se dignou conceder-me.
Encontro-me num momento de minha existência em que posso lançar um olhar sobre o
passado; minha alma amadureceu no crisol das provações exteriores e interiores.
Agora, como a flor fortalecida pela tempestade, levanto a cabeça e vejo que em
mim se realizam as palavras do salmo XXII: «O Senhor é meu pastor, nada me
falta: em verdes pastagens me faz repousar; ele me conduz para fontes tranqüilas
e restaura minhas forças... Ainda que eu ande pelo vale das sombras, nenhum mal
temerei, porque tu, vais comigo!" O Senhor sempre foi compassivo e
misericordioso para comigo... lento na ira e rico em misericórdia... (Salmo CII,
v. 8). Por isso, Madre, canto feliz ao vosso lado as misericórdias do Senhor...
Somente para vós vou escrever a história da florzinha colhida por Jesus. Por
isso, vou falar-vos com total confiança, sem preocupar-me com estilo nem com as
numerosas digressões que possa fazer. Um coração de mãe sempre compreende seu
filho, mesmo quando só sabe balbuciar. Portanto, estou certa de que serei
compreendida e decifrada por vós, que formastes meu coração e o oferecestes a
Jesus!...
Parece-me que se uma florzinha pudesse falar, contaria simplesmente o que Deus
fez para ela, sem procurar esconder os presentes por ele concedidos. Não diria,
a pretexto de falsa humildade, que é feia e sem perfume, que o sol roubou-lhe o
esplendor e que as tempestades quebraram-lhe o talo, quando está intimamente
convencida do contrário.
A flor que vai contar sua história se alegra em poder apregoar as delicadezas
totalmente gratuitas de Jesus. Reconhece que nada havia nela capaz de atrair
seus olhares divinos, e que somente sua misericórdia fez tudo que de bom há
nela...
Ele a fez nascer numa terra santa e toda impregnada por um perfume virginal. Ele
fez com que a precedessem oito lírios reluzentes de brancura. Em seu amor, quis
preservar sua florzinha do sopro envenenado do mundo; e mal se entreabria sua
corola, este divino Salvador a transplantou para a montanha do Carmelo, onde os
dois lírios que a haviam cercado de carinho e embalado na primavera de sua vida
já exalavam seu suave perfume...
Já se passaram sete anos desde que a florzinha se enraizou no jardim do Esposo
das Virgens, e agora três lírios – a contar com ela – balançam ali suas corolas
perfumadas; um pouco mais longe, outro lírio está se abrindo ante o olhar de
Jesus. E os dois caules benditos dos quais brotaram estas flores já estão
reunidos na pátria celestial para sempre... Aí se reencontraram com os outros
quatro lírios que não chegaram a abrir suas corolas na terra... Oh! Que Jesus se
digne não deixar por muito tempo nesta terra estranha as flores que ainda
permanecem no exílio! que em breve o ramo de lírios se complete no céu!
Acabo, Madre, de resumir em poucas palavras o que Deus fez por mim. Agora vou
entrar nos detalhes de minha vida de criança. Sei que onde qualquer outra pessoa
só veria um relato cansativo, vosso coração de mãe encontrará verdadeiras
delícias... Além do mais, as lembranças que vou evocar também vos pertencem,
pois ao vosso lado passei minha infância e tenho a felicidade de pertencer a
pais inigualáveis que nos cercaram dos mesmos cuidados e do mesmo carinho. Que
eles abençoem a menor de suas filhas e a ajudem a cantar as misericórdias do
Senhor!
Na história de minha alma, até minha entrada no Carmelo, distingo três períodos
bem definidos: o primeiro, embora de curta duração, não é o menos fecundo em
recordações. Ele vai do despertar de minha razão até a partida de nossa querida
mãe para a pátria celeste.
Deus deu-me a graça de despertar minha inteligência muito cedo e de gravar tão
profundamente em minha memória as recordações de minha infância, de modo que me
parecem ter acontecido ontem. Sem dúvida, Jesus, em seu amor, quis fazer-me
conhecer a mãe incomparável que me dera, mas que sua mão divina tinha pressa de
coroar no céu!
Durante toda minha vida, Deus quis cercar-me de amor. Minhas primeiras
recordações estão repletas dos mas ternos sorrisos e carícias... Mas, se ele
colocara muito amor perto de mim, também o pôs em meu coração, criando-o amoroso
e sensível. Assim, eu amava muito papai e mamãe, e lhes demonstrava meu carinho
de mil maneiras, pois eu era muito expansiva. Só que os meios que eu usava eram,
às vezes, estranhos, como o prova este trecho de uma carta de mamãe:
"A menina é um verdadeiro diabinho, que vem me acariciar desejando-me a morte:
´Como eu gostaria que morresses, minha pobre mãezinha...!´censuram-na e ela
responde: ´Mas é para ires para o céu! Não dizes que precisamos morrer para ir
para lá?´ Em seus excessos de amor, deseja também a morte de seu pai".
No dia 25 de junho de 1874, quando eu tinha apenas 18 meses, eis o que mamãe
dizia de mim:
«Vosso pai acaba de instalar um balanço. Celina está deslumbrada, mas é preciso
ver a pequena balançar-se! É de rir; segura-se como uma moça, não há perigo de
que se solte a corda e quando a balançam mais devagar, grita. Nós a amarramos na
frente com outra corda, mas apesar de tudo não fico tranqüila quando a vejo lá
em cima.
"Recentemente aconteceu uma aventura engraçada com a pequena. Tenho costume de
ir à missa das cinco e meia. Nos primeiros dias, não ousava deixá-la sozinha;
mas ao ver que ela nunca acordava, decidi deixá-la. Deitava-a na minha cama e
puxava o berço de modo que seria impossível que ela caísse. Mas um dia me
esqueci de puxar o berço. Quando cheguei, vi que a pequena não estava na cama.
Neste momento escutei um grito; olhei e a vi sentada numa cadeira que estava de
frente à cabeceira de minha cama, com a cabecinha deitada no travesseiro e
dormindo mal, pois estava mal acomodada. Não entendi como pôde cair sentada
naquela cadeira, pois ela estava deitada. Dei graças a Deus por que nenhum mal
lhe aconteceu; foi realmente providencial, pois poderia ter rolado no chão. Seu
anjo de guarda cuidou dela, como também as almas do purgatório, a quem
diariamente faço uma oração para que protejam a pequena. Assim vejo a coisa...
vejam como quiserem..."
No final da carta, mamãe acrescentava:«Eis que o bebezinho acaba de passar a mãozinha sobre o meu rosto e me beijar.
Esta pobre pequena não quer me deixar nem por um instante e não sai de perto de
mim. Gosta muito de ir ao jardim, mas se eu também não for, ela não quer ficar.
Começa a chorar e só pára quando a trazem a mim".
(Aqui a passagem de uma outra carta): "Teresinha perguntou-me outro dia se iria
para o céu. Disse-lhe que sim, se se comportar direito. Respondeu-me: "Sim, mas
se eu não for ajuizada irei para o inferno... mas sei o que farei: voaria
contigo, que estarás no céu. Mas como Deus faria para me pegar? Tu me segurarias
bem forte em teus braços?" Vi em seus olhos que acreditava piamente que o Bom
Deus nada poderia fazer-lhe ainda que estivesse nos braços de sua mãe...
«Maria gosta muito de sua irmãzinha e a acha muito mimosa. Isto não é de se
estranhar, pois esta pobre pequena tem receio de desagradá-la nas mínimas
coisas. Ontem, sabendo que ela tanto gosta de rosas, quis dar-lhe uma, mas
suplicou-me que não a colhesse, porque Maria proibira. Estava rubra de emoção.
Assim mesmo, dei-lhe duas e ela não queria entrar em casa. Embora eu lhe
dissesse que as rosas eram minhas, ela afirmava: "Não, as rosas são de Maria..."
«A menina se emociona facilmente. Quando faz alguma traquinagem, todos precisam
saber. Ontem, tendo rasgado, sem querer, um canto do papel de parede, ficou em
estado lastimável, e quis logo contar ao pai. Quando este chegou, quatro horas
depois, ninguém se lembrava mais do acontecido e ela foi correndo dizer a Maria:
"Diga logo para o papai que eu rasguei o papel". E ficou esperando sua
condenação como um criminoso; mas tem em sua pequena idéia que obterá mais
facilmente o perdão se confessar a falta"
[continuação] Eu gostava muito de minha querida madrinha. Sem deixar perceber,
prestava muita atenção em tudo que se fazia e se dizia ao meu redor. Tenho a
impressão de que julgava as coisas como agora. Escutava atentamente o que Maria
ensinava a Celina, para fazer como ela. Depois de sua saída da Visitação, para
receber licença para entrar em seu quarto durante as aulas que Celina lhe dava,
comportava-me muito bem e fazia tudo que ela mandava. Por isso, me enchiam de
presentes que, apesar do pouco valor, muito me alegravam.
Eu tinha muito orgulho de minhas duas irmãs maiores, mas meu ideal de criança
era Paulina... Quando comecei a falar e mamãe me perguntava: "Em quem estás
pensando?", a resposta era sempre a mesma: "Em Paulina...!" Outras vezes,
passava meu dedinho na vidraça e dizia: "Estou escrevendo: Paulina!..."
Freqüentemente ouvia dizer que Paulina seria religiosa, e, então, sem saber o
que significava isso, pensava: Eu também serei religiosa. Esta é uma de minhas
primeiras recordações e, desde então, nunca mudei de intenção... Fostes vós,
querida Madre, a pessoa que Jesus escolheu para me fazer noiva dele; não estavas
na ocasião perto de mim, mas já se havia formado um laço entre nossas almas...
Éreis meu ideal, eu queria parecer-me convosco, e foi o vosso exemplo que me
atraiu, desde os dois anos de idade, ao Esposo das virgens. Quantos doces
pensamentos quisera confiar-vos! Mas preciso prosseguir a história da florzinha,
com sua história completa e geral, pois se eu quisesse falar detalhadamente de
suas relações com "Paulina", teria que abandonar todo o restante...!
Minha querida Leoninha também tinha um lugar importante no meu coração. Amava-me
muito. Quando toda a família saía para passear, à tarde, ela cuidava de mim...
Parece-me ainda ouvir suas agradáveis cantigas para embalar meu sono...
Procurava sempre me agradar e eu sofreria muito se lhe desse algum desgosto.
Lembro-me muito bem de sua primeira comunhão, especialmente do momento em que me
pôs no colo para entrarmos na casa paroquial. Achei tão bonito ser carregada por
uma irmã maior, toda vestida de branco como eu...! À noite, colocaram-me para
dormir cedo, pois eu era muito pequena para ficar para o jantar festivo; mas
ainda vejo papai trazendo, no momento da sobremesa, pedaços do bolo para sua
rainhazinha.
No dia seguinte, ou alguns dias depois, fomos com mamãe à casa da coleguinha de
Leônia. No dia seguinte, ou poucos dias depois, fomos com mamãe à casa da
companheirinha de Leônia. Acredito que foi naquele dia que nossa boa mamãezinha
nos levou atrás de uma parede para nos dar vinho depois do jantar (que nos
servira a pobre senhora Dagorau), pois não queria desagradar à boa mulher e
tampouco queria que nos faltasse algo... Como é delicado o coração de uma mãe!
Sabe manifestar sua ternura com mil cuidados antecipados nos quais ninguém
pensaria...!
Agora, resta-me falar da minha querida Celina, a companheirinha de minha
infância, mas as recordações são tantas, que não sei quais escolherei. Vou
extrair algumas passagens das cartas que mamãe vos mandava para a Visitação, mas
não copiarei tudo, porque me alongaria demais.
No dia 10 de julho de 1873 (ano de meu nascimento), eis o que vos dizia:
«A ama trouxe Teresinha na quinta-feira. Passou rindo o tempo todo. Foi a
Celininha de quem mais gostou. Ria às gargalhadas com ela. Parece que já quer
brincar e não demorará a fazê-lo. Fica em pé sobre as perninhas duras como
estacas. Creio que em breve começará a andar e terá bom caráter. Parece muito
inteligente e tem um aspecto de predestinada..."
Mas foi sobretudo depois de desmamada que demonstrei meu afeto por minha querida
Celininha. Nós nos compreendíamos muito bem; só que eu era muito mais esperta e
menos ingênua que ela. Mesmo sendo três anos e meio mais nova, parecíamos ter a
mesma idade. Eis o trecho de uma carta de mamãe, no qual vereis o quanto Celina
era boa e eu má:
«Minha Celininha é totalmente inclinada à virtude. É uma inclinação arraigada em
seu íntimo. Tem alma pura e repugnância ao pecado. Quanto ao pequeno furão ainda
não sabemos como será. É tão pequeno e atrapalhado! Tem inteligência superior à
de Celina, mas é menos doce e, sobretudo, de uma teimosia quase indomável.
Quando diz "não", nada a faz ceder; ainda que a colocássemos o dia todo no
porão, ainda preferiria passar a noite aí a ter que dizer "sim".
"Porém, tem um coração de ouro, é muito carinhosa e muito franca, é estranho
vê-Ia correr atrás de mim para confessar algo - Mamãe, empurrei Celina uma vez,
bati nela uma vez, mas não vou fazer mais - (é assim em tudo o que faz).
Quinta-feira à noite, fomos dar um passeio nos arredores da estação ferroviária.
Quis a todo custo entrar na sala de espera para ir buscar Paulina. Corria à
nossa frente com uma alegria contagiante. Porém, quando percebeu que era preciso
voltar para casa sem embarcar para ir buscar Paulina, chorou durante todo o
percurso".
Esse último trecho da carta me faz lembrar a felicidade que sentia vendo-vos
voltar da Visitação, vós, querida Madre, me pegáveis no colo e Maria carregava
Celina. Então, fazia -vos mil carícias e inclinava-me para trás, a fim de
admirar vossa grande trança... e me dáveis um tablete de chocolate que tínheis
guardado durante três meses, imagineis que relíquia era para mim!...
Lembro-me também da viagem que fiz a Le Mans. Era a primeira vez que viajava de
trem. Que alegria ver-me viajando sozinha com mamãe!... Porém, não sei mais por
quê, pus-me a chorar e essa pobre mamãe só pôde apresentar à minha tia de Le
Mans uma feiurinha rubra pelas lágrimas vertidas a caminho... Não conservei
lembrança alguma do parlatório, só do momento em que minha tia me entregou um
camundongo branco e uma cestinha de papel bristol cheia de bombons sobre os
quais havia dois bonitos anéis de açúcar bem do tamanho do meu dedo; logo
gritei: "Que bom! tem um anel para Celina". Mas que tristeza! Peguei minha
cestinha pela alça, dei a outra mão a mamãe e partimos. Depois de alguns passos,
olhei minha cestinha e vi que meus bombons estavam quase todos esparramados pela
rua, como as pedras do pequeno polegar... Olhei com mais atenção e constatei que
um dos preciosos anéis sofrera a sorte fatal dos bombons... Não tinha mais nada
para dar a Celina!... nesse momento, minha dor explode, peço para voltar, mamãe
não parece me dar atenção. Era demais. Aos gritos seguiram-se minhas lágrimas...
Não conseguia compreender como ela não compartilhava da minha tristeza e isso
aumentava muito a minha dor...
Agora volto às cartas nas quais mamãe vos fala de Celina e de mim. É o melhor
meio de que disponho para revelar-vos meu caráter. Eis um trecho no qual meus
defeitos despontam com intenso brilho.
"Eis que Celina brinca com a pequena de jogar cubos, brigam de vez em quando.
Celina cede para ter uma pérola na sua coroa. Vejo-me obrigada a corrigir esse
pobre bebê, que fica terrivelmente furioso quando as coisas não andam como ela
quer e rola por terra como uma desesperada, acreditando que tudo está perdido.
Há momentos em que é mais forte que ela, fica sufocada. É uma criança muito
agitada, porém muito mimosa e muito inteligente, lembra-se de tudo".
Estais vendo, Madre, como eu estava longe de ser uma menina sem defeitos! nem se
podia dizer de mim "Que era boazinha quando dormia", pois de noite era ainda
mais agitada que de dia, mandava para os ares todas as cobertas e (embora
dormindo) dava cabeçadas na madeira da minha caminha; a dor me despertava e
então dizia: "Mãe, bati-me!..." Essa pobre mãe era obrigada a levantar-se e
constatava que, realmente, tinha galos na testa, que eu me batera. Cobria-me e
voltava a deitar-se, mas depois de algum tempo eu recomeçava a me bater. Tanto
que foram obrigados a me amarrar na minha cama. Todas as noites Celininha vinha
amarrar as numerosas cordas destinadas a impedir o duendinho de se chocar e
acordar mamãe. Esta medida deu bom resultado e passei a ficar boazinha enquanto
dormia...-
Havia ainda outro defeito que tinha (quando acordada) e do qual mamãe não fala
em suas cartas. Era um grande amor-próprio. Disso vos darei apenas dois exemplos
a fim de não alongar demais minha narração. – Mamãe disse-me um dia: - "Minha
Teresinha, se te prontificares a beijar o chão, dar-te-ei um cinco centavos".
Para mim cinco centavos eram uma verdadeira fortuna. Para o ganhar, não me era
necessário diminuir minha altura, pois meu pequeno porte não constituía grande
distância entre mim e o chão. Minha altivez, no entanto, se revoltou com a idéia
de "beijar o chão". Mantendo-me bem empertigada, digo à mamãe: - "Oh! não, minha
mãezinha, prefiro ficar sem os cinco centavos..."
De outra feita tínhamos de ir até Grogny à casa da Sra. Monnier. Mamãe falou à
Maria me pusesse o lindo vestido tido azul celeste, com guarnição de rendas, mas
não me deixasse com os braços nus, para não se queimarem ao sol. Deixei que me
vestissem com aquela displicência que deveria ser própria de crianças com a
minha idade; mas, interiormente, pensava que teria ficado muito mais graciosa
com meus bracinhos nus.
Com uma índole como a minha, se fosse criada por pais carentes de virtude, ou
até se fosse como Celina mimada por Luísa, ter-me-ia tornado bem maldosa e
talvez me tivesse perdido ... Mas Jesus olhava pela sua esposinha. Quis que tudo
redundasse para o bem dela. Seus próprios defeitos, refreados a tempo,
serviram-lhe para crescer na perfeição.. . Tendo amor-próprio e também amor do
bem, tão logo comecei a pensar com sisudez (o que fiz desde pequenina) bastava
dizerem-me que alguma cousa não ficava bem, para que não precisasse ouvi-lo
dizer duas vezes... Nas cartas de Mamãe vejo, com satisfação, que na medida que
ia ficando maior lhe proporcionava mais consolo. Não tendo em redor de mim senão
bons exemplos, era natural que os quisesse seguir. Veja-se o que ela escrevia em
1876: - "A própria Teresa que por vezes quer pôr-se a marcar suas práticas
religiosas"... É uma criança encantadora, sutil como a sombra, muito vivaz, mas
seu coração é sensível. Celina e ela querem-se muito, bastam as duas para se
entreterem. Todos os dias, depois de terem almoçado, Celina vai buscar seu
galinho, pega ao mesmo tempo a galinha para Teresa. Por mim não o consigo, mas
ela é tão ágil que lhe deita a mão no primeiro bote. Depois cão as duas com as
aves sentar-se no canto da lareira e assim se distraem por muito tempo. (Foi
Rosinha que me fizera presente da galinha e do galo. Eu tinha dado o galo à
Celina). Outro dia Celina deitara comigo. Teresa deitara na cama de Celina no
segundo andar. Tinha instado com Luísa. a trouxesse para baixo, a fim de lhe
porem o vestido. Luísa sobe para a buscar, encontra a cama vazia. Teresa tinha
ouvido Celina e descera com ela. Luísa lhe diz: "- Não queres, pois, descer para
te vestires?" - "Oh! não, pobre de minha Luísa, somos como as duas franguinhas,
não podemos separar-nos!" Enquanto assim diziam, abraçavam-se e aconchegavam-se
uma a outra... Depois, à noite, Luísa, Celina e Leônia foram ao círculo católico
e deixaram a pobre Teresa, que bem compreendia ser muito pequena para ir junto.
Dizia: - "Se pelo menos quisessem deitar-me na cama de Celina!"... Mas, não, não
o quiseram... Nada falou e sozinha ficou com sua lamparina. Um quarto de hora
depois dormia a sono solto... "
Outro dia Mamãe ainda escreveu: "Celina e Teresa são inseparáveis. Não é
possível pôr os olhos em duas crianças que se queiram tanto uma a outra. Quando
Maria vem buscar Celina para a lição, a coitada da Teresa se desfaz em pranto.
Ai! que acontecerá com ela, sua amiguinha vai deixá-la... Maria fica com dó,
leva-a também e a pobre pequerrucha permanece sentada numa cadeira duas ou três
horas. Dão-lhe pérolas para enfiar ou um retalho para coser. Tem receio de
mexer-se e, de vez em quando solta fortes suspiros. Quando a agulha se desenfia,
tenta enfiá-la de novo. É interessante observá-la como não o pode conseguir e
não quer dar trabalho a Maria. Sem demora, a gente vê duas grossas lágrimas
correrem-lhe pelas faces ...Maria não tarda em consolá-la, torna a enfiar a
agulha, e o pobre anjinho sorri através de suas lágrimas..."
Lembra-me, com efeito, que não podia ficar sem Celina. Preferia sair da refeição
antes de terminar a sobremesa, do que não lhe ir atrás, tão logo se levantasse.
Virava-me em minha cadeira alta, a pedir que me descessem, e depois íamos
brincar juntas. Íamos às vezes com a pequena "prefeita", o que muito me agradava
por causa do parque e de todos os lindos brinquedos que ela nos mostrava, mas
era mais na intenção de contentar Celina que ia para lá, preferindo quedar-me em
nosso pequeno jardim a esgaravatar os muros, pois extraíamos todas as faiscantes
palhetinhas que ali se achavam e íamos em seguida vendê-las ao Papai que no-las
comprava com toda a seriedade.
No domingo, sendo muito pequena para freqüentar os ofícios religiosos, Mamãe
ficava para tomar conta de mim. Comportava-me bem e só andava na ponta dos pés
durante o tempo da missa. Logo, porém, que visse a porta abrir-se, era sem igual
a explosão de alegria. Precipitava-me ao encontro de minha linda irmãzinha que
estava então "enfeitada como um oratório" . . . e dizia-lhe: "Oh! minha
Celininha, dá-me depressa pão bento!" Algumas vezes não o tinha, porque havia
chegado atrasada... Que fazer então? Era-me impossível ficar sem ele. Nisso
consistia "fuinha missa"... Encontrou-se um meio com muita rapidez. - "Se não
tens pão bento, pois então benze-o!" Dito e feito. Celina toma uma cadeira, abre
o armário da parede, pega o pão, corta um bocado, sobre o qual, muito
compenetrada, recita uma Ave-Maria, e apresenta-mo em seguida. E eu, depois de
[ter] feito com ele o sinal da Cruz, como-o com grande devoção, achando-lhe,
absolutamente, o gosto de pão bento...
De vez em quando fazíamos juntas conferências espirituais: Aqui está um exemplo
que tiro das cartas de Mamãe: - "Nossas queridas pequenas Celina e Teresa são
anjos abençoados, naturezas angélicas em miniatura. Teresa constitui a alegria,
a felicidade de Maria e sua glória; é incrível como se orgulha disso. Verdade é
que tem saídas bem singulares para sua idade. De longe ultrapassa Celina, que
tem o dobro da idade dela. Dizia Celina outro dia: - "Como pode Deus caber em
hóstia tão pequena?" Falou a pequena: "Não é tanto de admirar, uma vez que Deus
é todo-poderoso". - "Que quer dizer Todo-poderoso?" - "É fazer tudo o que Ele
quer!."
Um dia, julgando-se muito crescida para brincar com boneca, Leônia veio
procurar-nos a nós duas com uma cesta cheia de vestidos e de lindos retalhos
para fazer outros; por cima estava colocada sua boneca. - "Tomai lá, minhas
irmãzinhas, diz-nos ela, escolhei, dou-vos tudo isto". Celina estendeu a mão e
tomou um pacotinho de alamares que lhe agradava. Após um instante de reflexão,
estendi a mão por minha vez e declarei: - "Escolho tudo!" e apoderei-me da cesta
sem outra formalidade. As testemunhas da cena acharam o caso muito justo, a
própria Celina nem pensou em reclamar. (Aliás; brinquedos não lhe faltavam, seu
padrinho cumulava-a de presentes e Luísa descobria meios de arrumar-lhe tudo
quanto desejasse).
Este pequeno episódio de minha infância é o apanhado de toda a minha vida. Mais
tarde, quando se me tornou evidente o que era perfeição, compreendi que para se
tornar santa era preciso sofrer muito, ir sempre atrás do mais perfeito e
esquecer-se a si mesmo. Compreendi que na perfeição havia muitos graus e que
cada alma era livre no responder às solicitações de Nosso Senhor, no fazer muito
ou pouco por Ele, numa palavra, no escolher entre os sacrifícios que exige.
Então, como nos dias de minha primeira infância, exclamei: "Meu Deus, escolho
tudo". Não quero ser santa pela metade. Não me faz medo sofrer por vós, a única
cousa que me dá receio é a de ficar com minha vontade. Tomai-a vós, pois
"escolho tudo" o que vós quiserdes!. . . "
É forçoso que pare, pois não devo ainda falar-vos de minha juventude, mas da
estouvadinha aos quatro anos de idade. Lembro-me de um sonho que devo ter tido
por volta dessa idade e que me calou profundamente na imaginação. Sonhei uma
noite que saía a passear sozinha pelo jardim. Chegando ao pé dos degraus que
precisava subir para ali chegar, estaquei tomada de pavor. Diante de mim, rente
ao caramanchão, havia uma barrica de cal e sobre a barrica dançavam, com
espantosa agilidade, dois medonhos diabinhos, não obstante os ferros de engomar
que tinham nos pés. De chofre lançaram sobre mim seus olhares chamejantes, mas
ao mesmo instante, parecendo muito mais assustados do que eu, precipitaram-se da
barrica abaixo e foram esconder-se na rouparia que ficava defronte. Ao vê-los
tão pouco valorosos, quis saber o que iriam fazer e acerquei-me da janela. Lá
estavam os míseros diabinhos a correr por sobre as mesas, não sabendo o que
fazer para se esquivarem do meu olhar. De vez em quando chegavam até a janela, e
olhavam com um ar inquieto, se eu ainda estava lá e como sempre me avistassem,
começavam a correr de novo como desatinados. - Sem dúvida, este sonho nada tem
de extraordinário, acredito, no entanto, que o Bom Deus permitiu que guarde sua
lembrança, a fim de me provar que uma alma em estado de graça nada deve temer
dos demônios, que são uns poltrões, capazes de fugir diante do olhar de uma
criança...
Eis aí mais uma passagem que deparo nas cartas de mamãe. Minha pobre Mãezinha já
pressentia o fim do seu desterro: "As duas meninas não me preocupam, estão tão
bem todas as duas, são temperamentos primorosos, serão por certo boas criaturas.
Maria e tu estareis em perfeitas condições de educá-las. Celina não comete
jamais a mínima falta voluntária. A pequerrucha será boa também. Por todo o ouro
do mundo não diria uma mentira; é de uma finura de espírito como jamais a
observei em nenhuma de vós".
"Estava ela outro dia na mercearia com Celina e Luísa. Falava de suas práticas e
discutia fortemente com Celina. A senhora disse à Luísa: "Mas então o que quer
ela dizer? quando brinca no jardim não se ouve falar senão de práticas. A Sra.
Gaucherin mete a cabeça para fora da janela num esforço de entender o que
significa essa altercação sobre práticas..." A coitada da pequena faz a nossa
felicidade, vai ser boa, já se vê pelo indício. Só fala do Bom Deus, por nada no
mundo deixaria de fazer suas orações. Gostaria que a visses recitar pequenas
fábulas, nunca presenciei algo de tão gentil. Encontra por si mesma a
interpretação e a tonalidade que é preciso dar, mas isto é sobretudo quando diz:
- "Criancinha de cabeça loura, onde imaginas que está o Bom Deus?" Quando ela
chega às palavras: - "Ele está lá no alto do Céu azul", volve o olhar para 'cima
com uma expressão angélica. Tão belo é que a gente não se cansa de fazê-la
recitar. Há em seu olhar algo de tão celestial que nos deixa encantados! . . ."
Ó minha Mãe! Quão feliz era eu nessa idade! Já começava a desfrutar a vida. A
virtude tinha encantos para mim, e eu estava, parece-me, nas mesmas disposições
em que me acho agora, já dispondo de grande domínio sobre meus atos. - Ah! como
se foram rapidamente os ensolarados dias de minha meninice, mas que doce
impressão me deixaram na alma! Com prazer recordo os dias em que Papai nos
levava consigo ao Pavilhão. As mínimas particularidades gravaram-se em meu
coração... Lembra-me, antes de tudo, os passeios de Domingo, nos quais Mamãe
sempre nos acompanhava. .. Sinto ainda as profundas e poéticas impressões 'que
me nasciam na alma à vista dos trigais esmaltados de centáureas e flores
campestres. Já era aficionada pelos longes. . . O espaço e os agigantados
abetos, cuja ramagem chegava até ao chão, deixavam-me na alma impressão
semelhante à que ainda hoje sinto quando contemplo a natureza... Muitas vezes
nestes longos passeios encontrávamos com pobres e era sempre a Teresinha
incumbida de dar-lhes a esmola, o que a deixava toda venturosa. Mas, também
outras vezes, achando Papai que a caminhada ficava longa demais para sua
rainhazinha, levava-a mais cedo de volta para casa (com grande desgosto dela).
Para a consolar Celma enchia então de margaridas seu lindo cestinho e dava-lho,
quando chegava em casa. A boa da vovó-", ainda mal, achava que a netinha tinha
flores demais, tomava-lhe grande parte para sua imagem da Santa Virgem... Isso
não agradava à Teresinha, mas ela muito se precavia para que nada dissesse.
Tinha adquirido o bom hábito de nunca se queixar, mesmo quando lhe tiravam o que
era seu, ou então quando era acusada injustamente. Preferia calar e não
escusar-se. Não era mérito seu, mas virtude natural... Que pena que esta boa
disposição se tenha desvanecido! ...
Oh! realmente, tudo me sorria na terra. Deparava com flores a cada passo que
desse, e minha boa índole contribuía também para me tornar a vida agradável. Ia,
porém, começar um novo período para minha alma. Devia passar pelo cadinho da
provação e sofrer desde a minha infância, a fim de que pudesse ser oferecida
mais cedo a Jesus. Assim como as flores da primavera começam a germinar debaixo
da neve e desabrocham nos primeiros raios do Sol, assim também a florinha, cujas
reminiscências estou a escrever, teve que passar pelo inverno da provação...
Todos os pormenores da doença de nossa querida Mãe estão ainda vivos em meu
coração. Lembro-me, principalmente, das últimas semanas que passou na terra.
Celina e eu vivíamos como pequeninas exiladas. Todas as manhãs, a Sra. Leriche
vinha buscar-nos, e passávamos o dia em casa dela. Um dia não tivemos tempo de
fazer nossa oração antes de sair, e no caminho disse-me Celina bem baixinho:
"Convém dizer-lhe que não fizemos nossa oração?..." - "Oh! sim", respondi-lhe.
Então, com bastante timidez, disse-o à Sra. Leriche. Respondeu-nos ela: - "Está
certo, minhas filhinhas, ireis fazê-la". E depois, largando-nos ambas num quarto
grande, foi-se embora... Então Celina olhou para mim, e dissemos: "Ah! não é
como a Mamãe... Sempre nos fazia recitar nossa oração!" ... Quando brincávamos
com as crianças, o pensamento de nossa querida Mãe sempre nos acompanhava. Certa
vez, tendo ganhado um lindo damasco, Celina abaixou-se e cochichou-me: "Não
vamos comê-lo, da-lo-ei à Mamãe". Que lástima! a coitada de nossa Mãezinha já
estava doente demais para comer as frutas da terra. Já não se saciaria senão no
Céu com a glória de Deus e não beberia senão com Jesus o misterioso vinho, do
qual Ele falara em sua última Ceia, quando disse que o tomaria conosco no reino
de seu Pai'.
A comovente cerimônia da Extrema-Unção também me ficou gravada na alma. Vejo
ainda o lugar onde me achava ao lado de Celina. Todas as cinco estávamos pela
ordem de idade, e nosso pobre Paizinho estava ali também e soluçava...
No próprio dia ou no dia imediato à partida da Mamãe, tomou-me nos braços,
dizendo-me: "Vem beijar pela última vez tua pobre Mãezinha". E sem dizer nada
cheguei os lábios à fronte de minha Mãe querida... Não me lembra ter chorado
muito. Não dizia a ninguém os profundos sentimentos que experimentava... Olhava
e escutava em silêncio... Ninguém tinha tempo de ocupar-se comigo. Por causa
disso via muitas cousas que teriam a intenção de ocultar-me. Primeiramente, dei
comigo diante da tampa do esquife... Fiquei longo tempo parada a contemplá-lo.
Nunca tinha visto nenhum, e, no entanto, compreendia... Era tão pequena que,
apesar de estar pouco alto o corpo da Mamãe, precisava erguer a cabeça para o
avistar de cima, e parecia-me muito grande... muito triste... Quinze anos mais
tarde, estive diante de outro esquife, o da Madre Genoveva 4. Tinha a mesma
medida que o da Mamãe, e julguei estar ainda nos dias de minha infância! ...
Todas ás minhas reminiscências retornaram a tropel. Era por certo a mesma
Teresinha que estava a olhar, mas havia crescido e o esquife parecia-lhe
pequeno. Já não precisava erguer a cabeça para o enxergar. Já não a erguia senão
para contemplar o Céu que lhe parecia bem alegre, pois todas as suas provações
tinham tomado um fim e o inverno de sua alma passara para sempre...
No dia que a Igreja lançou a bênção sobre os despojos mortais de nossa Mãezinha
do Céu, nosso Deus quis dar-me outra na terra, e quis que a escolhesse
livremente. Está vamos juntas, todas as cinco, a olhar umas às outras, Luísa
também estava ali. Quando viu Celina e a mim disse: "Pobres pequenas, já não
tendes Mãe!..." Então Celina lançou-se aos braços de Maria e disse: "Pois bem!
Mamãe serás tu". Eu, habituada a fazer igual a ela, voltei-me, no entanto, para
vós, minha Mãe, e como se o porvir já tivesse rompido seu véu, atirei-me aos
vossos braços, exclamando "Pois, sim, para mim Paulina será Mamãe!"
Como o disse mais acima, foi a partir dessa época de minha vida que tive de
iniciar o segundo período de minha existência, o mais doloroso dos três,
mormente desde a entrada no Carmelo daquela que tinha escolhido como minha
segunda "Mamãe". Este período vai da idade de quatro anos e meio até a data de
catorze anos, época em que recuperei minha índole de criança, bem justamente
quando entrava no lado sério da vida.
Devo dizer-vos, minha Mãe, que depois da morte da Mamãe minha boa índole mudou
por completo. Tão viva; tão expansiva, que era, fiquei tímida e frouxa, sensível
a mais não poder. Bastava um olhar para me desfazer em lágrimas. Era preciso que
ninguém me desse maior atenção para me sentir contente. Não podia tolerar a
companhia de pessoas estranhas, e só recuperava minha alegre disposição na
intimidade da família... Continuava, entretanto, a ser cercada do mais sensível
carinho. Ao amor que já possuía, o tão meigo coração do Papai teve por acréscimo
um amor verdadeiramente maternal! ... Minha Mãe, vós e Maria não éreis para mim
as mais carinhosas e mais abnegadas das mães?... Ah! se o Bom Deus não tivesse
prodigalizado à sua florzinha seus raios benfazejos, ela nunca teria podido
aclimar-se na terra. Era ainda débil demais para suportar chuvas e tempestades.
Precisava de calor, de um orvalho suave, de um bafejo primaveril. Nunca careceu
de todos estes benefícios. Jesus lhos fez encontrar até debaixo da neve da
provação!
Não senti nenhum desgosto por deixar Alençon. Crianças gostam de mudança e com
prazer vim para Lisieux. Tenho lembrança da viagem, da chegada pela tarde à casa
de minha tia. Vejo ainda Joana e Maria que nos aguardavam à porta... Estava
muito satisfeita de ter umas priminhas tão amáveis. Gostava tanto delas como de
minha tia, e sobretudo de meu tio; somente que ele me fazia medo e não me sentia
tão à vontade em sua casa como nos Buissonnets, onde minha vida era realmente
feliz... Logo de manhã vínheis para junto de mim a perguntar-me se já entregara
meu coração ao Bom Deus. Em seguida me púnheis a roupa, enquanto me faláveis
Dele e depois ao vosso lado fazia minha oração. Depois, vinha a lição de
leitura. A primeira palavra que consegui soletrar sozinha foi esta: "Céus".
Minha querida madrinha encarregava-se das aulas de caligrafia, e vós, minha Mãe,
de todas as outras. Não tinha muita facilidade de aprender, mas dispunha de
bastante memória. O catecismo e antes de tudo a história sagrada eram as minhas
preferências, estudava-os com alegria. Mas a gramática fazia-me às vezes
derramar lágrimas... Estais lembrada do masculino e do feminino?
Logo que terminava a aula, subia ao mirante e levava a papai minha caderneta e
minha classificação. Como ficava radiante, quando lhe podia dizer: "Tenho 5 com
louvor, foi Paulina a primeira que o declarou!..." Pois, quando vos perguntava
se tinha 5 com louvor e vós me dizíeis que sim, aos meus olhos era uma nota a
menos. Vós também me dáveis bons pontos, e quando tinha alcançado certo número
deles, ganhava um prêmio e uma folga. Lembro-me de 14 que os dias de folga se me
afiguravam mais longos do que os demais, o que vos dava prazer, por demonstrar
que não apreciava ficar sem nenhuma ocupação.
Todas as tardes ia a pequeno passeio com papai. Fazíamos juntos nossa visita ao
Santíssimo Sacramento, e cada dia visitávamos uma nova igreja. Assim entrei pela
primeira vez na capela do Carmelo. Papai mostrou-me as grades do coro,
dizendo-me que atrás delas havia religiosas. Muito longe estava de pensar que,
nove anos mais adiante, me encontraria entre elas! ...
Depois do passeio (durante o qual papai me comprava sempre um presentinho de um
ou dois soldos), recolhia-me em casa. Fazia então minhas lições. A seguir,
ficava todo o resto do tempo a saltitar no jardim em volta do papai, pois não
sabia brincar com boneca. Para mim era grande alegria preparar chás com
grãozinhos e com cascas de árvores que encontrava pelo chão. Levava-os depois ao
papai numa linda xícara pequena. O coitado do paizinho largava sua ocupação e
depois sorridente fazia de conta que tomava. Antes de me devolver a xícara
perguntava-me (como que em segredo) se era para jogar fora o conteúdo. As vezes,
dizia que sim, mas o mais freqüente era levar de volta meu precioso chá, com a
intenção de tornar a servi-lo várias vezes... Gostava de cultivar minhas
florzinhas no jardim que papai me tinha dado. Entretinha-me em armar altarzinhos
no vão que havia ao centro do muro. Quando terminava a obra, corria a papai e,
levando-o comigo, dizia-lhe que fechasse bem os olhos e só os abrisse no momento
que lho mandasse. Fazia tudo o que eu queria, e deixava-se conduzir até a frente
do meu jardinzinho. Então eu gritava: "Papai, abre os olhos!" Ele abria-os e
extasiava-se para me dar prazer, admirando o que eu julgava ser uma obra-prima!
... Seria um nunca acabar se quisera contar mil pequenos episódios desse gênero,
que me acodem profusamente à memória... Ah! como poderia enumerar todos os
carinhos que "Papai" prodigalizava à sua rainhazinha? Há cousas que o coração
sente, mas que a palavra e a própria idéia não conseguem formular...
Bonitos para mim eram os dias em que meu "rei querido" me levava à pescaria
consigo. Tinha tanto amor ao campo, às flores e às aves! Tentava às vezes pescar
com minha varinha, mas de preferência ia sentar sozinha na relva florida. Meus
pensamentos aprofundavam-se bastante e, sem saber o que era meditar, minha alma
mergulhava em autêntica oração... Ouvia ruídos ao longe... O murmúrio do vento e
até a música indecisa de soldados, cuja sonoridade me chegavam aos ouvidos,
melancolizavam suavemente meu coração... A terra parecia-me lugar de degredo, e
eu sonhava com o Céu... A tarde passava rápida, e dentro em pouco era hora de
regressar aos Buissonnets, Antes de partir, porém, tomava o lanche trazido no
meu cestinho. Mudara de aspecto, a linda merenda com geléia de fruta que me
tínheis preparado. Em lugar da cor ativa, já não via senão uma ligeira mancha
cor de rosa, toda ressequida e amarfanhada... Então a terra se me apresentava
mais tristonha ainda, e compenetrava-me de que só no Céu haverá alegria sem
anuviamento. . .
A propósito de nuvens, lembro-me de que um dia o formoso Céu azul campestre se
anuviou e logo começou a zunir a tempestade. Os coriscos sulcavam as nuvens
carregadas, e vi cair um raio a pouca distância. Longe de ficar com medo,
extasiava-me, tendo a impressão de que o Bom Deus estava tão perto de mim! ...
Papai não estava, de modo algum, tão contente como sua rainhazinha. Não que a
tempestade lhe incutisse medo, mas porque o capim e os malmequeres (mais altos
do que eu) brilhavam como pedrarias preciosas, tendo nós de atravessar vários
vergéis antes de chegar a um caminho. E meu querido paizinho, temeroso que os
aljôfares molhassem sua filhinha, tomou-a às costas, apesar da carga dos
apetrechos de pesca.
Nos passeios que fazia com ele, o papai gostava de me mandar entregar a esmola
aos pobres que encontrássemos. Certo dia vimos um que se arrastava com
dificuldade em muletas. Acerquei-me para lhe dar um óbolo. Mas, não se julgando
bastante pobre a ponto de aceitar esmola, ele olhou-me com triste sorriso e não
quis pegar o que lhe oferecia. Não consigo descrever o que se passou em meu
coração. Quisera consolá-lo e reconfortá-lo. Em lugar disso, porém, julguei que
o tinha magoado. O pobre doente adivinhou por certo meu pensamento, pois que o
vi virar-se para trás e envolver-me num sorriso. Papai acabava de comprar um
doce para mim. Bem me veio a vontade de lho dar, mas não tive coragem. Ainda
assim queria dar-lhe alguma cousa que não me pudesse refugar, pois sentia por
ele uma simpatia muito grande. Ocorreu-me então ter ouvido falar que, no dia da
primeira comunhão, a gente obteria tudo o que pedisse. Este pensamento foi um
consolo para mim, e disse comigo mesma, embora só tivesse seis anos ainda:
"Rezarei pelo meu pobre no dia da minha primeira comunhão". Cumpri a promessa
cinco anos mais tarde, e espero que o Bom Deus tenha atendido a oração que me
inspirara a fazer-lhe por um de seus membros sofredores...
Tinha muito amor ao Bom Deus, e amiúde lhe oferecia meu coração, valendo-me da
breve fórmula que mamãe me ensinara. No entanto, certo dia, ou melhor, certa
noite do lindo mês de Maio, cometi uma falta que bem merece referência. Deu-me
grande motivo de humilhar-me, e a respeito dela creio ter tido contrição
perfeita. Sendo muito pequena para freqüentar o mês de Maria, ficava com
Vitória' e fazia com ela minhas devoções diante do meu altarzinho do mês de
Maria, adornado de acordo com minha capacidade.-Tudo era tão miudinho: castiçais
e vasos de flores, de sorte que dois fósforos, à guisa de velas, clareavam tudo
perfeitamente. As vezes, Vitória fazia-me a surpresa de dar-me uns pedacinhos de
torcida, mas era caso raro. Uma noite, estando tudo prestes para nos pormos em
oração, digo-lhe: "Vitória, queres começar com o "Lembrai-vos", que vou
acender". Ela fez menção de começar, mas não disse palavra, e olhava-me rindo.
Eu que via meus preciosos fósforos consumirem-se rapidamente, supliquei-lhe
fizesse a oração, e ela continuou calada. Levantei-me então e pus-me a
dizer-lhe, com voz gritada, que era maldosa, e, abandonando minha habitual
brandura batia o pé com toda a minha força... A pobre da Vitória já não tinha
vontade de rir. Olhou para mim com estranheza, e mostrou-me as torcidas que me
havia trazido... Depois de verter lágrimas coléricas, derramei lágrimas de
sincero arrependimento, com o firme propósito de não tornar a fazê-lo!...
Aconteceu-me, mais uma vez, outra peripécia com Vitória, mas não tive nenhum
arrependimento, pois conservei perfeitamente minha serenidade. - Desejava ter um
tinteiro que se encontrava em cima da chaminé da cozinha. Sendo muito pequena
para o tomar, pedi à Vitória muito delicadamente mo entregasse, mas ela o
recusou e mandou-me subir numa cadeira. Sem dizer nada, tomei, a cadeira, mas a
pensar que não era atenciosa. Querendo fazer que o sentisse, busquei em minha
cabecinha o que mais me ofendia. Quando se aborrecia comigo, ela chamava-me de "pirralhinho",
o que muito me humilhava. Então, antes de pular da minha cadeira abaixo,
virei-me com dignidade e disse-lhe: "Vitória, sois um pirralho!" Depois escapei
dali, deixando que meditasse a profunda declaração que eu acabava de
fazer-lhe... A reação não se fez esperar. Logo a escutei, que esbravejava:
"Senhorita Maria... a Teresa acaba de dizer-me que não passo de um pirralho!"
Veio Maria e obrigou-me a pedir perdão, o que, porém, fiz sem contrição, por
achar merecido o título de pirralho, uma vez que não quis estender seu grande
braço para me prestar um pequeno serviço... Entanto, ela me queria muito, e
também eu gostava muito dela. Um dia, tirou-me de grande risco em que caíra por
culpa minha. Estava Vitória a passar roupa, e tinha ao lado um balde com água
dentro. Eu, porém, olhava para ela a balouçar-me numa cadeira (e era hábito
meu), e de repente me escapa a cadeira e caio, não no chão, mas no fundo o
balde!!!... Os pés tocavam na cabeça, e eu abarrotava o balde como o pintinho
abarrota o ovo! ... A pobre da Vitória contemplava-me com um extremo de
surpresa, pois nunca tinha visto situação igual. Tinha todo o empenho de
safar-me quanto antes do meu balde, cousa que resultava impossível. Minha prisão
era tão ajustada que eu não lograva fazer nenhum movimento. Com um pouco de
dificuldade, ela salvou-me do meu grande perigo, mas não salvou minha roupa e
tudo o mais, de sorte que tive de trocar a roupa, pois estava molhada que nem um
pinto.
Outra ocasião caí dentro da lareira. Felizmente o fogo não estava aceso. Vitória
não teve senão o incômodo de levantar-me e sacudir a cinza de que ficara
coberta. Foi numa quarta-feira, quando estáveis no ensaio de canto com Maria,
que todos esses reveses me aconteceram. Foi também numa quarta-feira que o Pe.
Ducellier veio visitar-nos. Como Vitória lhe dissesse que não havia ninguém em
casa senão Teresinha, ele entrou na cozinha para me visitar e olhou minhas
lições. Muito desvanecida fiquei em receber meu confessor, porque pouco tempo
antes me tinha confessado pela primeira vez. Que suave lembrança para mim!...
Ó minha Mãe querida! com que solicitude me preparastes, quando me explicastes
que não era a um homem, mas ao Bom Deus que iria contar meus pecados. Disto
estava tão convicta, que fiz minha confissão com grande espírito de fé, e
cheguei até a perguntar-vos, se não seria mister referir ao Padre Ducellier que
o amava de todo o meu coração, pois que em sua pessoa era ao Bom Deus que ia
falar...
Bem instruída a respeito de tudo quanto devia fazer e dizer, entrei no
confessionário e pus-me de joelhos. Quando, porém, abriu o postigo, Padre
Ducellier não enxergou ninguém. Era tão pequena, que a cabeça não alcançava o
parapeito, onde se apóiam as mãos. Então mandou-me ficar de pé. Obedecendo
imediatamente, levantei-me e postei-me bem na frente dele para o ver melhor. Fiz
minha confissão como se fosse uma menina grande e recebi sua bênção com grande
devoção, porque me havíeis explicado que, nesse momento, as lágrimas do Menino
Jesus purificariam minha alma. Lembro-me de que a primeira exortação que me foi
feita, incitava-me principalmente a ter devoção à Santíssima Virgem, e prometi a
mim mesma redobrar minha ternura para com ela. Ao sair do confessionário estava
tão contente e lépida, como jamais sentira tamanha alegria na alma. Depois,
tornava a confessar-me em todas as grandes festas litúrgicas, e para mim era
cada vez um verdadeiro gozo, quando o fazia.
Os dias santos!... Ah! quantas recordações não desperta esta palavra! ... Os
dias santos, como os amava! ... Vós, minha querida Mãe, sabíeis explicar-me tão
bem todos os mistérios ocultos em cada um deles, que para mim eram
verdadeiramente dias do Céu. Gostava mormente das procissões do Santíssimo
Sacramento. Que alegria esparzir flores aos pés do Bom Deus! ... Antes, porém,
de deixá-las cair, atirava-as o mais alto que podia, e nunca me dava por tão
feliz como na ocasião que via minhas rosas desfolhadas tocarem no sagrado
Ostensório...
Os dias santos! Ah! se os grandes eram raros, cada semana trazia de novo um
muito chegado ao meu coração: "o Domingo!" Que dia grande, o Domingo!...
Era o dia santo do Bom Deus, o dia santo do repouso. Primeiro ficava nanando
mais tempo do que nos outros dias, e depois mamãe Paulina mimava sua filhinha,
quando lhe servia o chocolate em sua dormida, e ato contínuo a vestia como uma
rainhazinha... Vinha a madrinha fazer o penteado da afilhada. Esta nem sempre
ficava quietinha, quando lhe assentavam o cabelo, mas depois tinha toda a
satisfação de ir pegar a mão de seu Rei que, em tal dia, lhe dava um abraço mais
afetuoso do que de ordinário, pois toda a família se movimentava para a Missa.
Em todo o trajeto do caminho, e mesmo dentro da igreja, a "Rainhazinha do Papai"
dava-lhe a mão. Tomava lugar ao lado dele, e quando nos víamos obrigados a
chegar mais adiante para o sermão, era preciso ainda encontrar dois assentos, um
ao lado do outro. Não se tornava muito difícil. Toda a gente parecia achar tão
amorável ver um ancião tão imponente com uma filha tão pequenina, que as pessoas
não se incomodavam em ceder seus lugares. Meu tio que ficava nos bancos dos
fabriqueiros, alegrava-se quando nos via chegar. Dizia ser eu seu mimoso raio de
Sol... Por mim, não me inquietava de ser alvo de olhares. Ouvia muito atenta os
sermões, dos quais, aliás, não alcançava muita cousa. O primeiro que entendi, e
que me comoveu profundamente foi um sermão sobre a Paixão, pregado pelo Padre
Ducellier. Dali por diante entendi todos os outros sermões. Quando o pregador
falava de Santa Teresa, papai curvava-se para me dizer baixinho: "Escuta bem,
minha rainhazinha, ele fala de tua Santa Padroeira". Realmente, estava escutando
bem, mas olhava mais vezes para o papai do que para o pregador. Seu belo
semblante dizia-me tantas cousas! ... Por vezes, seus olhos marejavam-se de
lágrimas. Em vão procurava sopitá-las. Parecia estar já desligado da terra,
tanto sua alma gostava de imergir nas verdades eternas ... Sua carreira, porém,
estava longe do termo final. Longos anos deviam passar, antes que o belo Céu se
abrisse a seus olhos embevecidos, e o Senhor enxugasse as lágrimas do seu bom e
fiel servidor! ...
Mas, novamente torno ao meu dia de Domingo. Esse dia de gozo que passava tão
depressa, tinha seu toque de melancolia. Lembra-me que, até a hora de Completas,
minha felicidade era sem travo algum. Durante essa hora canônica, vinha-me o
pensamento de que o dia de repouso ia terminar... que no dia seguinte seria
necessário recomeçar a vida, trabalhando, aprendendo lições, e o coração sentia
o exílio da terra... Suspirava pelo eterno repouso do Céu, pelo Domingo sem
ocaso da Pátria! ...
Acontecia que até os próprios passeios, feitos antes de recolher-nos aos
Buissonnets, me deixavam na alma um sentimento de tristeza. A família, então, já
não se reunia toda, porque Papai, querendo agradar a Titio, deixava-lhe Maria ou
Paulina todas as tardes de Domingo. Havia a única circunstância de que, para
mim, era grande alegria poder ficar também. Gostava que assim acontecesse, mais
do que ser convidada exclusivamente, porque então se ocupavam menos comigo. Meu
máximo prazer era escutar tudo quanto meu Tio falava. Não apreciava, porém, que
me fizesse perguntas, e sentia bastante medo, quando me punha sobre um joelho
só, enquanto cantava o Barba-Azul com voz formidável... Era, pois, com
satisfação que aguardava a chegada do Papai para nos buscar.
Na volta, olhava para as estrelas que cintilavam docemente, e esta vista me
enlevava... Havia, sobretudo, uma constelação de pérolas de ouro que notava com
alegria, por achar que tinha a forma de um T (aqui ponho mais ou menos sua
forma). Fazia com que Papai a visse, dizendo-lhe que meu nome estava inscrito no
Céu. Depois, não querendo ver nada desta terra mesquinha, pedia-lhe que me
guiasse. Então, sem olhar onde punha os pés, erguia a cabecinha bem alto para o
ar, e não me cansava de contemplar o azul do Céu estrelado! ...
Que direi de nossos serões de inverno, mormente dos de Domingo? Ah! como me era
agradável, depois do jogo de damas, sentar-me com Celina nos joelhos de Papai...
Como sua bela voz, entoava canções que enchiam a alma de pensamentos elevados...
ou então, embalando-nos de mansinho, recitava poesias inspiradas nas verdades
eternas... Depois, subíamos para fazer a oração em comum, e a rainhazinha ficava
só ao pé do seu Rei, não precisando senão olhar para ele para saber como rezam
os Santos... Afinal, íamos por ordem de idade dar boa-noite a Papai e receber um
beijo. A rainha vinha naturalmente por última. Para a beijar, o rei tomava-a
pelos cotovelos, e ela exclamava bem alto: "Boa noite, Papai, boa noite, dorme
bem". Todas as noites era a mesma repetição...
Em seguida, minha mãezinha tomava-me nos braços e levava-me à cama de Celina.
Então eu dizia: "Paulina, fui boazinha hoje?... Será que os anjinhos voarão em
redor de mim?" A resposta era sempre que sim. Do contrário, passaria a noite
toda a chorar. .. Depois de me beijar, como também o fazia minha querida
madrinha, Paulina tornava a descer, e a coitada da Teresinha ficava
completamente só na escuridão. Por mais que imaginasse os anjinhos a voarem em
derredor, o pavor logo a dominava, as trevas faziam-lhe medo, porque da cama não
divisava as estrelas que fulgiam levemente...
Considero verdadeira graça que vós, minha querida Mãe, me acostumastes a vencer
meus temores. De vez em quando, mandáveis-me de noite ir buscar sozinha algum
objeto num cômodo distante. Se não fora tão bem orientada, teria ficado muito
medrosa, ao passo que agora é realmente difícil assustar-me... Ocasiões há em
que indago a mim mesma como pudestes educar-me com tanto amor e delicadeza sem
me deixar baldosa; pois, a verdade é que não me deixáveis passar nenhuma
imperfeição. Nunca me censuráveis sem razão de ser, como também nunca voltáveis
atrás numa coisa já decidida. Sabia-o tão bem que eu não teria podido nem
desejado dar um passo se mo proibistes. Até papai era obrigado a conformar-se
com vossa vontade. Sem o consentimento de Paulina, não ia a passeio e quando
papai dizia para eu ir eu respondia: "Paulina não quer". Então, ele ia pedir por
mim. Para agradar-lhe, algumas vezes Paulina dizia sim, mas Teresinha percebia
pela sua fisionomia que contra sua vontade. Punha-se a chorar sem aceitar
consolo até que Paulina dissesse sim e a beijasse cordialmente.
Quando Teresinha adoecia, o que acontecia todos os invernos, não é possível
dizer com que ternura era tratada. Paulina fazia-a dormir em sua cama (favor
indizível) e lhe dava tudo o que ela queria. Um dia, Paulina pegou debaixo do
travesseiro uma linda faquinha que lhe pertencia e, dando-a à sua filhinha,
deixou-a mergulhada num deslumbramento indescritível: "Ah! Paulina", exclamou
ela, "tu me amas muito para te desfazeres por mim da tua linda faquinha que tem
uma estrela de madrepérola... Mas, sendo que me amas tanto, farias o sacrifício
do teu relógio para eu não morrer?..." "Não só para tu não morreres, daria meu
relógio; mas faria logo o sacrifício dele para ficares boa logo". Ao ouvir essas
palavras de Paulina, meu espanto e minha gratidão foram tantos que não sei
expressá-los... No verão, às vezes, eu tinha náuseas; Paulina tratava-me ainda
com ternura. Para distrair-me, o que era o melhor remédio, carregava-me num
carrinho de mão em volta do jardim e, fazendo-me descer, colocava no lugar um
bonito pé de margaridas que ela carregava com muita precaução até meu jardim,
para onde ele era transplantado com grande solenidade...
Paulina recebia todas as minhas confidências íntimas, dissipava todas as minhas
dúvidas... Uma vez, estranhei que Deus não desse glória igual no Céu a todos os
eleitos e receava que não fossem todos felizes, Então, Paulina fez-me buscar o
copo grande de papai e colocá-lo ao lado do meu pequeno dedal e disse para
encher os dois. A seguir, perguntou-me qual dos dois estava mais cheio. Respondi
que os dois estavam cheios e não podiam conter mais. Minha mãe querida fez-me
então compreender que o Céu Deus dá a seus eleitos tanta glória quanto podem
conter e que, assim, o último nada tem a cobiçar ou invejar do primeiro. Assim é
que, pondo ao meu alcance os mais sublimes segredos, sabíeis, Madre, dar à minha
alma o alimento que lhe era necessário...
Com quanta alegria via, a cada ano, chegar a premiação pelo estudo!... Aí, como
sempre, a justiça reinava e só recebia as recompensas merecidas. Sozinha, de pé
no meio da nobre assembléia, ouvia minha sentença, lida pelo Rei França e de
Navarra. Meu coração batia forte ao receber os prêmios e a coroa... para mim,
era como uma representação do juízo final!... Logo após a distribuição dos
prêmios, a rainhazinha tirava o vestido branco e apressavam-se em fantasiá-la
para tomar parte na grande peça teatral!...
Como eram alegres essas festas familiares... Como eu estava longe, então, ao ver
meu rei querido e radiante, de prever as provações que iriam visitá-lo!...
Um dia, porém, Deus mostrou-me, numa visão verdadeiramente extraordinária", a
imagem viva da provação que Ele estava preparando para nós, seu cálice já
enchia".
Papai estava viajando há vários dias e ainda faltavam dois para seu regresso.
Era duas ou três horas da tarde, o sol brilhava e a natureza parecia em festa.
Eu estava sozinha na janela de uma água-furtada que dava para o grande jardim;
olhava diante de mim, a mente ocupada por pensamentos alegres, quando avistei
frente à lavanderia que se encontrava logo adiante um homem vestido exatamente
como papai, mesma estatura e mesmo modo de andar, apenas muito mais curvado...
Sua cabeça estava coberta por uma espécie de avental de cor indefinida, de sorte
que eu não podia ver-lhe o rosto. Estava com chapéu igual ao de papai. Vi-o
andar em passos regulares, beirando meu jardinzinho... Logo, um sentimento de
pavor sobrenatural invadiu minha alma. Num instante, imaginei que papai tivesse
voltado e que se escondesse a fim de surpreender-me. Então, chamei-o em voz bem
alta, com voz trêmula de emoção: "Papai, Papai!..." Mas o estranho personagem
não parecia ouvir-me. Continuou sua caminhada regular sem olhar para trás.
Seguindo-o com os olhos, vi-o dirigir-se para o pequeno bosque que cortava ao
meio a grande alameda. Esperava vê-lo aparecer do outro lado das grandes
árvores, mas a visão profética esvaíra-se!... Tudo isso só durou um instante,
mas gravou-se tão profundamente em meu coração que hoje, depois de quinze
anos... a lembrança me é tão presente como se a visão estivesse ainda diante dos
meus olhos...
Maria estava convosco, Madre, num quarto que se comunicava com aquele onde eu me
encontrava. Ouvindo-me chamar por papai, sentiu impressão de pavor, percebendo
que, contou-me depois, devia estar acontecendo algo extraordinário. Sem externar
sua emoção, correu junto a mim e me perguntou por que eu estava chamando papai,
que fora a Alençon. Contei, então, o que acabara de ver. Para me acalmar, Maria
disse que, sem dúvida, Vitória quisera pregar-me uma peça e escondera a cabeça
com seu avental. Interrogada, essa afirmou não ter saído da cozinha. Aliás, eu
tinha certeza de ter visto um homem que se parecia com papai. Então fomos as
três ao bosque, mas como não achamos sinal nenhum da passagem de alguém
dissestes-me para não mais pensar nisso...
Não mais pensar estava além do meu poder. Muitas vezes minha imaginação
representou-me a cena misteriosa que eu presenciara... Muitas vezes procurei
levantar o véu que me escondia o sentido, pois no fundo do meu coração
conservava a convicção íntima de que essa visão possuía um sentido que havia de
ser-me revelado um dia... Esse dia demorou a chegar, mas após catorze anos Deus
rasgou o véu misterioso. Estando de licença com Irmã Maria do Sagrado Coração,
falávamos, como sempre, das coisas da outra vida e das nossas recordações de
infância, quando lembrei-lhe a visão que eu tivera na idade de 6 para 7 anos. De
repente, relatando os pormenores dessa cena estranha, ambas compreendemos o que
significava... Era papai, sim, que eu vira andando, curvado pela idade... Era
ele carregando no seu rosto venerável, na sua cabeça branca, a marca da sua
gloriosa provação... Como a Face Adorável de Jesus, velada durante sua Paixão,
assim a face do seu fiel servo devia ficar velada nos dias dos seus sofrimentos,
a fim de poder resplandecer na Pátria Celeste junto a seu Senhor, o Verbo
Eterno!... Foi do seio dessa glória inefável onde reina no céu que nosso pai
querido obteve para nós a graça de compreender a visão que sua rainhazinha
tivera numa idade em que não é necessário temer a ilusão! Foi desde o seio da
glória que obteve para nós esse doce consolo de podermos compreender que, dez
anos antes da nossa grande provação, Deus no-la mostrou como um pai deixa seus
filhos entreverem o futuro que lhes prepara e se compraz em considerar por
antecipação as riquezas incalculáveis que lhes são destinadas...
Ah! por que foi a mim que Deus deu essa luz? Por que mostrou a uma criança tão
nova unia coisa que ela não podia compreender, uma coisa que, se a tivesse
compreendido, a teria matado de dor, por quê?... Sem dúvida, esse é mais um
daqueles mistérios que só compreenderemos no céu e que nos causará uma admiração
eterna!...
Como o Bom Deus é bom! ... Como põe as provações em exata equação com a forças
que nos confere. Nunca, como acabo de afirmá-lo, poderia aturar a própria idéia
dos amargos sofrimentos que o futuro me reservava... Sem frêmito não conseguia
sequer pensar em que o Papai podia morrer... Certa vez trepara ele ao topo de
uma escada de mão. Como me encontrava justamente por debaixo, gritou-me:
"Arreda-te, pobre bichinho, se despencar, esmago-te''. Ao ouvir isso, tive uma
reação interior. Em vez de afastar-me, apoiei-me contra a escada, pensando
comigo: "Pelo menos, se o Papai cair, não terei a dor de vê-lo morrer, pois
morrerei com ele". Não consigo externar quanto amava Papai. Tudo nele me causava
admiração. Quando me explicava suas idéias (como se fora menina crescida),
dizia-lhe com sinceridade que, por certo, se falasse tudo isso aos grandes
homens do governo, toma-lo-iam para o constituir Rei, e que então a França seria
feliz como nunca o fora antes... No fundo, porém, alegrava-me (e disso me
inculpava como de um pensamento egoísta) por não haver ninguém senão eu que
conhecia bem Papai. Pois, se viesse a ser Rei de França e de Navarra, sabia que
se daria por infeliz, porque tal é a sorte de todos os monarcas, e sobretudo
porque já não seria o meu Rei, só para mim!...
Tinha eu seis ou sete anos, quando Papai nos levou a Trouville. Jamais
esquecerei a impressão que o mar me causou. Não podia coibir-me de contemplá-lo
sem interrupção. Sua majestade, o bramir das ondas, tudo me falava à alma a
respeito da Grandeza e do Poder do Bom Deus. Recordo-me de que, no passeio que
fazíamos pela praia, um senhor e uma senhora, como me vissem a correr alegre em
redor do Papai, aproximaram-se e perguntaram-lhe se eu era dele, dizendo que era
uma menininha muito graciosa. Respondeu-lhes Papai que sim, mas notei que lhes
deu sinal para não me elogiar... Era a primeira vez que ouvia dizer que eu era
graciosa. Isto me deixou bem contente, pois não supunha que o fosse. Vós
tomáveis, minha querida Mãe, tanta precaução em não permitir, junto a mim, nada
que pudesse comprometer minha inocência, principalmente em não me deixar ouvir
alguma palavra que insinuasse vaidade em meu coração. Como só dava atenção às
vossas palavras e às de Maria (e de vossa parte nunca me dirigistes uma única
lisonja), não liguei muita importância às palavras e aos olhares admirados da
senhora.
Ao entardecer, à hora que o sol parece banhar-se na imensidão das ondas,
deixando atrás de si um sulco luminoso, ia sentar-me sozinha com Paulina no
rochedo ... Então, acudia-me à lembrança a comovente história do "Sulco de ouro"
Fiquei a contemplar longamente a esteira luminosa, imagem da graça a clarear a
rota do barquinho de graciosa vela branca... Junto a Paulina, tomei a resolução
de nunca distanciar minha alma do olhar de Jesus, a fim de que navegue tranqüila
em direção da Pátria dos Céus! ...
Minha vida deslizava tranqüila e feliz. A afeição de que era cercada nos
Buissonnets, fazia-me crescer, por assim dizer, mas não havia dúvida de que já
era bem desenvolvida, para começar a conhecer o mundo e as misérias de que anda
cheio...
Tinha meus oito anos e meio, quando Leônia deixou o internato, e tomei o lugar
dela na Abadia. Ouvi dizer, muitas vezes, que o tempo passado em colégio é o
melhor e o mais doce da vida. Para mim, não foi assim. Os cinco anos que ali
passei foram os mais tristonhos da minha vida. Não tivesse comigo minha querida
Celina, ali não poderia ter ficado um mês sequer, sem cair doente... A pobre
florzinha estava habituada a lançar suas débeis raízes em terra de escol, feita
sob medida para ela. Parecia-lhe, também, muito desagradável viver entre flores
de toda espécie, com raízes freqüentemente pouco delicadas, e ver-se na
obrigação de procurar em terra comum a seiva necessária para sua subsistência!
...
Vós, porém, me instruístes tão bem, minha querida Mãe, que chegando ao internato
era a mais adiantada das crianças de minha idade. Entrei em classe de alunas
todas superiores a mim em tamanho. Uma delas, com seus 13 a 14 anos, era pouco
inteligente, mas sabia, contudo, impor-se às colegas e às próprias mestras.
Vendo-me tão nova, quase sempre a primeira da classe e estimada de todas as
religiosas, sentiu por certo inveja, cousa muito perdoável em aluna interna, e
fez-me pagar de mil modos os meus pequenos bons êxitos...
Com minha índole tímida e delicada, não sabia como defender-me e limitava-me a
chorar sem dizer nada, não me queixando, nem sequer a vós, daquilo que padecia.
Não tinha, contudo, bastante virtude para me sobrepor a tais misérias da vida, e
meu pobre coraçãozinho sofria deveras. ... Por sorte minha, todas as tardes
retornava ao lar paterno, e então meu coração expandia-se. Pulava aos joelhos do
meu Rei, a quem dizia as notas que tinha recebido, e o seu beijo fazia-me
esquecer todas as minhas mágoas... Com que alvoroço não anunciei o resultado de
minha primeira composição (composição de História Sagrada). Faltou-me um só
ponto para a nota máxima, pois não soubera o nome do pai de Moisés. Era,
portanto, a primeira e tirei uma bela condecoração de prata. Papai deu-me em
recompensa uma linda moedinha de quatro soldos. Coloquei-a num estojo que ficou
destinado a receber nova moeda, sempre da mesma importância, quase todas as
quinta-feiras... (Do mesmo estojo ia tirar, quando em algumas festas queria
contribuir do meu bolso na coleta de esmolas, quer para a propagação da fé, quer
para outras obras congêneres). Encantada com o bom êxito de sua pupila, Paulina
deu-lhe de presente um lindo arco de brincar, com o fito de encorajá-la a
continuar bem estudiosa. A pobrezinha tinha real necessidade das alegrias de
família, sem as quais a vida de colégio lhe seria árdua demais.
Quinta-feira de tarde, não havia aulas. Não era, porém, como as folgas dadas por
Paulina. Não ficava no mirante com Papai. Tinha que brincar, não com minha
Celina, o que me agradava, quando sozinha com ela, mas em companhia de minhas
priminhas e das meninas Maudelonde. Era para mim verdadeira mortificação, pois
não sabia brincar, como as demais crianças. Não era companheira agradável. No
entanto, sem o conseguir, fazia todo o meu possível para imitar as outras.
Sentia muito tédio, principalmente quando tinha que passar toda a tarde a dançar
quadrilhas. A única cousa do meu gosto era ir ao Jardim da Estrela. Então, eu
era a primeira em tudo, colhendo muitas flores, e, por saber encontrar as mais
bonitas, , provocava a inveja de minhas coleguinhas...
O que também me agradava, era ficar por acaso a sós com Mariazinha. Por já não
contar com Celina Maudelonde que a levava a jogos comuns, deixava-me livre
escolha, e eu escolhia então um jogo inteiramente novo. Maria e Teresa passam a
ser duas solitárias, que não dispunham senão de uma mísera choupana, de um
pequeno trigal, e de alguns legumes para cultivar. A vida delas corria numa
contemplação contínua; quer dizer, uma das solitárias substituía a outra na
oração quando era preciso cuidar da vida ativa. Tudo se fazia num acordo, num
silêncio, em moldes tão religiosos, que raiava à perfeição. Quando titia vinha
buscar-nos a passeio, nosso jogo continuava até na rua. As duas solitárias
rezavam juntas o terço, valendo-se dos dedos, a fim de não exibir sua devoção ao
público indiscreto. Um dia, entretanto, a mais jovem solitária distraiu-se.
Tendo recebido um bolo para o lanche, antes de comer fez um grande
sinal-da-cruz, o que provocou o riso de todos os profanos do século...
Maria e eu tínhamos sempre os mesmos palpites. Os próprios gostos afinavam-se
tão harmoniosamente que, certa vez, nossa união de vontades passou da conta. Ao
voltarmos uma tarde da Abadia, disse à Maria: "Conduze-me, que vou fechar os
olhos". - "Eu também quero fechá-los", respondeu-me. Dito e feito. Sem discutir,
cada qual pôs em obra sua vontade... Estávamos na calçada, não havíamos de temer
os carros. Depois de passear assim por alguns minutos, tendo apreciado as
delícias de andar sem ver, as duas tontinhas caíram juntas sobre umas caixas
colocadas à porta de uma loja. Melhor, derrubaram-nas. Muito encolerizado, saiu
o negociante para pegar sua mercadoria. As duas ceguinhas voluntárias se
levantaram por si mesmas em boas condições, e corriam a passos largos, com olhos
esbugalhados, enquanto ouviam as justas reprimendas de Joana, que ficara tão
zangada quanto o negociante!... Por isso, para nos punir, resolveu separar-nos
uma da outra. E daquele dia em diante Maria e Celina iam juntas, enquanto eu
caminhava com Joana. Isto pôs fim à nossa grande união de vontade. Não foi um
mal para as mais velhas, que nunca entravam em acordo e discutiam durante todo o
trajeto do caminho. Desta forma a paz foi completa.
Nada disse ainda a respeito do meu relacionamento íntimo com Celina. Oh! se
fosse preciso narrar tudo, não acabaria nunca...
Em Lisieux, inverteram-se os papéis. Celina tornara-se uma criança terrivelmente
arteira e buliçosa, enquanto Teresa já não passava de uma menininha muito
tratável, mas choramingas a mais não poder... Isto não impedia que Celina e
Teresa crescessem cada vez mais em sua mútua afeição. De vez em quando, havia
algumas pequenas discussões, sem maiores conseqüências, e no fundo elas sempre
se entendiam. Posso afiançar que minha querida maninha jamais me causou
desgosto, mas foi para comigo como que um raio de sol, sempre a alegrar-me e a
consolar-me... Quem descreveria a intrepidez com que tomava minha defesa na
Abadia, quando me acusavam?... Tão grande era seu cuidado pela minha saúde, que
por vezes me importunava. O que não me enfadava era observá-la, quando brincava.
Punha em certa ordem todo o magote de nossas bonequinhas, e dava-lhes aula como
uma mestra competente. Só que dava um jeito de serem suas filhas sempre bem
comportadas, enquanto que as minhas eram, muitas vezes, expulsas da classe, por
mau comportamento... Falava-me de todas as cousas novas que vinha aprendendo na
classe, o que muito me entretinha, considerando-a um poço de ciência.
Haviam-me apelidado "filhinha de Celina". Por isso, quando ela estava
descontente comigo, seu maior sinal de aborrecimento era declarar-me: "Já não és
minha filhinha. Acabou-se. Disso nunca esquecerei. . . " Então só me restava
chorar como Madalena, suplicando-lhe ainda me considerasse sua filhinha. Logo me
abraçava e prometia-me de já não se lembrar de nada... Para me consolar, tomava
uma de suas bonecas e dizia-lhe: "Minha querida, dá um abraço em tua tia". Certa
ocasião, a boneca foi tão ardorosa em abraçar-me com carinho, que me enfiou os
dois bracinhos pelo nariz... Celina, que não o fizera de caso pensado, olhava
espantada... para mim com a boneca suspensa ao nariz. A tia não levou muito
tempo em se desfazer dos abraços por demais carinhosos de sua sobrinha, e
desatou a rir, gostosamente, de tão singular aventura.
O mais divertido era ver-nos comprar juntas nossos presentes de boas-festas no
bazar. Cuidávamos de ficar escondidas uma da outra. Dispondo de 10 soldos para
gastar, precisávamos pelo menos de 5 ou 6 objetos diferentes, e tratava-se de
ver quem compraria as cousas mais bonitas. Encantadas com nossas aquisições,
aguardávamos com impaciência o primeiro dia do ano, a fim de oferecermos, uma à
outra, nossos grandiosos presentes. Quem acordasse antes da outra, apressava-se
em lhe desejar feliz ano novo, e logo nos dávamos uma à outra os presentes de
boas-festas. Cada qual de nós ficava extasiada com as preciosidades, que se
vendiam por 10 soldos! ...
Estes mimos nos causavam quase tanto prazer quanto os lindos presentes de
boas-festas que vinham de Titio. Isto, aliás, era apenas o começo das alegrias..
Naquele dia, vestíamo-nos num instante, e cada qual se punha à espreita para
saltar ao pescoço de Papai. Logo que ele saísse do quarto, eram gritos de
alegria por toda a casa, e nosso bom Paizinho mostrava-se feliz por nos ver tão
contentes ... Os presentes de boas festas que Maria e Paulina davam às suas
filhinhas, não eram de grande valor, mas também lhes proporcionavam grande
alegria... Oh! naquela idade não éramos enfaradas. Nossa alma expandia-se em
toda a sua frescura, como uma flor que é feliz por receber o orvalho da manhã...
a mesma aragem balouçava nossas corolas, e o que para uma fosse motivo de
alegria ou de mágoa, sê-lo-ia ao mesmo tempo também para a outra. Com efeito,
nossas alegrias eram em comum. Bem o percebi no belo dia da primeira Comunhão de
minha querida Celina. Só tendo sete anos, ainda não freqüentava a Abadia, mas
conservei no coração a gratíssima lembrança da preparação que vós, minha querida
Mãe, ministrastes à Celina. Todas as tardes, vós a tomáveis aos joelhos, e com
ela conversáveis sobre o grande ato que ia praticar. Eu cá escutava, muito
desejosa de preparar-me também, mas freqüentemente me dizíeis que fosse embora,
por ser ainda muito pequena. Sentia então um desgosto muito grande, pensando
comigo que quatro anos não eram demais como preparação para receber o Bom
Deus...
Uma noite, escutei-vos falar que, feita a primeira Comunhão, se devia começar
vida nova. Resolvi, imediatamente, a não esperar por esse dia, mas começá-la ao
mesmo tempo que Celina... Nunca sentira tanto que a amava, como vim a senti-lo
durante seu retiro de três dias. Pela primeira vez na vida, estava longe dela e
não dormia em sua cama... No primeiro dia, esquecida de que não ia voltar,
guardei uma mão-cheia de cerejas para as comer com ela. Quando percebi que não
chegava, fiquei muito pesarosa. Papai consolou-me com a declaração de que no dia
seguinte me levaria até a Abadia para visitar minha Celina, e que eu lhe daria
outra mão-cheia de cerejas! ... O dia da Primeira Comunhão de Celina deixou-me
uma impressão semelhante à que tive na minha própria. Ao despertar de manhã,
sozinha, na cama grande, senti-me inundada de alegria. "É hoje! ... Chegou o
grande dia..." Não me cansava de repetir estas palavras. Parecia-me que era eu
quem ia fazer minha Primeira Comunhão. Creio ter recebido grandes graças nesse
dia, e considero-o como um dos mais belos de minha vida...
Voltei um pouco a fim de recordar essa deliciosa e suave passagem. Devo, agora,
falar da dolorosa provação que veio partir o coração de Teresinha, quando Jesus
lhe arrebatou a querida mamãe, a sua Paulina, tão afetuosamente amada! ...
Um dia dissera à Paulina que queria ser solitária, partir com ela para um
deserto longínquo. Deu-me por resposta que meu desejo era também o seu, e que
esperaria até que eu fosse bastante grande para a partida. Isto, sem dúvida, não
fora dito seriamente, mas Teresinha tinha-o levado a sério. Por conseguinte,
qual não foi sua dor ao ouvir, um dia, sua querida Paulina falar com Maria de
sua próxima entrada no Carmelo... Não sabia o que era Carmelo, mas entendia que
Paulina me deixaria para entrar em convento. Entendia que não esperaria por mim,
e que eu perderia minha segunda Mãe! ... Oh! Como descrever a angústia do meu
coração? ... Compreendi num instante o que era a vida. Até ali não a tinha visto
tão tristonha, mas então se me deparou em toda a sua realidade. Vi que não era
senão sofrimento e separação contínua. Bem amargas as lágrimas que derramei,
pois ainda não compreendia o gozo do sacrifício. Era fraca, tão fraca, que tomo
por grande graça ter podido suportar uma provação que parecia colocar-se muito
acima de minhas forças... Se ficasse sabendo, aos poucos, da partida de minha
querida Paulina, talvez meu sofrimento não fora tanto. Mas, tê-lo sabido de
surpresa foi como se uma espada se me cravasse no coração.
Sempre me lembrarei, minha querida Mãe, com que ternura me consolastes. Depois,
explicastes-me a vida do Carmelo, que me pareceu muito bonita! Rememorando tudo
o que me dissestes, senti dentro de mim ser o Carmelo o deserto onde o Bom Deus
queria que fosse também esconder-me... Senti-o com tanta veemência que não tive
a mínima dúvida no coração. Não era um devaneio de criança que se deixa levar,
mas a certeza de um chamado divino. Queria eu ir para o Carmelo, não por causa
de Paulina, mas por Jesus tão somente... Pensei muitas coisas que se não podem
exprimir por palavras, mas que me deixaram grande paz na alma...
No dia seguinte, confiei meu segredo à Paulina. Tomando meus desejos como
vontade do Céu, disse-me que eu iria logo com ela visitar a Madre Priora do
Carmelo, e precisava dizer-lhe o que o Bom Deus me fazia sentir ... Escolheu-se
um domingo para a solene visita. Grande foi meu acanhamento, ao saber que Maria
G. ficaria junto a mim, por ser eu muito pequena para visitar as Carmelitas.
Entretanto, precisava descobrir um meio de estar sozinha. Eis a idéia que me
ocorreu. Disse à Maria que, tendo o privilégio de visitar a Madre Priora,
devíamos ser muito atenciosas e delicadas. Por isso, tínhamos de confiar-lhe
nossos segredos. Portanto, cada qual, por sua vez, sairia um instante e deixaria
a outra sozinha. Maria acreditou no que eu dizia, e a despeito de sua relutância
em confiar segredos que não possuía, permanecemos, uma após outra, sozinha junto
à nossa Madre. Tendo ouvido minhas grandes confidências, essa boa Madre
acreditou em minha vocação. Declarou-me, todavia, que não eram recebidas
postulantes de nove anos, e seria preciso aguardar meus dezesseis anos...
Resignei-me, não obstante meu vivo desejo de entrar o mais cedo possível, e de
fazer minha Primeira Comunhão no dia que Paulina tomasse o hábito... No mesmo
dia, pela segunda vez, recebi louvores. Tinha vindo ver-me a Irmã Teresa de
Santo Agostinho e não cansava de repetir que eu era engraçadinha... Minha
intenção não era ir ao Carmelo para receber elogios, por isso, depois de sair,
não parava de repetir ao Bom Deus que era única e exclusivamente por Ele que
queria ser carmelita.
Procurei aproveitar bastante da minha Paulina querida durante as poucas semanas
que ainda ficou no mundo. Todos os dias, Celina e eu comprávamos para ela bolo e
bombons, pensando que dentro em pouco já não os comeria. Estávamos sempre ao seu
lado, e não lhe dávamos um minuto de sossego. Chegou, afinal, o dia 2 de
outubro, dia de lágrimas e de bênçãos, quando Jesus colheu a primeira de suas
flores, que devia ser a mãe daquelas que poucos anos depois viriam unir-se de
novo a ela.
Vejo ainda o lugar, onde recebi o derradeiro beijo de Paulina. Em seguida, Titia
levou-nos todas para a missa, enquanto Papai subia a montanha do Carmelo para
oferecer seu primeiro sacrifício... Toda a família se debulhava em lágrimas, de
sorte que as pessoas, vendo-nos entrar na igreja, olhavam-nos com espanto. Mas
isto importava-me pouco e não me impedia de chorar. Creio que, se tudo
desmoronasse em redor de mim, não teria tomado nenhum conhecimento. Contemplava
o belo céu azul, e ficava surpresa de que o Sol luzisse com tanto esplendor,
enquanto minha alma submergia em tristeza!...
Pensais, talvez, minha querida Madre, que exagero a aflição que estava
sentindo?... Levo em conta que não podia ser lá muito grande, pois tinha a
esperança de encontrar-vos novamente no Carmelo, mas é que minha alma estava
LONGE da maturidade. Por muitos crisóis devia eu passar até atingir o termo que
tanto almejava...
Dois de outubro era o dia fixado para a reabertura de aulas na Abadia. Por isso
precisei ir para lá, não obstante minha tristeza... Pela tarde veio Titia
buscar-nos para irmos ao Carmelo, e vi minha querida Paulina atrás das grades...
Oh! como sofri nessa visita ao Carmelo! Já que escrevo a história de minha alma,
tenho a obrigação de dizer tudo à minha querida Mãe. Confesso que os sofrimentos
anteriores à sua entrada não eram nada em comparação com os que lhe sucederam...
Cada quinta-feira, íamos toda a família ao Carmelo, e eu, habituada que era a
entreter-me com Paulina, de coração a coração, conseguia a muito custo dois ou
três minutos ao terminar a visita. Entende-se que os passasse a chorar, e me
fosse embora como o coração em frangalhos... Não percebia que, por atenção à
Titia, preferíeis dirigir a palavra à Joana e à Maria, em vez de falar com
vossas filhinhas... Não o percebia, e no fundo do coração punha-me a dizer:
"Paulina está perdida para mim!!!" Surpreende ver como meu espírito se abriu no
meio do sofrimento. Abriu-se a tal ponto que não tardei em cair doente.
A doença que me atingira, provinha certamente do demônio. Furioso com vossa
entrada no Carmelo, quis desforrar-se contra mim do grande dano que nossa
família lhe infligiria para o futuro, mas não sabia que a carinhosa Rainha do
Céu velava por sua débil florzinha e lhe sorria do alto de seu trono,
dispondo-se a deter a tempestade no momento que sua flor poderia quebrar
irremediavelmente...
Pelo fim do ano, fui acometida de contínua dor de cabeça, que quase não me fazia
sofrer. Estava em condições de continuar os estudos, e ninguém se preocupava por
minha causa. Assim ficou a situação até a Páscoa de 1883. Tendo Papai ido a
Paris com Maria e Leônia, Titia levou-me com Celina para sua casa. Certa noite,
Titio que ficara comigo, falou-me de Mamãe, de recordações antigas, de uma
maneira tão bondosa, que profundamente me comoveu e fez chorar. Disse-me, então,
que eu tinha um coração demasiado sensível e necessitava de muita distração. E,
com Titia, resolveu proporcionar-nos folguedos nos feriados de Páscoa. Naquela
noite, devíamos ir ao Círculo Católico. Achando, porém, que estava muito
cansada, Titia fez-me deitar. Ao trocar de roupa, fui sacudida por estranho
tremor. Crendo que eu estava com frio, Titia rodeou-me de cobertores e botijas
com água quente. Nada, entretanto, fazia reduzir minha agitação, que durou quase
a noite inteira. Ao regressar do Círculo Católico, com minhas primas e Celina,
Titio ficou muito surpreso de encontrar-me em tal estado. Tinha-o por muito
grave, mas não o quis declarar, para que Titia se não sobressaltasse. No dia
seguinte, mandou chamar o Dr. Notta que achou, como Titio, estar eu com doença
muito grave, da qual nunca fora atingida criança tão nova. Todo o mundo ficou
consternado. Minha Tia viu-se obrigada a deixar-me na casa, e cuidou de mim com
um desvelo verdadeiramente maternal. Quando Papai voltou de Paris com minhas
irmãs maiores, Aimée recebeu-os com um ar tão desconsolado, que Maria me supôs
já morta... A doença, porém, não era ainda para morrer. Era, antes, como a de
Lázaro, para que Deus fosse glorificado.. De fato, Ele o foi, graças à admirável
resignação do meu pobre Paizinho, cuja idéia era que "sua filhinha ficaria
louca, ou então morreria". Ele o foi, outrossim, graças à resignação de Maria!
... Oh! quanto não sofreu por minha causa... Como lhe sou reconhecida pelos
cuidados que com tão grande desprendimento me prodigalizou... O coração
ditava-lhe o que me era necessário. Na verdade, o coração de mãe é muito mais
sagaz do que o de um médico. Sabe adivinhar o que convém na doença da filha...
A coitada da Maria teve de acomodar-se em casa do meu Tio, por não haver então
possibilidade de me transportarem aos Buissonnets. Aproximava-se, entretanto, a
tomada de hábito de Paulina. Diante de mim, evitavam de falar a respeito,
sabendo do desgosto que teria em não poder assistir, mas era eu quem muitas
vezes tocava no assunto, quando dizia que estaria bastante melhor para visitar
minha querida Paulina. Realmente, o Bom Deus não quis privar-me dessa
consolação. Quis antes consolar sua querida Desposada, que tanto sofrera com a
doença de sua filhinha... Notei que, no dia do noivado, Jesus não quer submeter
suas filhas a provações. Deve a festa correr sem contratempos, como antegozo das
alegrias do Paraíso. Disso, não deu Ele prova já cinco vezes?... Pude, por
conseguinte, abraçar minha Mãe querida, sentar-me em seus joelhos, e cobri-la de
afagos... Pude contemplá-la, tão encantadora, em seu branco ornato de noiva...
Oh! foi um dia radiante, de permeio em minha sombria provação, mas o dia passou
com presteza... Tive logo de tomar a carruagem que dali me levou, bem longe de
Paulina. . . bem longe do meu amado Carmelo. Depois de chegarmos aos Buissonnets,
fizeram-me deitar, a contragosto meu, pois afiançava estar perfeitamente curada
e já não precisar de tratamento. Ainda mal, não me encontrava senão no começo de
minha provação!. .. No dia seguinte, tive uma recaída, e a doença agravou-se de
tal maneira, que, por cálculos humanos, eu já não podia sarar... Não sei como
descrever doença tão estranha. Persuadi-me agora de ser obra do demônio. Mas,
bastante tempo depois da cura, acreditava ter ficado doente por acinte, o que
constituía verdadeiro martírio para minha alma...
Falei disso com Maria que me tranqüilizou o mais que podia, com sua bondade de
sempre. Falei disso também em confissão, e meu confessor tentou acalmar-me,
alegando que não era possível fingir estado de doença ao ponto em que ficara. O
Bom Deus que indubitavelmente queria purificar-me, e antes de tudo humilhar-me,
deixou comigo tal martírio íntimo até minha entrada para o Carmelo, onde o Pai
de nossas almas me tirou, como que com a mão, todas as minhas dúvidas, e desde
então ando perfeitamente tranqüila.
Não é de surpreender que receasse ter-me fingido de doente, sem o ser na
realidade? Pois, dizia e fazia cousas em que nem pensava, quase sempre parecia
estar em delírio, a proferir palavras incoerentes. Apesar disso, tenho a certeza
de não ter ficado, um instante sequer, privada do uso da razão... Muitas vezes
parecia estar desfalecida, e não fazia o mínimo movimento. Então, deixaria
praticar comigo o que quisessem, até que me matassem. Não obstante, escutava
tudo o que se dizia em redor de mim, e ainda estou lembrada de tudo... Certa
vez, aconteceu-me ficar sem poder abrir os olhos por mais tempo, nem abri-los
por um instante, quando estava sozinha...
Creio que o demônio recebera um poder exterior sobre mim, mas não podia
acercar-se de minha alma nem de meu espírito, senão para me inspirar enormes
receios de certas cousas, por exemplo, de remédios muito simples, que em vão se
esforçavam por me fazer tomar. No entanto, se o Bom Deus permitia ao demônio
achegar-se a mim, também me enviava anjos visíveis ... Maria ficava sempre junto
à minha cama, cuidava de mim e consolava-me com a afeição de mãe. Jamais
externou o menor enfado, e eu, todavia, lhe dava muito incômodo, não admitindo
que se arredasse de mim. No entanto, ela tinha a justa necessidade de ir tomar
refeição com Papai, mas eu não parava de chamar por ela todo o tempo de sua
ausência. Vitória que me fazia guarda, era bastantes vezes obrigada a ir chamar
minha querida "Mamãe", como eu lhe chamava. Quisesse Maria sair, havia de ser
para ir à missa, ou então para visitar Paulina. Então, eu não falava nada...
Meu Tio e minha Tia eram igualmente muito bons para comigo. Minha boa querida
Titia vinha visitar-me todos os dias, e trazia-me uma infinidade de agrados.
Vinham também visitar-me outras pessoas, amigas da família. Eu, porém, suplicava
à Maria lhes dissesse que não queria receber visitas. Não me era agradável "ver,
em redor de minha cama, pessoas sentadas, ENFILEIRADAS, a olharem para mim como
se fosse um bicho raro". A única visita que me dava prazer era a do Titio e da
Titia.
Depois da doença, não poderia precisar quanto minha afeição por eles subiu de
ponto. Mais do que nunca, compreendi melhor que, para nós, não se tratava de
parentes comuns. Oh! o pobre de nosso Paizinho tinha muita razão em nos repetir,
de vez em quando, as palavras que acabo de escrever. Mais tarde, teve prova de
que não se enganara, e agora deve por certo proteger e bendizer os que lhe
tributaram tão abnegadas atenções ... Quanto a mim, como estou ainda no exílio,
e não posso demonstrar meu reconhecimento, só disponho de um único meio para
aliviar meu coração: rezar pelos parentes que estremeço, e que foram e ainda são
tão bondosos para comigo!
Leônia também usava de muita bondade para comigo. Tentava distrair-me do melhor
modo ao seu alcance. Eu é que algumas vezes a magoava, pois ela bem se
capacitava de que, junto a mim, Maria era insubstituível... E que não fazia
minha querida Celina por sua Teresa?... Em dia de domingo, em vez de sair a
passeio, vinha fechar-se horas inteiras dentro de casa, ao pé de uma pobre
menininha que tinha a aparência de idiota. Realmente, precisava haver amor para
que se não esquivassem de mim... Ah! minhas queridas maninhas, quanto não vos
fiz padecer! ... Ninguém, mais do que eu, vos causou tanto sofrimento, e ninguém
recebeu tanto amor, quanto vós me prodigalizastes... Por sorte, terei o Céu para
me desforrar. Muito rico é meu Esposo, e de seus tesouros de amor tirarei para
vos retribuir, ao cêntuplo, tudo quanto sofrestes por minha causa...
Na doença, meu maior consolo, era receber carta de Paulina... Eu a lia, tornava
a ler, até sabê-la de cor... Certa vez, minha querida Mãe, enviastes-me uma
ampulheta e uma das minhas bonecas vestida de carmelita. Dar uma idéia de minha
alegria é algo de impossível... Titio não ficou satisfeito, dizendo que, em vez
de me fazerem lembrar do Carmelo, seria preciso mantê-lo longe do meu espírito.
Mas, eu sentia pelo contrário, que a esperança de ser um dia carmelita, me
alentava viver... Meu gosto era trabalhar para Paulina. Fazia-lhe pequenos
artefatos de cartolina, e minha maior ocupação era tecer grinaldas de boninas e
miosótis para a Santíssima Virgem. Estávamos no belo mês de maio. Toda a
natureza se guarnecia de flores e trescalava de alegria. Só a "florzinha" é que
se finava, e parecia emurchecer para sempre...
Sem embargo, tinha junto a si um Sol. Esse Sol era a Estátua milagrosa da
Santíssima Virgem que, por duas vezes, tinha falado à Mamãe. Amiúde, sim, bem
amiúde, a florzinha pendia sua corola em direção do Astro bendito... Certo dia,
vi quando Papai entrou no quarto de Maria, onde eu estava acamada. Deu-lhe, com
expressão de grande tristeza, várias moedas de ouro, dizendo-lhe escrevesse para
Paris, mandando celebrar missas em honra de Nossa Senhora das Vitórias, para
curar sua pobre filhinha. Oh! 3O como me comoveu ver a fé e o amor do meu
querido Rei! Queria poder dizer-lhe que estava curada, mas já eram demais as
falsas alegrias que lhe tinha preparado. Não eram, pois, meus desejos que
poderiam produzir milagre, e para minha cura se fazia mister um milagre... Havia
mister um milagre, e foi Nossa Senhora das Vitórias que o praticou. Num domingo
(durante a novena de missas), Maria saiu para o jardim, e deixou-me com Leônia,
que lia perto da janela. Ao cabo de alguns minutos, pus-me a chamar quase que à
surdina: "Mamã... Mamã". Habituada a ouvir-me sempre chamar assim, Leônia não me
deu atenção. Isso durou muito tempo. Então chamei mais forte, e por fim Maria
voltou. Vi perfeitamente quando entrou, mas não conseguia dizer que a
reconhecia, continuando a chamar cada vez mais forte: "Mamã..." Padecia muito
com a luta violenta e inexplicável, e Maria talvez sofresse mais do que eu. Após
baldados esforços para me mostrar que estava junto a mim, pôs-se de joelhos
perto de minha cama, com Leônia e Celina. Voltando-se depois para a Santíssima
Virgem, e rezando-lhe com o fervor de uma mãe que pede pela vida de sua filha,
Maria alcançou o que desejava...
Por não encontrar nenhuma ajuda na terra, a coitada da Teresinha também se
voltara para sua Mãe do Céu, suplicando-lhe de todo o coração, tivesse enfim
piedade dela... De repente, a Santíssima Virgem me pareceu bela, tão bela, como
nunca tinha visto nada tão formoso. O rosto irradiava inefável bondade e
ternura, mas o que me calou no fundo da alma foi o "empolgante sorriso da
Santíssima Virgem". Nesta altura, desvaneceram-se todos os meus sofrimentos. Das
pálpebras me saltaram duas grossas lágrimas e deslizaram silenciosas sobre as
faces. Eram lágrimas de uma alegria sem inquietação... Oh! pensei comigo, a
Santíssima Virgem sorriu para mim, como sou feliz... Mas, nunca jamais o
contarei a ninguém, porque então desapareceria minha felicidade. Sem nenhum
esforço, baixei os olhos e enxerguei Maria que olhava para mim com amor. Parecia
emocionada e dava impressão de suspeitar o valimento que a Santíssima Virgem me
concedera... Oh! era exatamente a ela, às suas edificantes orações que devia a
graça do sorriso da Rainha dos Céus. Quando viu meu olhar fito na Santíssima
Virgem, disse de si para si: "Teresa está curada!" Sim, a florzinha ia renascer
para a vida, o Raio luminoso que a reanimara, não pararia suas beneficências.
Não atuou de uma só vez, mas de modo manso e agradável foi levantando e
revigorando sua flor, de tal sorte que cinco anos depois ela desabrocharia na
montanha do Carmelo.
Como o disse, Maria adivinhara que a Santíssima Virgem me tinha outorgado alguma
graça oculta. Por isso, logo que fiquei a sós com ela, como perguntasse o que
vira, não pude resistir às suas indagações, tão carinhosas e insistentes.
Admirada de ver meu segredo descoberto, sem que o tivesse revelado, confiei-o em
toda a sua extensão à minha querida Maria... Mas, infelizmente, como o tinha
pressentido, minha felicidade ia desaparecer e redundar em amargura. Por quatro
anos, a lembrança da inefável graça recebida foi para mim verdadeiro tormento
espiritual. Não recuperaria minha felicidade senão aos pés de Nossa Senhora das
Vitórias, quando então me foi devolvida em toda a sua plenitude... Mais tarde,
tornarei a falar desta segunda graça da Santíssima Virgem.
Tenho agora que vos contar, minha Mãe querida, como minha alegria se converteu
em tristeza. Depois de ter ouvido o relato ingênuo e sincero da "minha graça",
Maria pediu-me autorização de comunicá-la no Carmelo, e por mim não podia dizer
que não... Por ocasião de minha primeira visita ao querido Carmelo, fiquei
inundada de alegria, quando vi minha Paulina com o hábito da Santíssima Virgem.
Foi para nós duas, um momento muito venturoso... Havia tanta cousa por dizer,
que não pude absolutamente falar nada. O coração estava cheio demais... A
bondosa Madre Maria de Gonzaga ali estava também, e dava-me mil demonstrações de
afeto.
Vi ainda outras freiras, diante das quais me inquiriram a respeito da graça que
recebera, e quiseram saber de mim, se a Santíssima Virgem trazia ao colo o
Menino Jesus, ou também se havia muita luminosidade etc. Todas essas perguntas
me conturbaram e atormentaram. Só podia declarar uma cousa: "A Santíssima Virgem
pareceu-me muito linda... e eu a vi sorrir para mim". Foi sua simples figura que
me impressionara, razão por que me parecia ter mentido (meus tormentos
espirituais acerca de minha doença já tinham começado), ao verificar que em seu
íntimo as carmelitas imaginavam cousa muito diferente...
Não padece dúvida, tivesse guardado meu segredo, teria também guardado minha
felicidade, mas a Santíssima Virgem permitiu tal tormento para o bem de minha
alma. Sem ele, teria talvez algum pensamento de vaidade. Quando, pelo contrário,
a humilhação se tornou minha partilha, não podia considerar a mim mesma senão
com sentimento de profunda aversão... Oh! só no Céu poderei revelar o quanto
sofri! ...
Por falar em visitas às carmelitas, lembro-me da primeira, pouco após a entrada
de Paulina. Esqueceu-me falar disto, mas trata-se de um detalhe que não posso
deixar de lado. Na manhã do dia em que devia dirigir-me ao parlatório, estando a
refletir sozinha na cama (pois ali fazia minhas orações mais recolhidas, e
sempre encontrava meu Bem-Amado, ao contrário do que acontecia à esposa dos
Cantares), perguntava-me qual seria meu nome no Carmelo. Sabia que lá existia
uma Irmã Teresa de Jesus. Apesar disso, meu belo nome de Teresa não me podia ser
tirado. De repente, pensei no Menino Jesus a quem tanto amava e disse para mim
mesma: "Oh! Como seria feliz em ser chamada de Teresa do Menino Jesus!" Nada
disse no parlatório do sonho que tivera acordada, mas essa boa Madre M. de
Gonzaga, perguntando para as irmãs qual o nome que deveria usar, veio-lhe à
mente chamar-me pelo nome que eu tinha sonhado... Minha alegria foi grande e
esse feliz encontro de pensamento pareceu-me uma delicadeza do meu Bem-Amado
Menino Jesus.
Esqueci mais alguns detalhes da minha infância antes do meu ingresso no Carmelo.
Não vos falei do meu gosto pelas estampas e pela leitura... No entanto, minha
querida Madre, às belas estampas que me mostráveis, como recompensa, devo uma
das mais doces alegrias e uma das mais vivas impressões que me incitavam à
prática da virtude... Ficava horas esquecidas a contemplá-las. A Florzinha do
Divino Prisioneiro, por exemplo, falava-me de tantas cousas, que me deixavam
embevecida. Vendo o nome de Paulina escrito na parte de baixo da florzinha,
queria que o de Teresa também o fosse, e oferecia-me a Jesus para ser sua
florzinha...
Se não sabia brincar, gostava muito de ler, e nisso levaria minha vida. Por
sorte, para me guiarem, havia anjos da terra, que para mim selecionavam livros
que me distraíssem e ao mesmo tempo me alimentassem o espírito e o coração.
Depois só devia aplicar certo tempo na leitura, o que me impunha grandes
sacrifícios, interrompendo às vezes minha leitura no meio do trecho mais
empolgante... O atrativo pela leitura durou até minha entrada para o Carmelo.
Não poderia indicar o número de livros que me passaram pelas mãos. Mas, o Bom
Deus nunca permitiu que lesse um só deles, capaz de me prejudicar.
Verdade é, na leitura de certas histórias de cavalaria, nem sempre apanhava
desde logo o lado autêntico da vida. O Bom Deus, porém, de pronto me fazia
intuir que a verdadeira glória é a que dura eternamente, não havendo, para sua
consecução, necessidade de realizar obras aparatosas, mas de esconder-se e
praticar a virtude, de molde a não saber a mão esquerda o que faz a direitas...
Foi assim que, lendo a narração dos feitos patrióticos de heroínas francesas,
mormente da Venerável JOANA D'ARC, sentia grande desejo de imitá-las. Perecia
verificar em mim o mesmo ardor, de que estavam animadas, a mesma inspiração
celestial.
Recebi, então, uma graça que sempre tomei como uma das maiores de minha vida,
pois nessa idade não recebia, como agora, as luzes em que estou imersa. Cuidava
que nascera para a glória, e como procurasse um meio de alcançá-la, o Bom Deus
inspirou-me os sentimentos que acabo de descrever. Fez-me, outrossim,
compreender que minha glória característica não apareceria aos olhos dos
mortais, consistiria em tornar-me grande Santa!!!... Poderia tal desejo parecer
temeridade, tomando-se em consideração quanto era fraca e imperfeita, e quanto
ainda o sou, depois de passar sete anos em religião. Muito embora, sinto sempre
a mesma audaciosa confiança de tornar-me grande Santa, pois não conto com meus
méritos, por não ter nenhum, mas espero em Aquele que é a Virtude, a própria
Santidade. Só Ele é que, cingindo-se aos meus débeis esforços, me elevará a Si
próprio, e, cobrindo-me com seus méritos infinitos, fará de mim uma Santa. Não
calculava, então, que seria preciso sofrer muito para chegar à santidade. O Bom
Deus não tardou em mo demonstrar, quando enviou as provações que mais acima
relatei... Agora retomarei minha exposição, desde o ponto em que a tinha
largado. Três meses após minha cura, Papai levou-nos em viagem a Alençon. Era a
primeira vez que para lá voltava. Bem grande foi minha alegria rever os lugares
onde vivera minha infância, e de poder principalmente rezar junto à sepultura de
Mamãe, pedindo-lhe que sempre me proteja...
O Bom Deus concedeu-me a graça de conhecer o mundo na medida suficientemente
exata para o desprezar, e dele me conservar afastada. Poderia afirmar ter sido
na minha permanência em Alençon que fiz minha primeira entrada no mundo. Em
redor de mim, tudo era gozo e felicidade. Tornava-me alvo de festas, de mimos e
admirações. Numa palavra, dentro de quinze dias, tive uma vida semeada só de
flores... Não nego que tal vida tinha encantos para mim. Muita razão tem a
Sabedoria em ponderar: "Porque a fascinação das frivolidades seduz até o
espírito arredado do mal"'. Na idade de dez anos, o coração deixa-se facilmente
embelezar. Por isso, considero como grande graça não ter ficado em Alençon. Os
amigos que ali tínhamos eram muito dados ao mundo, sabiam aliar demais as
alegrias da terra com o serviço de Deus. Não pensavam bastante na morte, e no
entanto veio a morte visitar grande número de pessoas, minhas conhecidas,
jovens, ricas e felizes!!! Gosto de volver em pensamento aos lugares encantados,
onde elas viveram, e de perguntar a mim mesma onde estão, o que usufruem dos
castelos e dos parques, donde as vi gozarem as comodidades da vida?... E vejo
que debaixo do Sol tudo é vaidade e aflição de espírito. . . que o único bem
consiste em amar a Deus de todo o coração e ser pobre de espírito aqui na
terra...
Jesus quis, talvez, mostrar-me o mundo antes da primeira visita que estava para
me fazer, a fim de que eu com mais liberdade escolhesse o caminho que lhe
prometeria seguir. A época de minha Primeira Comunhão ficou gravada no coração
como uma lembrança sem penumbras. Parece-me, não podia estar mais bem disposta
do que estava. Além do mais, meus sofrimentos espirituais deixaram-me em sossego
durante quase um ano. Queria Jesus fazer-me gozar de uma alegria tão perfeita,
quanto possível neste vale de lágrimas...
Lembrai-vos, minha querida Madre, do maravilhoso livrinho que fizestes para mim,
três meses antes da minha Primeira Comunhão?... Foi o que me ajudou a preparar o
coração de uma maneira contínua e rápida. Pois, se desde muito já o vinha
preparando, era bem necessário dar-lhe novo impulso, enchê-lo de novas flores,
para que nele pudesse Jesus repousar com alegria... Praticava diariamente grande
número de piedosos exercícios, que constituíam outras tantas flores. Fazia
número maior ainda de jaculatórias, que escrevestes para cada dia em meu
livrinho, e tais atos de amor formavam os botões das flores...
Toda semana, escrevíeis-me uma linda cartinha, que me enchia a alma de profundos
pensamentos e me ajudava a praticar a virtude. Era um consolo para vossa pobre
filhinha, que fazia tão grande sacrifício em se conformar com não ser, todas as
tardes, preparada em vossos joelhos, como o fora sua querida Celina... No meu
caso, era Maria que fazia as vezes de Paulina. Eu sentava nos joelhos dela, e
nessa posição escutava com avidez o que me dizia. Parecia-me que todo o seu
coração, tão grande, tão generoso, se transferia para dentro de mim. - Como
guerreiros famosos ensinam aos filhos o traquejo das armas, assim também ela me
falava dos combates da vida, do laurel outorgado aos vitoriosos... Maria
falava-me ainda das imorredouras riquezas que são fáceis de juntar todos os
dias, da infelicidade de passar ao largo, sem querer dar-se ao trabalho de
estender a mão para as agarrar. Depois, mostrava-me o meio de ser santa pela
fidelidade nas mínimas coisas. Deu-me o folheto "Sobre a renúncia", que eu
meditava com toda a delícia ...
Oh! como era eloqüente minha querida madrinha! Quisera que não fosse a única a
ouvir-lhe os profundos ensinamentos. Sentia-me tão atingida, que em minha
ingenuidade acreditava que os maiores pecadores teriam sido atingidos como eu,
deixariam então suas riquezas caducas, e já não quereriam ganhar outras senão as
provenientes do Céu... Nessa época, ninguém ainda me ensinara o modo de fazer
oração, apesar da grande vontade que tinha de aprendê-lo. Como, porém, me
achasse bastante piedosa, Maria só me deixava fazer minhas preces. Um dia, uma
das minhas mestras da Abadia me perguntou o que fazia nos dias de folga, quando
estava sozinha. Respondi-lhe que me punha atrás de minha cama num vão que ali
havia, fácil para mim de fechar com o cortinado, e nesse lugar ficava a
"pensar". Mas, em que pensáveis? perguntou-me. - Penso no Bom Deus, na vida...
na ETERNIDADE, enfim, penso!... Muito se divertiu a boa religiosa à minha custa.
Mais tarde, gostava de lembrar o tempo em que pensava, e perguntava-me se ainda
me punha a pensar... Compreendo agora que, sem o saber fazia oração, e que o Bom
Deus já me instruía em segredo.
Depressa se passaram os três meses de preparação. Tive logo de entrar em retiro,
e de ficar interna para esse fim, pernoitando na Abadia. Não consigo externar em
palavras a suave recordação que o retiro me deixou. Francamente, se sofri muito
como interna, fui amplamente recompensada pela felicidade inefável desses poucos
dias passados à espera de Jesus... Não creio que se possa fruir tal alegria
noutro lugar senão em comunidades de religiosas. Sendo restrito o número de
crianças, fácil se tornava dar atenção a cada uma delas em particular, e na
ocasião tiveram, realmente, nossas mestras maternais cuidados para conosco. De
mim se ocupavam mais que de outras. Todas as noites, vinha a mestra diretora,
com a lanterninha, abraçar-me na cama, dando-me sinais de grande afeição.
Comovida com sua bondade, disse-lhe uma noite que lhe confiaria um segredo.
Depois de tirar, com ar misterioso, meu precioso livrinho que estava debaixo do
travesseiro, mostrei-lho com olhos radiantes de alegria... De manhã, achava
muito bonito ver como as alunas se levantavam da cama, ao toque da campainha, e
queria fazer como elas, mas não estava habituada a aprontar-me sozinha. Não
estava ali Maria para me arrumar o cabelo. Por isso, tive de apresentar,
timidamente, meu pente à supervisora do vestiário, a qual se riu ao ver uma
menina crescida, de 11 anos, que não sabia cuidar de si mesma. No entanto, ela
penteava-me, não de modo tão delicado, como Maria, mas nem por isso me atrevia a
gritar, segundo meu costume de todos os dias, quando me submetia à leve mão da
madrinha... No retiro, averiguei que era uma criança cercada de mimos e
atenções, como poucas o serão na terra, antes de tudo entre crianças órfãs de
mãe... Diariamente, vinham Maria e Leônia visitar-me, em companhia de Papai que
me cumulava de agradinhos de sorte que não sofri com a privação de estar longe
da família, e nada ofuscou o lindo Céu azul do meu retiro.
Escutava com muita atenção as instruções que o Sr. Padre Domin nos dava, e delas
fiz até um resumo. Quanto aos meus próprios pensamentos, não quis anotar nenhum,
alegando que os conservaria bem de memória, o que foi verdade ... Para mim era
grande satisfação acompanhar as religiosas a todos os ofícios. No meio de minhas
companheiras, atraía a atenção por causa de um grande Crucifixo que Leônia me
tinha dado, e que eu metia na cintura à guisa dos missionários. O Crucifixo
despertava a inveja das religiosas. Cuidavam que, andando com ele, queria imitar
minha irmã carmelita... Oh! realmente era para ela que se dirigiam meus
pensamentos. Sabia que minha Paulina estava em retiro como eu, não para que
Jesus se desse a ela, mas para ela se dar a Jesus. Por conseguinte, a solidão
que passei em expectativa, era-me duplamente querida...
Tenho recordação de que uma manhã me passaram para a enfermaria, porque estava
tossindo muito (desde minha doença, as mestras tinham grande cuidado comigo; por
ligeira dor de cabeça, ou quando me vissem mais pálida do que de costume,
mandavam-me respirar ao ar livre ou repousar na enfermaria). Vi entrar minha
querida Celina que, não obstante o retiro, obtivera permissão de visitar-me,
para me oferecer um santinho que me causou grande prazer. Era a "Florzinha do
Divino Prisioneiro". Oh! como me foi grato receber tal lembrança das mãos de
Celina!... Quantos pensamentos de amor não tive por causa dela!...
Na véspera do grande dia, recebi a absolvição sacramental pela segunda vez. A
confissão geral deixou-me grande paz na alma, e o Bom Deus não permitiu que a
mais leve dúvida a perturbasse. No correr da tarde, pedi perdão a todos da
família que vieram visitar-me, mas não conseguia falar senão através de minhas
lágrimas. Estava por demais comovida... Paulina não estava presente, mas pelo
coração senti que se mantinha junto a mim. Enviara-me por Maria uma bela
estampa, que não me cansava de admirar e fazer admirar por toda a gente! ...
Escrevera ao bom Padre Pichon para me recomendar às suas orações, dissera-lhe
também que logo me tornaria carmelita, e então seria ele meu diretor. (Com
efeito, foi o que aconteceu quatro anos mais tarde, pois no Carmelo lhe abri
minha alma...). Maria entregou-me uma carta dele. Na verdade, senti-me
sobremaneira feliz!... Chegavam-me, simultaneamente, todas as felicidades. O que
mais me regozijou na carta dele, foi esta frase: "Amanhã, subirei ao Sagrado
Altar, e a intenção será por vós e por vossa Paulina!" No dia 8 de maio, Paulina
e Teresa se uniram cada vez mais, pois Jesus parecia tomá-las juntas, quando as
inundou de suas graças ...
Raiou, enfim, o "mais belo de todos os dias". Quão inefáveis não são as
recordações que na alma me deixaram as mínimas circunstâncias dessa data do Céu!
... A alegre alvorada, os respeitosos e afetuosos ósculos das mestras e das
colegas maiores ... O salão nobre, repleto de flocos de neve, com os quais cada
criança se via adornada por sua vez... Acima de tudo, a entrada na Capela e a
entoação matinal do lindo cântico: "Ó Santo Altar, que de Anjos sois rodeado!"
Não quero, contudo, descer a pormenores. Há coisas que perdem a fragrância,
quando expostas ao ar. Existem pensamentos da alma que se não podem traduzir em
linguagem terrena, sem perderem o sentido autêntico e celestial. São como a
"pedrinha branca que se dará ao vencedor, sobre a qual está escrito um nome, que
ninguém CONHECE, senão QUEM a recebe". Ah! como foi doce o primeiro beijo de
Jesus à minha alma! ...
Foi um beijo de amor. Sentia-me amada, e de minha parte dizia: "Amo-vos,
entrego-me a Vós para sempre". Não houve pedidos, nem lutas, nem sacrifícios.
Desde muito, Jesus e a pobre Teresinha se tinham olhado e compreendido. Naquele
dia, porém, já não era um olhar, era uma fusão. Já não eram dois, Teresa
desvanecera, como a gota de água que se dilui no bojo do oceano. Ficava só
Jesus, era Ele o Senhor, o Rei. Teresa pedira-lhe tirasse sua liberdade, pois
sua liberdade lhe fazia medo., Sentia-se tão fraca, tão frágil, que desejava
permanecer para sempre unida à Força Divina! ... Sua alegria era grande demais,
era profunda demais, para que a pudesse represar. Não tardou em debulhar-se em
deliciosas lágrimas, com grande espanto das colegas que, mais tarde, diziam
entre si: "Por que será que chorou? Sentiria algo que a acabrunhasse?... Não
será, antes, por não ver junto a si a própria mãe ou a irmã, que é carmelita, a
quem tanto ama?" - Não compreendiam que, ao descer a um coração toda a alegria
do Céu, não a pode suportar um coração banido, sem derramar lágrimas... Oh! não!
A ausência de Mamãe não me contristava no dia de minha Primeira Comunhão. Não
estava o Céu dentro de mim, e nele não tinha Mamãe desde muito tomado lugar?
Desta forma, quando recebi a visita de Jesus, recebi também a de minha querida
Mãe, que me abençoava e se regozijava com minha felicidade... Não chorava,
outrossim, a ausência de Paulina. Sem dúvida alguma, ficaria contente, se a
visse ao meu lado, mas desde muito meu sacrifício estava aceito. Nessa data, meu
coração se encheu só de alegria. Uni-me a ela, que irrevogavelmente se dava
Aquele que tão amorosamente se dava a mim! ...
Na parte da tarde, fui eu quem pronunciou o ato de consagração à Santíssima
Virgem. Era muito justo que, em nome de minhas companheiras, falasse à minha Mãe
do Céu, eu que tão cedo me privara de minha Mãe da terra... De todo o coração me
pus a falar-lhe, a consagrar-me a ela, como filha que se lança aos braços da
Mãe, e lhe pede olhe por ela. Parece-me que a Santíssima Virgem terá olhado para
sua florzinha e ter-lhe-á sorrido, pois não foi ela quem a curara com visível
sorriso?... Não foi ela que no cálice de sua florzinha depositara seu Jesus, a
Flor dos Campos, o Lírio do Vale?...
À tarde do belo dia, estive novamente com minha família terrena. Pela manhã, já
tinha abraçado Papai e todos os meus queridos parentes. Agora, porém, se
estabelecia a verdadeira reunião, quando Papai tomou pela mão sua rainhazinha e
se dirigiu ao Carmelo... Vi então minha Paulina, que se tornara esposa de Jesus.
Divisei-a com seu véu, branco, como o meu, e com sua coroa de rosas... Oh! minha
alegria não comportava amargura. Esperava estar em breve novamente com ela, e
com ela esperar pelo Céu!
Não fiquei insensível à festa de família, que se realizou na tarde da minha
primeira Comunhão. Grande prazer me causou o lindo relógio que o meu Rei me deu,
mas minha alegria era tranqüila, e nada chegou a perturbar minha paz interior.
Maria levou-me consigo na noite imediata ao grande dia, pois os dias mais
radiosos são seguidos de escuridões. Sem ocaso será só o dia da primeira e
única, da eterna Comunhão do Céu...
O dia que se seguiu à minha primeira Comunhão foi ainda um dia bonito, mas
repassado de melancolia. A roupa linda que Maria comprara para mim, todos os
presentes recebidos, não me enchiam o coração. Não havia senão Jesus que pudesse
contentar-me. Anelava pelo momento em que me fosse dado recebê-lo pela segunda
vez. Cerca de um mês após minha primeira comunhão fui confessar-me para a festa
da Ascensão, e animei-me a pedir licença de fazer a Santa Comunhão. Contra toda
a expectativa, o senhor sacerdote mo permitiu, e coube-me a felicidade de
ajoelhar à Sagrada Mesa entre Papai e a Maria. Que doce recordação não guardei
da segunda visita de Jesus! Desta vez ainda, corriam minhas lágrimas com
inefável doçura. Sem cessar repetia a mim mesma as palavras de São Paulo: "Já
não sou eu que vivo, Jesus é quem vive em mim! ... " A partir dessa Comunhão,
meu desejo de receber o Bom Deus tornou-se cada vez maior; obtive permissão de
fazê-lo em todas as festas principais. Na véspera desses ditosos dias, Maria
punha-me à noite sobre os joelhos e preparava-me, como o fizera para minha
primeira Comunhão. Tenho lembrança de que me falou, certa vez, a respeito do
sofrimento, dizendo-me que provavelmente não andaria por tal caminho, mas que o
Bom Deus sempre me guiaria, como se faz com uma criança...
No dia seguinte, depois de ter comungado, as palavras de Maria voltaram-me ao
pensamento. Senti nascer no coração grande desejo de sofrer e, ao mesmo tempo, a
íntima segurança de que Jesus me reservava grande número de cruzes. Senti-me
inundada de tão grandes consolações, que as considero como uma das maiores
graças de minha vida. O sofrer tornou-se-me um atrativo. Tinha encantos que me
arrebatavam, sem os conhecer com clareza. Até então, sofria sem amar o
sofrimento; desde aquele dia senti por ele verdadeiro amor. Sentia também o
desejo de amar só a Deus, de não encontrar alegria senão Nele. Muitas vezes,
repetia em minhas comunhões as palavras da Imitação de Cristo: "Ó Jesus! doçura
inefável, convertei-me em amargura todas as consolações da terra!..." Esta
oração me saía dos lábios sem esforço, sem constrangimento. Vinha-me a impressão
de que a repetia, não por minha vontade, mas como criança que repete as palavras
que uma pessoa amiga lhe sugere... Mais adiante, minha querida Mãe, dir-vos-ei
como aprouve a Jesus realizar meu desejo, como só Ele foi sempre minha inefável
doçura. Se disso vos falasse desde já, seria obrigada a antecipar-me ao tempo de
minha adolescência. Ainda me restam muitas particularidades de minha infância
que vos devo contar.
Pouco tempo depois da minha primeira Comunhão entrei em novo retiro para a
Crisma. Tinha-me preparado, com bastante empenho, para receber a visita do
Espírito Santo. Não conseguia compreender que se não dê maior cuidado à recepção
deste sacramento de Amor. De ordinário, fazia-se um só dia de retiro para a
Crisma. Como, porém, o Senhor Bispo não podia vir no dia marcado, coube-me o
consolo de ter dois dias de solidão. Para nos distrair, nossa mestra levou-nos
ao Monte Cassino, onde colhi grandes margaridas para a festa do Corpo de Deus.
Oh! como estava exultante a minha alma! Igual aos apóstolos, eu aguardava,
venturosa, a visita do Espírito Santo ... Folgava com a idéia de que dentro em
breve seria perfeita cristã, sobretudo que eternamente teria na fronte a
misteriosa cruz que o bispo traça, quando faz a imposição do Sacramento ...
Chegou afinal o ditoso momento. Não senti, quando desceu o Espírito Santo nenhum
vento impetuoso, mas antes aquela leve brisa, cujo murmúrio o profeta Elias
ouviu no monte Horeb... Nesse dia, recebi a força para sofrer, pois logo em
seguida devia começar o martírio de minha alma ... Foi minha querida e gentil
Leônia que me serviu de madrinha. Estava tão comovida que não pôde conter a
efusão de lágrimas todo o tempo da cerimônia. Recebeu, comigo, a Santa Comunhão,
pois nesse belo dia tive ainda a felicidade de unir-me a Jesus.
Terminadas as deliciosas e inolvidáveis festas, minha vida retornou ao ritmo
ordinário, isto é, tive de retomar a vida colegial, que tanto me custava. Quando
fiz minha Primeira Comunhão, apreciava a convivência com crianças de minha
idade, todas cheias de boa vontade, tendo tomado, como eu, a resolução de
praticar seriamente a virtude. Mas, era preciso pôr-me em contato com alunas bem
diferentes, dissipadas, não desejosas de cumprir o regulamento, e isto me
deixava muito desconsolada. Tinha um gênio folgaz, mas não sabia entregar-me aos
brinquedos próprios de minha idade. No recreio, apoiava-me muitas vezes contra
uma árvore e contemplava o andamento do jogo, enquanto me engolfava em sérias
reflexões! Inventara um jogo que me agradava. Era o de enterrar as pobres
avezinhas que encontrávamos mortas debaixo das árvores. Muitas alunas tiveram
gosto em ajudar-me, de sorte que nosso cemitério se tornou muito bonito,
plantado de árvores e flores, proporcionais ao tamanho de nossos pequenos
emplumados.
Gostava, outrossim, de contar histórias. Inventava-as na medida que me acudiam à
imaginação. Minhas colegas rodeavam-me com entusiasmo, e de vez em quando alunas
maiores integravam-se ao grupo de ouvintes. Ia continuando a mesma história por
vários dias, pois tinha prazer em torná-la cada vez mais interessante, na
proporção que via as impressões despertadas, marcadas na fisionomia de minhas
companheiras. Sem embargo, a mestra logo me proibiu continuar minha atividade
oratória, pois queria ver-nos brincar e correr, e não discorrer...
Apanhava com facilidade o sentido das matérias que aprendia, mas tinha
dificuldade em decorar os textos. Por isso, quanto ao catecismo, no ano que
precedeu minha Primeira Comunhão, pedia quase todos os dias a permissão para
decorá-lo no tempo dos recreios. Meus esforços coroaram-se de bom êxito, e
sempre fui a primeira. Perdendo casualmente meu lugar, por causa de uma única
palavra esquecida, minha dor manifestava-se por lágrimas amargas, que o Padre
Domin não sabia como estancar... Estava muito satisfeito comigo (quando não
chorava), e chamava-me sua doutorazinha, por causa de meu nome Teresa. Certa
vez, a aluna que vinha depois de mim, não soube formular a argüição de catecismo
para sua colega. Depois de passar, em vão, toda a roda das alunas, o Sr. Padre
voltou-se novamente para mim, declarando que ia verificar se eu merecia o lugar
de primeira da classe. Em minha profunda humildade, era só o que esperava.
Levantei-me com segurança, respondi as argüições, sem cometer erro nenhum, com
grande surpresa de todo o mundo... Feita minha Primeira Comunhão, continuei meu
zelo pelo catecismo até a saída do colégio. Dava boa conta dos estudos. Era
quase sempre a primeira. Meus maiores sucessos eram em História e redação, Todas
minhas mestras me tinham como aluna muito inteligente. Outro tanto não acontecia
em casa de Titio, onde passava por ignorantinha, boa e meiga, dotada de juízo
reto, mas incapaz e desajeitada... Não me surpreende a opinião que Titio e Titia
tinham e certamente ainda terão a meu respeito. Por ser muito tímida, quase não
falava. Quando escrevia, meu rabisco e minha ortografia - nada mais natural -
não eram de feição que encantassem... Verdade é que, em costurinhas, em bordados
e noutras tarefas, me desempenhava bem, a gosto de minhas mestras. Mas, o modo
desajeitado com que manejava meu trabalho de agulha justificava a opinião pouco
lisonjeira que tinham de mim. Considero tudo isso como uma graça. Uma vez que o
Bom Deus queria meu coração só para Si, já atendia minha oração, quando "trocava
em amargura as consolações da terra". Para mim, isso se tornava tanto mais
necessário, quanto mais não me conservaria insensível a louvores. Muitas vezes,
gabavam diante de mim a inteligência das outras, e jamais a minha. Daí concluí
que a não tinha, e resignei-me a carecer dela...
Meu coração, sensível e amoroso, facilmente ter-se-ia entregado, se tivesse
encontrado um coração capaz de compreendê-lo... Tentei ligar-me a meninas de
minha idade, principalmente a duas dentre elas. Tinha-lhes amor, e elas por sua
vez me amavam tanto, quanto eram capazes de fazê-lo. Mas, que lástima! Como é
mesquinho e volúvel o coração das criaturas!!! ... Não demorei em perceber que
meu amor era incompreendido. Uma de minhas amigas precisou procurar a família, e
voltou alguns meses depois. Durante sua ausência, pensava nela e guardava
cuidadosamente um anelzinho que me dera. Quando tornei a ver minha companheira,
grande foi minha alegria, mas não obtive, ainda mal, senão um olhar
indiferente... Meu amor não fora compreendido. Percebi-o, e não mendiguei uma
afeição que me era negada. O Bom Deus, porém, deu-me um coração tão leal que,
amando com pureza, ama para sempre. Por isso, continuei a rezar pela minha
companheira, e ainda lhe tenho afeição... Ao ver que Celina queria bem a uma de
nossas mestras, quis imitá-la, mas não pude consegui-lo, pois não sabia
conquistar as boas graças das criaturas. ó ditosa ignorância! Como me livrou de
grandes males!... Quanto não agradeço a Jesus de me fazer encontrar só "amargura
nas amizades da terra"! Com um coração como o meu, deixar-me-ia prender e
cercear as asas. Como pode ria, então, "voar e repousar?" Como pode unir-se
intimamente a Deus, um coração entregue à afeição das criaturas?... Tenho, o
sentimento de que não é possível. Sem beber da taça envenenada do amor por
demais ardente das criaturas, sinto em mim que me não é possível estar
equivocada. Vi tantas almas que, seduzidas por essa luz falsa, esvoaçaram como
míseras mariposas e queimaram as asas. Depois, volveram-se à verdadeira e meiga
luz do amor. Esta lhes deu novas asas, mais brilhantes e mais ligeiras, a fim de
poderem voar para junto de Jesus, Fogo Divino, "que arde sem se consumir". Oh!
eu o sinto, Jesus conhecia-me como fraca demais para me expor à tentação. Quiçá,
deixar-me-ia queimar toda inteira pela enganadora luz, se a visse fulgurar
diante dos olhos ... Não aconteceu assim. Só encontrei amargura, onde almas mais
robustas deparam com alegria, e desta se desfazem por fidelidade. Não tenho,
portanto, nenhum mérito em me não ter entregue ao amor das criaturas, uma vez
que só fui preservada pela grande misericórdia do Bom Deus! ... Reconheço que,
sem Ele, poderia cair tão baixo como Santa Madalena. E com grande doçura ecoa em
minha alma a profunda palavra de Nosso Senhor a Simão... Eu o sei, "menos AMA
aquele, a quem menos se perdoa". Mas, não ignoro também que a mim Jesus perdoou
mais do que a Santa Madalena, pois me perdoou por antecipação, porquanto me
impediu que caísse. Oh! pudera explicar o que sinto! ... Dou aqui um exemplo que
traduzirá um pouco meu modo de pensar. - Suponho que o filho de um entendido
doutor depare no caminho com uma pedra, que o faz cair e fraturar um membro. De
pronto lhe acorre o pai, ergue-o com amor, pensa-lhe as lesões, aplicando todos
os recursos de sua arte. E o filho, completamente curado, logo lhe testemunha
sua gratidão. Não resta dúvida, o filho tem todo o motivo de querer bem ao Pai!
Farei, contudo, outra suposição ainda. Sabendo que, no caminho do filho, se
encontra uma pedra, o pai apressa-se em tomar a dianteira, e remove-a, sem que
ninguém o veja. O filho, por certo, objeto de seu previdente carinho, não TENDO
CONHECIMENTO da desgraça, da qual o pai o livrara, não lhe mostrará gratidão, e
ter-lhe-á menos amor do que se fora curado por ele... Entanto, se souber o
perigo, do qual acaba de escapar, não o amará ainda mais? Ora, tal filha sou eu,
objeto do amor previdente de um Pai, que enviou seu Verbo para resgatar não os
justos, mas os pecadores ". Quer que eu o ame, porque me perdoou, não digo
muito, mas TUDO. Não esperava que eu muito o amasse, como Santa Madalena, mas
quis que SOUBESSE como me amou com um amor de inefável previdência, a fim de que
agora o ame até a loucura!... Ouvi dizer que se não encontra alma pura mais
amorosa do que uma alma arrependida. Oh! Quem me dera desmentir a afirmação!...
Percebo estar muito longe do meu assunto, motivo pelo qual me apresso em
retomá-lo. O ano seguinte à minha Primeira Comunhão escoou-se quase todo sem
provações interiores para minha alma. No retiro para a segunda Comunhão é que
fui assaltada pela terrível doença de escrúpulos... É preciso passar por tal
martírio, para o compreender. Ser-me-ia impossível dizer quanto não sofri em ano
e meio... Todos os meus pensamentos e as minhas mais ações mais simples se
tornavam para mim motivo de perturbação. Só tinha sossego, quando os contava à
Maria, e isto me era muito penoso, por sentir a obrigação de lhe dizer todas as
idéias extravagantes que me vinham à mente a respeito dela própria. Alijado meu
fardo, desfrutava um instante de paz, mas a paz desvanecia-se como um relâmpago,
e logo começava novamente meu martírio. De quanta paciência não precisava minha
querida Maria, para me ouvir, sem dar mostras de nenhum aborrecimento!... Mal
chegava eu da Abadia, punha-se ela a arrumar-me os cabelos para o dia seguinte
(pois, querendo agradar ao Papai, a rainhazinha andava todos os dias com os
cabelos em cachinhos, para grande admiração das colegas, mormente das
professoras que não não viam crianças tão mimadas pelos pais). E durante a
arrumação não parava de chorar, contando todos os meus escrúpulos. Como tivesse
terminado os estudos, Celina voltou para casa no fim do ano, e a pobre Teresa,
obrigada a ficar sozinha, não demorou a ficar doente, pois o único interesse que
a mantinha interna consistia em estar com sua inseparável Celina, sem a qual
"sua filhinha" já não poderia ali continuar... Deixei, pois, a Abadia na idade
de 13 anos e continuei meus estudos, tomando várias aulas semanais em casa da
Sra. Papinau". Era uma pessoa boníssima, muito culta, com uns ares de
solteirona. Vivia com a mãe, e encantava ver-se o pequeno lar, que juntas
constituíam a três (pois a gata fazia parte da família e eu tinha de suportar
suas sonecas em cima dos meus cadernos e, inclusive, admirar seu porte). Tinha a
vantagem de viver na intimidade da família. Como os Buissonnets ficavam muito
longe para as pernas já um tanto envelhecidas de minha professora, pedira ela
fosse tomar as aulas em sua casa. Ao chegar, encontrava ordinariamente a velha
senhora Cochain. Fitava-me "com seus olhos grandes e límpidos", e depois chamava
com voz descansada e sentenciosa: "Senhô rra Papineau... a Se nho rrita Teresa
já chegou!". Sua filha respondia-lhe prontamente, com voz acriançada: "Já vou,
Mamã". E logo começava a aula. Essas lições tinham a vantagem (além dos
conhecimentos que adquiria) de fazer-me conhecer o mundo... Quem o diria?... Na
sala, mobiliada à moda antiga, rodeada de livros e cadernos, presenciava muitas
vezes visitas de todos os gêneros, de sacerdotes, senhoras, moças, etc. Na
medida do possível, a conversa ficava por conta da Sra. Cochain, a fim de que a
filha pudesse dar-me aula, mas, em tais dias, não aprendia grande coisa. Com o
nariz metido no livro, ouvia tudo o que se falava, até o que para mim seria
melhor não escutar. A vaidade insinua-se tão facilmente no coração! ... Dizia
uma senhora que eu tinha cabelos bonitos... Na saída, uma outra, julgando não
ser ouvida, indagava quem era essa menina tão bonita. E tais palavras, tanto
mais lisonjeiras, quanto não eram ditas diante de mim, deixavam-me na alma uma
impressão de gozo, que claramente me indicava como eu era cheia de amor-próprio.
Oh! quanta compaixão não sinto das almas que se perdem!... É tão fácil perder-se
nas sendas floridas do mundo ... Não há dúvida, para uma alma mais formada a
doçura que ele oferece, vem mesclada de amargura, e o imenso vácuo dos desejos
não poderia preencher-se com louvores momentâneos ... No entanto, se meu coração
desde o seu despertar não se erguera até Deus, se o mundo me tivera sorrido
desde minha entrada na vida, que teria acontecido comigo?... ó minha Mãe
querida, com que gratidão canto as misericórdias do Senhor! ... De acordo com as
palavras da Sabedoria, não foi ele que "me retirou do mundo, antes que meu
espírito se pervertesse com sua malícia, e que suas enganosas aparências me
seduzissem a alma?" A Santíssima Virgem também velava sua florzinha. Não
querendo que perdesse o brilho ao contato com as coisas da terra, retirou-a para
o alto de sua montanha, antes que desabrochasse... Enquanto aguardava o ditoso
momento, Teresinha crescia no amor à sua Mãe do Céu. Para lhe dar prova desse
amor, praticou uma ação que muito lhe custou, e que a despeito de sua extensão
vou historiar em poucas palavras... Quase logo depois de minha admissão na
Abadia, fui recebida na associação dos Santos Anjos. Apreciava muito as práticas
de devoção que se me impunham, pois sentia um atrativo todo particular em rezar
aos bem-aventurados espíritos celestiais, especialmente àquele que o Bom Deus me
dera para ser companheiro do meu exílio. Algum tempo depois da minha Primeira
Comunhão, a fita de aspirante a Filha de Maria substituiu a dos Santos Anjos.
Antes, porém, de ser admitida na Associação da Santíssima Virgem, deixei a
Abadia. Por ter saído antes de concluir os estudos, não tinha o direito de
ingressar como antiga aluna. Considerando, contudo, que todas as minhas irmãs
tinham sido "Filhas de Maria", tive receio de ser, menos do que elas, filha de
minha Mãe do Céu, e fui com toda a humildade (apesar do muito que me custava)
pedir a licença de ser recebida na Associação da Santíssima Virgem na Abadia. A
mestra diretora não quis recusar-me, mas pôs como condição que, duas vezes por
semana, me recolhesse uma tarde na Abadia, para mostrar se era digna de ser
admitida. Bem ao invés de me causar prazer, a concessão foi-me custosa ao
extremo. Não tinha, como outras antigas alunas, uma professora amiga, com a qual
pudesse passar algumas horas. Contentava-me, por conseguinte, em cumprimentar a
mestra, e depois trabalhava em silêncio até ao final da lição programada.
Ninguém me dava atenção, e por isso subia à tribuna do coro da capela, ficando
diante do Santíssimo Sacramento até o momento em que Papai ia buscar-me. Esta
era minha exclusiva consolação. Não era Jesus meu único amigo?... Não conseguia
falar senão com Ele. Fatigava-me a alma conversar com as criaturas, ainda que se
tratasse de conversas piedosas... Sentia que era maior vantagem falar com Deus
do que falar de Deus, pois em conversas espirituais se intromete muito amor
próprio! ... Oh! bem era, única e exclusivamente, pela Santíssima Virgem que me
apresentava na Abadia... Por vezes, sentia-me sozinha. muito sozinha. Como nos
dias de minha vida de semi-interna, quando triste e doente espairecia no grande
pátio, repetia as palavras que sempre me fizeram renascer paz e alento no
coração: "A vida é teu navio, não é tua morada!"... Quando ainda pequenina,
estas palavras me restituíam a coragem. Ainda agora, a despeito dos anos que
apagam tantas impressões da piedade infantil, a imagem da embarcação enleva
minha alma, ajudando-lhe a suportar o exílio em paciência... Não nos diz também
a Sabedoria que "a vida é como uma nau que sulca as ondas agitadas, e de cuja
rápida passagem não fica nenhum vestígio?... " Quando penso tais coisas, minha
alma submerge no infinito. Afigura-se-me que já abordo a praia da eternidade...
Afigura-se-me receber os amplexos de Jesus... Creio avistar minha Mãe do Céu que
me vem ao encontro na companhia do Papá... da Mamã... dos quatro anjinhos...
Creio, afinal, gozar para sempre da verdadeira vida eterna em família...
Antes de ver a família congregada no pátrio lar dos Céus, devia atravessar ainda
muitas separações. No ano de minha admissão como filha da Santíssima Virgem, ela
me tirou minha querida Maria, único sustento de minha alma... Era Maria quem me
guiava, consolava, ajudava a praticar a virtude. Era meu único oráculo. Sem
dúvida, Paulina tinha ficado bem firme em meu coração, mas estava longe, muito
longe de mim!... Sofri o martírio para me habituar a viver sem ela, por ver
entre nós muros intransponíveis. Mas enfim acabei aceitando a triste realidade.
Paulina estava perdida para mim, quase como se estivesse morta. Continuava a me
amar, rezava por mim, mas aos meus olhos minha querida Paulina se tornara uma
santa, que já não poderia compreender as coisas da terra; e as misérias de sua
pobre Teresa, se as conhecesse, tê-la-iam espantado e impedido de amá-la
tanto... Por outro lado, ainda se quisera confidenciar-lhe meus pensamentos,
como o fazia nos Buissonnets, não teria possibilidade, porque os atendimentos no
locutório eram somente para Maria. Celina e eu tínhamos permissão de chegar lá
só no final, justamente o tempo necessário para nos deixar com o coração
apertado... Assim não tinha na realidade senão Maria, que me era, por assim
dizer, indispensável. Só a ela contava meus escrúpulos e era tão obediente que
meu confessor nunca chegou a saber de minha desagradável doença. A ele dizia
exatamente o número de pecados que Maria me autorizava confessar, nem um a mais.
Por isso poderia ser tida como a alma menos escrupulosa da terra, embora o fosse
até ao último grau... Maria sabia, por conseguinte, tudo o que se passava em
minha alma. Sabia também dos meus desejos a respeito do Carmelo, e eu lhe queria
tanto, que não podia viver sem ela. Titia convidava-nos todos os anos a irmos,
uma por vez, à sua casa em Trouville. Gostava muito de ir lá, mas em companhia
de Maria! Não a tendo comigo, ficava muito entediada. Uma vez, entretanto,
senti-me satisfeita em Trouville. Foi no ano da viagem de Papai a
Constantinopla. Para nos distrair um pouco, (pois estávamos desgostosas por
saber Papai a tão grande distância), Maria mandou-nos, à Celina e a mim, passar
quinze dias à beíra-mar. Tive ali muita distração, porque minha Celina estava
comigo. Titia arranjava-nos todos os passatempos possíveis: montaria em
jumentinho, pesca de langueirões etc... Era ainda muito criança, apesar dos meus
doze anos e meio. Lembro-me de minha satisfação, quando punha as lindas fitas
azuis de anil, que Titia me dera para os cabelos. Lembra-me, também, de ter
confessado em Trouville até essa alegria infantil, que pareceu-me pecado... Uma
tarde, fiz uma experiência que me surpreendeu bastante. - Maria (Guérin), que
vivia quase sempre adoentada, choramingava de vez em quando. Titia então
fazia-lhe carícias, dizia-lhe os nomes mais afetuosos, e minha querida priminha
nem por isso parava de dizer, toda lacrimosa, que estava com dor de cabeça. Ora,
eu que quase todos os dias também tinha dor de cabeça e nunca me queixava, quis
uma tarde imitar Maria. Senti, pois, a obrigação de choramingar numa poltrona ao
canto da sala. Joana e Titia logo se aproximaram de mim, perguntando-me o que
tinha. Respondi, igual à Maria: "Estou com dor de cabeça". Parece que não me saí
bem no modo de queixar-me, pois nunca pude convencê-las de ter sido dor de
cabeça que me fizera chorar. Em vez de me afagarem, falaram comigo como se fala
com gente grande. De sua parte, Joana me censurou por não confiar bastante na
Titia, por julgar que eu estava às voltas com algum escrúpulo de consciência...
Afinal, aprendi à própria custa, tomando a firme resolução de não imitar mais os
outros, e entendi a fábula de "O asno e o cachorrinho"". Eu representava o asno
que, vendo as carícias que se faziam ao cachorrinho, ergueu a pesada pata sobre
a mesa, para receber seu quinhão de beijos. Mas, ai! se não levei pancadas, como
o pobre animal, recebi realmente a moeda de minha paga, moeda que me curou, por
toda a vida, do prurido de atrair a atenção. Só o esforço que nisso apliquei,
custou-me caro demais!...
No ano seguinte, que era o da partida de minha querida Madrinha, Titia ainda me
convidou, mas desta vez a mim sozinha, mas tão desambientada fiquei que, ao cabo
de dois ou três dias adoeci, e foi preciso que me fizessem voltar para Lisieux.
Minha doença, que temiam como grave, não passava de uma nostalgia dos
Buissonnets. Mal pus os pés ali, voltou a saúde... E a essa criança, ia o Bom
Deus arrebatar-lhe o único apoio que a prendia à vida! ...
Logo que soube da resolução de Maria, resolvi não mais procurar nenhum prazer na
terra... Depois que saí do pensionato, alojei-me no antigo gabinete de pintura
de Paulina, e arrumei-o a meu gosto. Era um verdadeiro bazar, um aglomerado de
coisas piedosas e curiosidades, uma jardineira e um viveiro de passarinhos...
Assim, também, na parede do fundo, sobressaíam uma grande cruz de madeira preta,
sem o corpo de Cristo, e alguns desenhos que me agradavam. Na outra parede, uma
cesta guarnecida de musselina e fitas cor-de-rosa, cheia de folhinhas picadas e
de flores. Afinal, na última parede, salientava-se, como peça única, o retrato
de Paulina aos 1O anos de idade. Debaixo do retrato, conservava eu uma mesa,
onde se achava uma grande gaiola, que comportava grande número de passarinhos,
cujos melodiosos trinados atordoava a cabeça dos visitantes, mas não a de sua
jovem proprietária, que lhes tinha grande afeição... Ali havia ainda o "pequeno
traste branco", cheio de meus livros de estudo, de cadernos etc. Em cima do
traste estava colocada uma estátua da Santíssima Virgem, com vasos sempre
providos de flores naturais, com castiçais. Em derredor, havia uma multidão de
estatuetas de Santos e Santas, certinhos feitos de conchas, caixa de cartolina,
etc! Afinal, minha jardineira ficava suspensa diante da janela, onde eu
cultivava vasos de flores (os mais raros que podia encontrar). No interior do
"meu museu" havia ainda uma jardineira, sobre a qual punha minha planta
predileta... Diante da janela, minha mesa coberta com um tapete verde, e sobre
esse tapete coloquei, no meio, uma ampulheta, uma estatueta de São José, um
porta-relógio, corbelhas para flores, um tinteiro etc... Algumas cadeiras mancas
e a fascinante caminha de boneca de Paulina completavam todo o meu mobiliário.
Realmente, esse pobre quarto de sótão era um mundo para mim, e como o Sr. De
Maistre poderia eu escrever um livro com o título: "Passeio em torno do meu
quarto". Gostava de permanecer horas inteiras nesse quarto, a estudar e a
meditar diante do panorama que se descortinava aos meus olhos ... Quando eu
soube da partida de Maria, meu quarto perdeu para mim todo o encanto. Não queria
abandonar um só instante a querida irmã que dentro em breve se subtrairia à
nossa convivência ... Quantos atos de paciência não a obriguei a praticar! Todas
as vezes que passava diante da porta de seu quarto, batia até que ela abrisse, e
abraçava-a de todo o coração. Queria fazer provisão de beijos por todo o tempo
que ficaria sem eles.
Um mês antes de sua entrada no Carmelo, Papai levou-nos a Alençon, mas a viagem
ficou longe de assemelhar-se à primeira, porque tudo se me converteu em tristeza
e amargura. Não poderia descrever as lágrimas que derramei junto ao túmulo de
Mamãe, por ter esquecido de levar um ramalhete de centáureas, colhidas para ela.
Na verdade, acabrunhava-me com qualquer coisa! Era ao contrá- rio de agora, pois
o Bom Deus concedeu-me a graça de me não abater com nenhuma coisa passageira.
Quando recordo os tempos idos, minha alma transborda de gratidão vendo os
favores que recebi do Céu. Operou-se tal mudança em mim que não sou
reconhecível... Verdade é que eu desejava ter "sobre minhas ações um domínio
absoluto, ser a dona, não a escrava"'. Essas palavras da Imitação comoviam-me
profundamente, mas devia, por assim dizer, comprar essa graça inestimável pelos
meus desejos; ainda parecia uma criança que só quer o que os outros querem. O
que fazia as pessoas de Alençon dizerem que eu era fraca de caráter... Foi
durante essa viagem que Leônia fez experiência nas clarissas". Fiquei triste com
sua entrada extraordinária, pois amava-a muito e não pude beijá-la antes da
partida.
Nunca me esquecerei da bondade e do embaraço desse pobre paizinho quando veio
anunciar-nos que Leônia já vestia o hábito das clarissas... Como nós, achava
isso muito engraçado, mas não queria dizer nada, vendo quanto Maria estava
descontente. Levou-nos ao convento, e lá senti um aperto no coração como nunca
tinha sentido ao ver um mosteiro. Isso produziu em mim o efeito contrário do
Carmelo, em que tudo dilatava minha alma... A vista das religiosas tampouco me
encantou, e não fiquei tentada a permanecer no meio delas. A pobre Leônia
parecia muito gentil no novo traje; disse-nos para olhar bem os olhos dela,
porque não devíamos vê-los mais (as clarissas só se mostram de olhos baixos).
Mas Deus contentou-se com dois meses de sacrifício, e Leônia voltou a nos
mostrar seus olhos azuis, freqüentemente molhados de lágrimas... Ao deixar
Alençon, pensava que ela ia ficar com as clarissas, por isso foi com muita
tristeza que me afastei da triste rua da meia-lua. Ficávamos apenas três e,
logo, nossa querida Maria ia nos deixar... 15 de outubro foi o dia da separação!
Só restavam as duas últimas da numerosa e alegre família dos Buissonnets... As
pombas haviam fugido do ninho paterno e as que ficavam queriam também segui-las,
mas suas asas eram ainda fracas demais para poder alçar vôo... Deus, que queria
chamar para si a menor e a mais fraca de todas elas, apressou-se em desenvolver
suas asas. Ele, que se compraz em mostrar sua bondade e seu poder servindo-se
dos instrumentos menos dignos, quis chamar-me antes de Celina, que, sem dúvida,
merecia antes esse favor. Mas Jesus sabia como eu era fraca e foi por isso que
me escondeu antes no recôncavo do rochedo.
Quando Maria entrou para o Carmelo, era eu ainda muito escrupulosa. Já não
podendo confiar-me a ela, volvi-me para o lado dos Céus. Foi aos quatro
anjinhos, meus predecessores lá no alto, que me dirigi com a idéia de que suas
almas inocentes, por não terem jamais conhecido inquietações nem temores, deviam
compadecer-se de sua pobre maninha que sofria aqui na terra. Falava-lhes com
ingenuidade de criança, e fazia-lhes ver que, sendo a caçula da família, tinha
sido sempre a mais amada, a mais contemplada com carinhos por parte de minhas
irmãs, e que eles, por certo também me teriam dado provas de afeição, se
tivessem continuado aqui na terra... Sua partida para o Céu não me parecia
motivo de me esquecerem. Pelo contrário, estando em condições de haurir nos
tesouros divinos, neles poderiam buscar a paz para mim, e mostrar-me assim que
no Céu a gente ainda sabe amar!... A resposta não se fez esperar. A paz logo me
inundou a alma com sua deliciosa exuberância, e compreendi que, se era amada
aqui na terra, também o era lá no Céu... Desde aquele momento, cresceu minha
devoção para com meus irmãozinhos. Gosto de entreter-me muitas vezes com eles,
de falar-lhes das tristezas do exílio... do meu desejo de logo juntar-me a eles
brevemente na Pátria!...
Se o Céu me cobria de graças, não era porque as merecesse, era ainda muito
imperfeita; de fato, tinha um grande desejo de praticar a virtude, mas agia de
maneira estranha. Eis um exemplo: por ser a mais nova, não estava acostumada a
me servir. Celina arrumava o quarto em que dormíamos e eu não fazia nenhum
trabalho caseiro; depois da entrada de Maria no Carmelo, acontecia-me, às vezes,
para agradar a Deus, de tentar arrumar a cama ou de, na ausência de Celina,
guardar os vasos de flores à noite. Como disse, era só por Deus que eu fazia
essas coisas, portanto não devia esperar o agradecimento das criaturas. Ai! era
todo o contrário. Se Celina não demonstrasse contentamento pelos meus
servicinhos, eu ficava contrariada e provava-o com minhas lágrimas...
Era verdadeiramente insuportável pela minha sensibilidade excessiva. Se me
acontecesse causar involuntariamente aflição a alguém a quem amava, em vez de me
controlar e não chorar, o que aumentava meu erro em vez de diminuí-lo, chorava
como uma Madalena, e quando começava a consolar-me pela coisa que me levara a
chorar chorava por ter chorado... Todos os raciocínios eram inúteis e não
conseguia corrigir-me desse desagradável defeito. Não sei como acalentava a doce
idéia de ingressar no Carmelo, estando ainda nos cueiros!..." Foi preciso Deus
fazer um pequeno milagre para eu crescer de repente, e esse milagre se deu num
dia inesquecível de Natal, nessa noite luminosa que ilumina as delícias da
Santíssima Trindade. Jesus, a doce criancinha recém-nascida, transformou a noite
da minha alma em torrentes de luz... nessa noite em que se fez fraco e sofrido
pelo meu amor, fez-me forte e corajosa, equipou-me com suas armas e, desde essa
noite abençoada, não saí vencida em nenhum combate. Pelo contrário, andei de
vitória em vitória e iniciei, por assim dizer, "uma corrida de gigante!..." A
fonte das minhas lágrimas secou e só voltou a jorrar pouquíssimas vezes e com
dificuldade, o que justificou essa palavra que me fora dita: "Choras tanto na
infância que, mais tarde, não terás mais lágrimas para derramar!..."
Foi em 25 de dezembro de 1886 que recebi a graça de sair da infância, em suma, a
graça da minha completa conversão. Estávamos voltando da missa do galo, em que
tinha tido a felicidade de receber o Deus forte e poderoso. Ao chegar aos
Buissonnets, alegrava-me por pegar meus sapatos na lareira. Esse costume antigo
causara-nos tanta alegria durante a infância que Celina queria continuar a me
tratar corno um bebê, por ser a menor da família... Papai gostava de ver minha
felicidade, ouvir meus gritos de alegria ao tirar cada surpresa dos sapatos
encantados, e a alegria do meu Rei querido aumentava muito a minha. Mas,
querendo Jesus mostrar-me que devia me desfazer dos defeitos da infância, tirou
de mim também as inocentes alegrias; permitiu que papai, cansado da missa do
galo, sentisse tédio vendo meus sapatos na lareira e dissesse essas palavras que
me magoaram: "Enfim, felizmente, é o último ano!..." Subi a escada para ir tirar
meu chapéu, Celina, conhecendo minha sensibilidade e vendo já as lágrimas em
meus olhos, ficou também com vontade de chorar, pois amava-me muito e
compreendia meu sofrimento: "Oh, Teresa!", disse-me, "não desce, te causará
tristeza demais olhar já teus sapatos". Mas Teresa não era mais a mesma, Jesus
havia mudado o coração dela! Reprimindo minhas lágrimas, desci rapidamente e,
comprimindo as batidas do coração, peguei meus sapatos... então, colocando-os
diante de papai, tirei alegremente todos os objetos, parecendo feliz como uma
rainha. Papai ria também, voltara a ficar alegre e Celina pensava sonhar!...
Felizmente, era uma doce realidade. Teresinha reencontrar a força de alma que
perdera aos 4 anos e meio e ia conservar para sempre!...
Nessa noite de luz, começou o terceiro período da minha vida, o mais bonito de
todos, o mais cheio das graças do Céu... Num instante, a obra que eu não pude
cumprir em dez anos, Jesus a fez contentando-se com a boa vontade que nunca me
faltara. Como os apóstolos, podia dizer-Lhe: "Senhor, pesquei a noite toda sem
nada pegar". Ainda mais misericordioso comigo do que com os discípulos, Jesus
pegou Ele mesmo a rede, lançou-a e retirou-a cheia de peixes... Fez de mim um
pescador de alma, senti um desejo imenso de trabalhar pela conversão dos
pecadores, desejo que não sentira tanto antes... Em suma, senti a caridade
entrar em meu coração, a necessidade de me esquecer para agradar e, desde então,
fiquei feliz!... Num domingo, ao olhar uma foto de Nosso Senhor na Cruz, fiquei
impressionada com o sangue que caía de uma das suas mãos divinas. Senti grande
aflição pensando que esse sangue caía no chão sem que ninguém se apressasse em
recolhê-lo. Resolvi ficar, em espírito, ao pé da Cruz para receber o divino
orvalho que se desprendia, compreendendo que precisaria, a seguir, espalhá-lo
sobre as almas... O grito de Jesus na Cruz ressoava continuamente em meu
coração: "Tenho sede!" Essas palavras despertavam em mim um ardor desconhecido e
muito vivo... Queria dar de beber a meu Bem-amado e sentia-me devorada pela sede
das almas... Ainda não eram as almas dos sacerdotes que me atraíam, mas as dos
grandes pecadores. Ardia do desejo de arrancá-los às chamas eternas...
Para estimular meu zelo, Deus mostrou-me que meus desejos eram-lhe agradáveis.
Ouvi falar de um grande criminoso que acabava de ser condenado à morte por
crimes horríveis. Tudo fazia crer que morreria impenitente. Quis, a qualquer
custo, impedi-lo de cair no inferno"'. Para conseguir, usei de todos os meios
imagináveis: sentindo que, de mim mesma, nada poderia, ofereci a Deus os méritos
infinitos de Nosso Senhor, os tesouros da santa Igreja, enfim, pedi a Celina
para mandar celebrar uma missa nas minhas intenções, não ousando pedi-la eu
mesma, temendo ser obrigada a dizer que era para Pranzini, o grande criminoso.
Não queria, tampouco, dizê-lo a Celina, mas insistiu com tanta ternura que lhe
confiei meu segredo; longe de zombar de mim, pediu para ajudar a converter meu
pecador. Aceitei com gratidão, pois teria desejado que todas as criaturas se
unissem a mim para implorar a graça para o culpado. No fundo do meu coração,
tinha certeza de que nossos desejos seriam atendidos. Mas, a fim de ter coragem
para continuar a rezar pelos pecadores, disse a Deus estar segura de que Ele
perdoaria o pobre infeliz Pranzini, que acreditaria mesmo que não se confessasse
e não desse sinal nenhum, de arrependimento, enorme era minha confiança na
misericórdia infinita de Jesus, mas lhe pedia apenas um sinal de arrependimento,
para meu próprio consolo... Minha oração foi atendida ao pé da letra! Apesar da
proibição de papai de lermos jornais, não pensava desobedecer lendo as passagens
que falavam de Pranzini. No dia seguinte à sua execução, cai-me às mãos o jornal
La Croix. Abro-o apressada e o que vejo?... Ah! minhas lágrimas traíram minha
emoção e fui obrigada a me esconder... Pranzini não se confessou, subiu ao
cadafalso e preparava-se para colocar a cabeça no buraco lúgubre quando, numa
inspiração repentina, virou-se, apanhou um Crucifixo que lhe apresentava o
sacerdote e beijou por três vezes suas chagas sagradas!... Sua alma foi receber
a sentença misericordiosa Daquele que declarou que no Céu haverá mais alegria
por um só pecador arrependido do que por 99 justos que não precisam de
arrependimento!...
Obtive o "sinal" pedido, e esse sinal era a reprodução fiel de graças que Jesus
me fizera para atrair-me a rezar pelos pecadores. Não foi diante das chagas de
Jesus, vendo cair seu sangue divino, que a sede de almas entrou em meu coração?
Queria dar-lhes de beber esse sangue imaculado que devia purificá-las das suas
sujeiras, e os lábios do "meu primeiro filho" foram colar-se às chagas
sagradas!!!... Que resposta indizivelmente doce!... Ah! desde essa graça única,
meu desejo de salvar as almas cresceu a cada dia. Parecia-me ouvir Jesus dizendo
como para a samaritana: "Dê-me de beber!" Era uma verdadeira troca de amor; às
almas, eu dava o sangue de Jesus; a Jesus, oferecia essas mesmas almas
refrescadas pelo seu divino orvalho. Dessa forma, eu parecia desalterá-lo e mais
lhe dava de beber, mais a sede da minha pequena alma aumentava e era essa sede
ardente que Ele me dava como a mais deliciosa bebida do seu amor...
Em pouco tempo, Deus conseguira fazer-me sair do círculo apertado no qual eu
girava sem encontrar saída. Vendo o caminho que Ele me fizera percorrer, minha
gratidão é grande, mas preciso convir que, se o passo maior fora dado, muitas
coisas restavam ainda a abandonar. Livre dos escrúpulos, da sua sensibilidade
excessiva, meu espírito desenvolveu-se. Sempre gostara do grandioso, do belo,
mas naquela época fui tomada de um desejo extremo de saber. Não satisfeita com
as lições e as tarefas que minha mestra me dava, dedicava-me, sozinha, a estudos
especiais de história e de ciências. Os outros estudos deixavam-me indiferente,
mas essas duas áreas atraíam minha atenção. Em poucos meses, adquiri mais
conhecimentos que durante meus anos de estudos. Ah! isso só era vaidade e
aflição de espírito... O capítulo da Imitação em que se fala das ciências
voltava à minha mente, mas achava o meio de prosseguir assim mesmo, dizendo-me
que, estando na idade de estudar, não havia mal nenhum em fazê-lo. Não creio ter
ofendido a Deus (embora reconheça ter passado nisso um tempo inútil), pois só
ocupava um certo número de horas que não queria ultrapassar a fim de mortificar
meu desejo excessivo de saber... Estava na mais perigosa idade para as moças,
mas Deus fez por mim o que relata Ezequiel em suas profecias: "passando perto de
mim, Jesus viu que havia chegado para mim o tempo de ser amada, Ele fez aliança
comigo e passei a ser sua... Estendeu sobre mim seu manto, lavou-me em perfumes
preciosos, revestiu-me de roupas bordadas, dando-me colares e jóias sem preço...
Alimentou-me com a mais pura farinha, com mel e azeite abundante... então passei
a ficar bela aos olhos Dele e fez de mim uma poderosa rainha!..."
Sim, Jesus fez tudo isso para mim, poderia retomar cada palavra do que acabo de
escrever e provar que se realizou em meu favor, mas as graças que relatei acima
são prova suficiente. Vou apenas falar da alimentação que me prodigalizou "com
abundância". Havia muito que me alimentava da "pura farinha" contida na
Imitação, era o único livro que me fazia bem, pois ainda não havia achado os
tesouros escondidos no Evangelho. Sabia de cor quase todos os capítulos da minha
querida Imitação, nunca me desfazia desse livrinho. No verão, levava-o no bolso;
no inverno, no meu regalo. O hábito tornou-se tradicional e, na casa da minha
tia, divertiam-se muito abrindo-o ao acaso e fazendo-me recitar o capítulo que
se apresentava aos olhos. Aos 14 anos, com meu desejo de ciência, Deus achou
necessário acrescentar "à pura farinha mel e azeite em abundância". Esse mel e
esse azeite, fez-me encontrá-los nas conferências do padre Arminjon, sobre o fim
do mundo atual e os mistérios do mundo futuro. Esse livro havia sido emprestado
a papai pelas minhas queridas carmelitas; por isso, contrariamente a meus
hábitos (pois eu não lia os livros de papai), pedi para lê-lo.
Essa leitura foi ainda uma das maiores graças da minha vida. Eu a fiz janela do
meu quarto de estudo e a impressão que tive é por demais íntima e doce para que
possa expressá-la...
Todas as grandes verdades da religião, os mistérios da eternidade, mergulhavam
minha alma numa felicidade que não era da terra... Já pressentia o que Deus
reserva a quem o ama (não com o olho do homem, mas com o do coração) e, vendo
que as recompensas eternas não tinham proporção alguma com os leves sacrifícios
da vida, quis amar, amar Jesus com paixão, pedir-lhe mil marcas de amor,
enquanto ainda podia... Copiei muitas passagens sobre o amor perfeito e a
recepção que Deus deve fazer a seus eleitos no momento em que Ele próprio se
tornará sua grande e eterna recompensa. Repetia sem parar as palavras de amor
que haviam abrasado meu coração... Celina tornara-se a confidente íntima dos
meus pensamentos; desde o Natal, podíamos nos compreender, a distância de idade
não existia mais, pois eu me tornara grande em tamanho e, sobretudo, em graça...
Antes dessa época, reclamava com freqüência por não conhecer os segredos de
Celina. Dizia-me que eu era pequena demais, que precisaria crescer a altura de
um banquinho para ela ter confiança em mim... Gostava de subir nesse precioso
banquinho quando estava ao lado dela, e lhe dizia para falar-me intimamente, mas
meu esforço era inútil, uma distância nos separava ainda!...
Jesus queria fazer-nos avançar juntas e, por isso, formou em nossos corações
laços ainda mais fortes que os do sangue. Tornou-nos irmãs de almas.
Realizaram-se em nós essas palavras do Cântico de são João da Cruz (falando com
o Esposo, a esposa exclama): "Seguindo vossas pegadas, as moças percorrem leves
o caminho, o toque da centelha, o vinho condimentado fazem-nas produzir
aspirações divinamente perfumadas". Sim, era com leveza que seguíamos as pegadas
de Jesus, as centelhas do amor que semeava profusamente em nossas almas, o vinho
delicioso e forte que nos dava de beber faziam desaparecer a nossos olhos as
coisas passageiras e dos nossos lábios saíam aspirações de amor inspiradas por
Ele. Como eram doces as conversações que tínhamos, toda noite, no mirante! O
olhar fixo no horizonte, observávamos a branca lua içando-se atrás das altas
árvores... os reflexos argênteos que se espalhavam sobre a natureza adormecida,
as brilhantes estrelas cintilando no azul profundo... o sopro ligeiro da brisa
noturna fazia flutuar as nuvens nevadas, tudo elevava nossas almas para o Céu, o
belo Céu do qual ainda só contemplávamos "o reverso límpido" ...
Não sei se estou enganada, mas parece-me que a efusão das nossas almas
assemelhava-se à de santa Mônica com seu filho quando, no porto de Óstia,
ficavam perdidos em êxtase à vista das maravilhas do Criador!... Creio que
recebíamos graças de uma categoria tão alta como as concedidas aos grandes
santos. Como diz a Imitação, às vezes Deus se comunica em meio a um vivo
esplendor, outras vezes "suavemente velado, por sombras e figuras. Era dessa
última maneira que se dignava manifestar às nossas almas, mas como era
transparente e leve o véu que separava Jesus dos nossos olhares!... A dávida era
impossível, já não havia necessidade da Fé e da Esperança, o amor fazia-nos
encontrar na terra Aquele que buscávamos. "Tendo-o encontrado sozinho, dava-nos
seu beijo, a fim de que, no futuro, ninguém pudesse nos desprezar."
Graças tão grandes não haviam de ficar sem frutos. E foram abundantes. A prática
da virtude tornou-se para nós suave e natural; no começo, meu rosto deixava
transparecer a luta, mas aos poucos essa impressão desapareceu e a renúncia
passou a ser fácil para mim, quase espontânea. Jesus disse: "A quem possui
dar-se-á mais e ficará na abundância". Em troca de uma graça fielmente recebida,
dava-me muitas outras... Ele próprio se dava a mim na santa Comunhão mais vezes
que eu teria ousado esperar. Adotei como regra de conduta comungar todas as
vezes que fosse autorizada pelo meu confessor e deixar a este resolver o número
das minhas comunhões, sem nunca interferir. Não tinha na época a audácia que
tenho agora, pois teria agido de outro modo. Tenho certeza de que uma alma deve
dizer claramente a seu confessor a atração que tem para receber seu Deus. Não é
para ficar no cibório de ouro que Ele desce do céu todos os dias'", mas para
encontrar um outro céu, infinitamente mais querido que o primeiro, o céu da
nossa alma, feito à sua imagem, o templo vivo da adorável Trindade!...
Jesus, que via meu desejo e a retidão do meu coração, permitiu que durante o mês
de maio meu confessor me dissesse para comungar quatro vezes por semana e, findo
esse belo mês, acrescentou mais um dia toda vez que houvesse uma festa. Doces
lágrimas caíram dos meus olhos ao sair do confessionário, parecia-me que era o
próprio Jesus quem queria dar-se a mim, pois eu ficava muito pouco tempo em
confissão, nunca falava dos meus sentimentos interiores. O caminho pelo qual
andava era tão reto, tão claro, que não precisava de outro guia que Jesus...
Comparava os diretores a espelhos fiéis que refletiam Jesus nas almas e dizia
que para mim Deus não usava intermediário, mas agia diretamente!...
Quando um jardineiro cerca de cuidados uma fruta que quer fazer amadurecer
prematuramente, nunca é para deixá-la na árvore, mas para apresentá-la numa mesa
brilhantemente servida. Era com uma intenção semelhante que Jesus prodigalizava
suas graças a sua florzinha... Ele que, nos dias da sua vida mortal, exclamava:
"Pai, bendigo-vos por ter escondido essas coisas aos sábios e aos prudentes e
tê-las revelado aos humildes", queria revelar em mim sua misericórdia, porque eu
era pequena e fraca, inclinava-se para mim, instruía-me em segredo das coisas do
seu amor. Ah! se sábios que passaram a vida estudando tivessem vindo
interrogar-me, teriam, sem dúvida, ficado espantados ao ver uma criança de 14
anos compreender os segredos da perfeição, segredos que toda a ciência não
pudera lhes revelar, pois para possuí-los é preciso ser pobre de espírito!...
Como diz são João da Cruz em seu cântico: "Não tinha guia nem luz, fora aquela
que brilhava em meu coração, essa luz guiava-me com mais segurança que a do
meio-dia para o lugar onde me aguardava Aquele que me conhece perfeitamente''.
Esse lugar era o Carmelo. Antes de "descansar à sombra Daquele que eu desejava",
devia passar por muitas provações, mas o chamamento divino era tão intenso que,
mesmo que tivesse de atravessar as chamas, o teria feito para ser fiel a
Jesus... Para encorajar-me em minha vocação, só encontrei uma alma, foi a da
minha Madre querida... meu coração encontrou no dela um eco fiel e, sem ela, não
teria, sem dúvida, chegado à praia abençoada onde ela fora acolhida cinco anos
antes sobre as margens impregnadas do orvalho celeste... Sim, havia cinco anos
que estava afastada de vós, querida Madre, pensava vos ter perdido, mas no
momento da provação foi vossa mão que me indicou o caminho a seguir... Precisava
desse alívio, pois minhas visitas ao Carmelo haviam se tornado sempre mais
penosas, não podia falar do meu desejo de ingresso sem sentir-me rejeitada.
Achando-me jovem demais, Maria fazia tudo para impedir meu ingresso; vós, Madre,
para pôr-me à prova, procuráveis, algumas vezes, diminuir meu ardor; enfim, se
eu não tivesse tido verdadeiramente a vocação, teria desistido logo no início,
pois encontrei obstáculos logo que comecei a responder ao chamamento de Jesus.
Não quis contar a Celina o meu desejo de entrar tão nova no Carmelo e isso
fez-me sofrer mais, pois era-me muito difícil esconder dela alguma coisa... Esse
sofrimento não durou muito tempo. Logo minha irmãzinha querida soube da minha
determinação e, longe de tentar desviar-me do projeto, aceitou com coragem
admirável o sacrifício que Deus lhe pedia. Para compreender-lhe a amplitude, é
preciso saber até que ponto éramos unidas... era, por assim dizer, a mesma alma
que nos fazia viver; havia alguns meses que gozávamos juntas da mais doce vida
que moças pudessem almejar; tudo a nosso redor respondia aos nossos gostos,
usufruíamos da maior liberdade. Enfim, dizia que nossa vida era o Ideal da
felicidade na terra... Apenas havíamos tido tempo de gozar desse ideal de
felicidade, e devíamos, livremente, desviar-nos dele. Minha Celina querida não
se rebelou um instante. Como não era ela que Jesus chamava em primeiro lugar,
podia ter reclamado... tendo a mesma vocação, era a vez de ela partir!... mas,
como no tempo dos mártires, os que ficavam nas prisões davam alegremente o
ósculo da paz a seus irmãos que partiam para combater na arena e consolavam-se
pensando que, talvez, fossem reservados para lutas ainda maiores. Assim, Celina
deixou sua Teresa afastar-se e ficou sozinha para o glorioso e sangrento combate
ao qual Jesus a destinava como a privilegiada do seu amor!...
Celina passou a ser a grande confidente das minhas lutas e dos meus sofrimentos.
Tomou parte como se se tratasse da sua própria vocação. Não receava oposição por
parte dela, mas não sabia que meios adotar para informar a papai... Como
dizer-lhe para deixar sua rainha ir embora depois de ter sacrificado as três
mais velhas?... Ah! quantas lutas íntimas sofri antes de sentir a coragem para
lhe comunicar!... Precisava decidir-me, ia fazer 14 anos e meio, apenas seis
meses nos separavam da bela noite de Natal em que resolvera ingressar, na mesma
hora em que, no ano anterior, tinha recebido "minha graça". Escolhi o dia de
Pentecostes para fazer a minha grande confidência e, o dia todo, supliquei aos
santos Apóstolos que intercedessem por mim, que me inspirassem as palavras...
Não eram eles, afinal, que deviam ajudar a criança tímida que Deus destinava a
se tornar o apóstolo dos apóstolos pela oração e pelo sacrifício?... Foi de
tarde, na volta das Vésperas, que encontrei a ocasião para falar com meu
paizinho querido. Tinha ido sentar à beira da cisterna e ali, de mãos juntas,
contemplava as maravilhas da natureza. O sol, cujo fogo tinha perdido o ardor,
dourava a copa das altas árvores onde os passarinhos cantavam alegremente sua
oração vesperal. A bela figura de papai tinha expressão celeste, sentia que a
paz inundava seu coração. Sem dizer uma única palavra, fui sentar-me a seu lado,
já com os olhos lacrimejantes, ele olhou-me com ternura e, pegando minha cabeça,
encostou-a no seu peito dizendo: "Que tens, minha rainhazinha?... me conte..."
Levantando-se, como para dissimular sua própria emoção, andou lentamente,
segurando sempre minha cabeça no seu peito. Em meio às minhas lágrimas,
confidenciei meu desejo de ingressar no Carmelo. Então, as lágrimas dele vieram
misturar-se às minhas, mas não disse uma palavra para desviar-me da minha
vocação, contentando-se apenas em observar que eu era ainda muito nova para
tomar uma decisão tão séria. Defendi tão bem minha causa que, com sua natureza
simples e reta, convenceu-se de que meu desejo era o de Deus e, na sua fé
profunda, exclamou que Deus lhe fazia uma grande honra pedindo-lhe assim suas
filhas. Continuamos por longo tempo o nosso passeio. Aliviado pela bondade com a
qual meu incomparável pai tinha acolhido as confidências, meu coração
expandia-se no dele. Papai parecia gozar dessa alegria tranqüila nascida do
sacrifício aceito. Falou-me como um santo e gostaria de lembrar-me das palavras
dele a fim de escrevê-las aqui, mas conservei-as tão sublimadas que se tornaram
intraduzíveis. O que recordo perfeitamente é da ação simbólica que meu rei
querido cumpriu sem o perceber. Aproximando-se de um muro baixo, mostrou-me
florzinhas brancas semelhantes a lírios em miniatura e, colhendo uma dessas
flores, entregou-a a mim, explicando o cuidado com que Deus a fizera e a
conservara até aquele momento; ouvindo-o falar, pensava ouvir a minha história,
tal era a semelhança entre o que Jesus fizera a sua florzinha e a Teresinha...
Recebi essa florzinha como uma relíquia e vi que, ao colhê-la, papai arrancara
as raízes todas sem quebrar uma. Parecia destinada a viver ainda, numa outra
terra, mais fértil que o tenro limo onde vivera suas primeiras manhãs... Era
essa mesma ação que papai acabava de fazer para mim alguns instantes antes,
permitindo-me subir a montanha do Carmelo e deixar o manso vale testemunho dos
meus primeiros passos na vida.
Coloquei minha florzinha branca na minha Imitação, no capítulo intitulado: "De
que é preciso amar a Jesus acima de todas as coisas". Ainda está aí, mas o caule
quebrou-se junto à raiz e Deus parece demonstrar com isso que quebraria em breve
os laços da sua florzinha e não a deixaria murchar na terra!
Após obter o consentimento de papai, pensava poder voar sem temor para o
Carmelo, mas numerosos e dolorosos empecilhos iam ainda provar a minha vocação.
Tremendo, anunciei a meu tio a resolução tomada. Ele me deu todas as mostras de
ternura possíveis, mas não a permissão de partir. Pelo contrário, proibiu-me de
lhe falar da minha vocação antes dos meus 17 anos. Era, dizia ele, contrário à
prudência humana deixar uma menina de 15 anos ingressar no Carmelo. Aos olhos do
mundo, essa vida de carmelita era vida de filósofo e seria grande prejuízo para
a religião deixar uma criança sem experiência abraçá-la... Todos falariam disso
etc, etc... Disse-me até que para decidi-lo a me deixar partir seria preciso um
milagre. Vi logo que todos os raciocínios eram inúteis e retirei-me com o
coração mergulhado na mais profunda amargura. Meu único consolo era a oração.
Pedi a Jesus para fazer o milagre exigido, pois só por esse preço poderia
responder ao pedido Dele. Passou-se um tempo bastante longo antes que eu ousasse
falar novamente com meu tio. Custava-me muito ir à casa dele e ele parecia não
mais pensar na minha vocação. Soube, mais tarde, que minha grande tristeza o
influenciou muito a meu favor. Antes de fazer brilhar em minha alma um raio de
esperança, Deus quis mandar-me um martírio muito doloroso que durou três dias.
Oh! nunca compreendi tão bem como durante essa provação a dor da Santíssima
Virgem e de são José procurando o divino Menino Jesus... Estava num triste
deserto, ou melhor, minha alma parecia uma frágil embarcação entregue sem piloto
à mercê de ondas tempestuosas... Sei, Jesus estava ali, dormindo na minha
barquinha, mas a noite estava tão escura que não podia vê-lo, nada para
iluminar, nem um relâmpago vinha rasgar as espessas nuvens... Luz bem triste a
dos relâmpagos, mas se uma tempestade tivesse ocorrido eu teria conseguido ver
Jesus por um instante... mas era noite, noite profunda da alma... como Jesus no
Jardim da Agonia, sentia-me só, sem consolo, nem por parte da terra, nem do Céu.
Deus parecia ter-me abandonado!!!... A natureza parecia tomar parte na minha
amarga tristeza; durante esses três dias, o sol não liberou um único raio e a
chuva caiu torrencialmente. Notei que em todas as circunstâncias graves da minha
vida a natureza era imagem da minha alma. Nos dias de lágrimas, o Céu chorava
comigo; nos dias de alegria, o Sol mandava com fartura seus alegres raios e o
azul não comportava nenhuma nuvem...
Enfim, no quarto dia, um sábado, dia consagrado à doce Rainha dos Céus, fui
visitar meu tio. Que surpresa, vendo-o olhar-me e fazer-me entrar em seu
escritório sem que eu lhe tivesse manifestado o desejo!... Começou por me
censurar brandamente por parecer ter medo dele e disse-me não ser necessário
pedir um milagre, que tinha apenas pedido a Deus que lhe desse "uma simples
inclinação de coração" e fora atendido... Ah! não fui tentada a implorar por um
milagre, para mim o milagre havia sido concedido. Meu tio havia mudado. Sem
fazer alusão nenhuma à "prudência humana", disse-me que eu era uma florzinha que
Deus queria colher e que não se oporia mais!...
Essa resposta definitiva era verdadeiramente digna dele. Pela terceira vez, esse
cristão de uma outra idade permitia que uma das filhas adotivas do seu coração
fosse sepultar-se longe do mundo. Minha tia também foi admirável em ternura e
prudência, não me lembro de, durante minha provação, ela ter dito uma palavra
sequer que pudesse ter agravado minha tristeza. Via que tinha pena da sua pobre
Teresinha. Por isso, depois que obtive a autorização do meu querido tio, deu-me
a dela, mas não sem manifestar de mil maneiras que minha partida lhe causaria
muita aflição... Ai! nossos queridos familiares estavam longe de pensar, então,
que iriam renovar duas vezes ainda o mesmo sacrifício... Mas, ao estender a mão
para pedir sempre, Deus não a oferecia vazia, seus mais queridos amigos puderam
servir-se com fartura da força e da coragem de que tanto precisaram... Meu
coração está me levando muito longe do meu assunto, volto quase a contragosto:
depois da resposta de meu tio, compreendeis, Madre, com que alegria voltei aos
Buissonnets debaixo do "belo céu, totalmente livre de nuvens!..." Na minha alma
também a noite tinha ido embora, Jesus acordara e me devolvia a alegria, o ruído
das ondas emudecera; no lugar da ventania da provação, uma brisa leve enchia
minha vela e pensei chegar logo à margem abençoada que avistava perto de mim. De
fato, parecia muito perto da minha barquinha; porém, mais de uma tempestade se
levantaria e esconderia da minha vista o farol luminoso, fazendo minha alma
recear o afastamento sem volta da praia tão ardentemente desejada...
Poucos dias após ter obtido o consentimento do meu tio, fui visitar-vos, querida
Madre, e vos falei da minha alegria por terem as provações chegado ao fim. Mas
qual não foi minha surpresa e minha aflição ao ouvir de vós que o Superior não
permitia meu ingresso antes de eu atingir 21 anos...
Ninguém tinha pensado nessa oposição, a mais invencível de todas; porém, sem
perder a coragem, fui com papai e Celina encontrar nosso padre a fim de tentar
demovê-lo, mostrando a ele que eu tinha vocação para o Carmelo. Ele nos recebeu
muito friamente. Embora meu incomparável paizinho tivesse juntado seus
argumentos aos meus, nada pôde alterar sua disposição. Disse que não havia
perigo na demora, que podia levar uma vida de carmelita em casa, que embora não
tomasse a disciplina nem tudo seria perdido etc... etc... Enfim, acrescentou ser
apenas o representante do senhor bispo e, se esse me autorizasse a ingressar,
não teria mais nada a dizer... Saí chorando. Felizmente, estava escondida atrás
da minha sombrinha, pois chovia muito. Papai não sabia como me consolar...
prometeu levar-me a Bayeux logo que eu quisesse, pois estava resolvida a
alcançar minha meta. Disse que iria até o Santo Padre se o senhor bispo me
negasse a entrada no Carmelo aos 15 anos... Muita coisa ocorreu antes da minha
ida a Bayeux. Por fora, minha vida parecia a mesma, estudava, tomava lições de
desenho com Celina e minha hábil mestra achava em mim muito pendor por sua arte.
Crescia no amor a Deus, sentia em meu coração impulsos desconhecidos até então,
tinha, às vezes, verdadeiros êxtases de amor. Uma tarde, não sabendo dizer a
Jesus quanto o amava e como desejava que Ele fosse amado e glorificado em todo
lugar, pensei com amargura que não poderia nunca receber no inferno um único ato
de amor. Então, disse a Deus que para agradar a Ele eu consentiria em ser
mergulhada nele a fim de que Ele fosse amado eternamente nesse lugar de
blasfêmia ... Sabia que isso não podia glorificá-lo, sendo que Ele só deseja
nossa felicidade, mas quando se ama sente-se necessidade de dizer mil bobagens;
se eu falava assim, não é porque não desejasse o Céu, mas, então, meu Céu
consistia só no Amor e sentia, como são Paulo, que nada poderia separar-me do
objeto divino que me seduzira!...
Antes de deixar o mundo, Deus concedeu-me a graça de contemplar de perto almas
de crianças; sendo a última da família, nunca tinha tido essa felicidade. Eis as
tristes circunstâncias que me levaram a isso: uma pobre mulher, parente da nossa
empregada, morreu jovem deixando três criancinhas; durante sua doença, guardamos
em casa as duas meninas, tendo a mais velha apenas 6 anos. Cuidava delas o dia
todo e era uma grande satisfação para mim ver com quanta candura acreditavam em
tudo o que lhes dizia. É preciso que o santo batismo deposite nas almas um germe
muito profundo das virtudes teologais para que se manifestem desde a infância e
que a esperança dos bens futuros baste para fazer aceitar sacrifícios. Quando
queria ver minhas duas meninas bem conciliadas, em vez de prometer brinquedos e
bombons àquela que cederia em favor da outra, falava-lhes das recompensas
eternas que o Menino Jesus daria no Céu às crianças bem comportadas. A mais
velha, cuja razão começava a se desenvolver, olhava-me com olhos brilhantes de
alegria, fazia-me mil perguntas gentis sobre o menino Jesus e seu belo Céu e
prometia-me com entusiasmo ceder sempre em favor da irmã, dizendo que nunca na
vida esqueceria o que lhe havia dito "a grande senhorita", pois era assim que me
chamava... Vendo de perto essas almas inocentes, compreendi ser grande
infelicidade não formá-las bem desde seu despertar, quando são como uma cera
mole sobre a qual se pode depositar tanto as impressões das virtudes como do
mal... compreendi o que Jesus disse no Evangelho: que seria melhor ser lançado
ao mar do que escandalizar uma só dessas crianças. Ah! quantas almas chegariam à
santidade se fossem bem dirigidas!...
Sei que Deus não precisa de ninguém para realizar sua obra, mas assim como
permite a um hábil jardineiro cultivar plantas raras e delicadas e lhe dá para
isso a ciência necessária, reservando para si a tarefa de fecundar, assim também
Jesus quer ser ajudado na sua divina cultura das almas.
Que aconteceria se um jardineiro desajeitado não enxertasse direito suas
plantas? Se não soubesse reconhecer a natureza de cada uma e quisesse fazer
brotar rosas num pessegueiro?... Faria morrer a planta que, todavia, era boa e
capaz de produzir frutos.
Assim é que se deve reconhecer desde a infância o que Deus pede às almas e
ajudar a ação da sua graça, sem nunca apressá-la nem retardá-la.
Como os passarinhos aprendem a cantar escutando seus genitores, assim as
crianças aprendem a ciência das virtudes, o canto sublime do Amor divino, junto
às almas encarregadas de formá-las.
Recordo-me de que entre meus passarinhos eu tinha um canarinho que cantava
maravilhosamente; tinha também um pequeno pintassilgo ao qual prodigalizava meus
cuidados maternos, tendo-o adotado antes que pudesse gozar da sua liberdade...
Esse pobre prisioneirinho não tinha pais para ensiná-lo a cantar, mas ouvindo o
dia todo o seu companheiro canarinho soltar alegres trinados quis imitá-lo...
Esse empreendimento era difícil para um pintassilgo, por isso sua voz delicada
teve dificuldade de se afinar à voz vibrante do seu mestre de música. Era lindo
ver os esforços do pequeno, mas foram coroados de êxito, pois seu canto, embora
conservando maior doçura, foi absolutamente o mesmo do canarinho.
Oh! Madre querida, fostes vós quem me ensinastes a cantar... foi vossa voz que
encantou minha infância, e agora tenho o consolo de ouvir dizer que ela se
parece com a vossa!!! Bem sei que ainda estou longe disso, mas espero, apesar da
minha fraqueza, repetir eternamente o mesmo cântico que vós!...
Antes do meu ingresso no Carmelo, fiz ainda muitas outras experiências acerca da
vida e das misérias do mundo, mas esses detalhes me levariam longe demais. Vou
retomar o relato da minha vocação. O dia 31 de outubro foi o dia fixado para
minha viagem a Bayeux. Parti sozinha com papai, o coração transbordando de
esperança, mas também muito comovida com a idéia de apresentar-me no bispado.
Pela primeira vez na vida ia fazer uma visita sem ser acompanhada das minhas
irmãs, e essa visita era a um bispo! Eu, que nunca precisava falar, a não ser
para responder às perguntas que me eram feitas, devia explicar pessoalmente a
finalidade da minha visita, expor os motivos que me levavam a solicitar minha
entrada no Carmelo, enfim, devia mostrar a solidez da minha vocação. Ah! como me
custou essa viagem! Foi preciso Deus conceder-me uma graça toda especial para
vencer minha grande timidez... É também verdade que "Nunca o Amor depara com o
impossível, pois crê que tudo lhe é possível e permitido". Verdadeiramente, só o
amor de Jesus podia fazer-me vencer esta e as outras dificuldades que se
seguiram, pois agradou-lhe fazer-me comprar minha vocação por meio de muitas
provações...
Agora que gozo da solidão do Carmelo, descansando à sombra da Cruz que tão
ardorosamente desejei, considero ter pagado pouco pela minha felicidade e
estaria disposta a suportar penas muito maiores para adquiri-la se a não tivesse
alcançado!
Chovia a cântaros quando chegamos a Bayeux. Papai não queria que sua rainhazinha
entrasse na residência episcopal com sua linda roupa molhada. Subimos num ônibus
e nos dirigimos à catedral. Aí começaram novas dificuldades. Sua Excelência e
todo o clero assistiam a um grande funeral. A igreja estava repleta de senhoras
de luto e eu, com meu vestido claro e meu chapéu branco, era olhada por todos.
Queria sair da igreja, mas não podia pensar nisso por causa da chuva. Para
humilhar-me ainda mais, papai, com sua simplicidade patriarcal, fez-me subir na
torre da catedral. Não querendo desagradá-lo, subi com boa vontade e propiciei
esse divertimento aos bons habitantes de Bayeux, que teria desejado nunca ter
conhecido... Enfim, pude respirar sossegada numa capela atrás do altar-mor e
fiquei muito tempo lá, rezando com fervor, aguardando que a chuva parasse e nos
fosse permitido sair. Ao descer, papai fez-me observar a beleza do edifício, que
parecia muito maior agora que estava deserto. Porém, um único pensamento ocupava
meu espírito e não podia me agradar com coisa alguma. Fomos logo procurar pelo
padre Révérony, que sabia da nossa chegada por ter sido ele quem marcara o dia
da viagem. Mas estava ausente. Fomos obrigados a vagar pelas ruas, que me
pareceram muito tristes. Enfim, voltamos para perto da sede do bispado, e papai
fez-me entrar num belo hotel onde não fiz honra ao hábil cozinheiro. O pobre
paizinho era para comigo de uma ternura quase inacreditável, dizendo-me para não
ficar triste, que logo o senhor bispo iria atender a meu pedido. Após um
descanso, voltamos a procurar o padre Révérony; um senhor chegou ao mesmo tempo,
mas o vigário-geral pediu-lhe polidamente para esperar e nos fez entrar primeiro
no seu gabinete (o pobre senhor teve tempo de enfastiar-se, pois a visita foi
demorada). O padre Révérony mostrou-se muito amável, mas creio que estranhou
muito o motivo da nossa viagem. Depois de ter-me olhado sorrindo, dirigiu-me
algumas perguntas e disse: "Vou apresentar-vos a Sua Excelência, tenhais a
bondade de me acompanhar". Vendo as lágrimas brilharem nos meus olhos,
acrescentou: "Ah! vejo diamantes... não deveis mostrá-los a Sua Excelência!"...
Fez-nos atravessar muitos cômodos vastíssimos, enfeitados de retratos de bispos.
Vendo-me nesses salões enormes, tinha impressão de ser uma formiguinha e me
perguntava o que ia ousar dizer a Sua Excelência. Ele anda, entre dois cômodos,
num corredor. Vi o padre Révérony dizer-lhe algumas palavras e voltar com ele.
Aguardávamos no gabinete dele. Ali, três enormes poltronas estavam dispostas
diante da lareira onde crepitava um fogo forte. Ao ver entrar Sua Grandeza,
papai pôs-se de joelhos a meu lado para receber sua bênção. Indicou uma poltrona
para papai sentar-se, colocou-se na frente dele e o padre Révérony indicou-me a
do meio. Recusei polidamente, mas insistiu, dizendo que devia mostrar-me capaz
de obedecer. Sentei-me logo sem fazer comentário e senti-me constrangida ao
vê-lo pegar uma cadeira enquanto eu estava afundada numa poltrona onde quatro
pessoas como eu cabiam folgadamente (mais à vontade do que eu, pois estava longe
de me sentir folgada!...) Esperava que papai fosse falar, mas disse-me para
explicar pessoalmente a Sua Excelência a finalidade da nossa visita; o que fiz o
mais eloqüentemente possível. Acostumado com a eloqüência, Sua Grandeza não
pareceu comovido com meu arrazoado. Uma palavra favorável do padre superior
teria servido melhor a minha causa, infelizmente não dispunha dela e sua
oposição não intercedia a meu favor.
Sua Excelência perguntou-me se havia muito tempo que eu desejava ingressar no
Carmelo: "Oh, sim, Excelência! Muito tempo..." . "Vejamos", interveio, rindo, o
padre Révérony, "podeis dizer que faz 15 anos que tendes esse desejo." "É
verdade", respondi sorrindo também, "mas não há muito que retirar, pois desejo
fazer-me religiosa desde o despertar da minha razão e desejei o Carmelo logo que
o conheci bem, pois nessa ordem achava que todas as aspirações da minha alma
seriam satisfeitas." Não sei, Madre, se foram exatamente essas as minhas
palavras, creio que eram ditas de forma ainda pior, mas, enfim, o sentido era
este.
Pensando agradar a papai, Sua Excelência tentou fazer-me ficar ainda alguns anos
junto dele. Ficou um pouco surpreso e edificado vendo-o tomar meu partido,
intercedendo para eu obter a permissão de levantar vôo aos 15 anos. Porém, tudo
foi inútil. Disse que antes de decidir era indispensável uma conversa com o
Superior do Carmelo. Nada podia ouvir que me causasse maior aflição, pois
conhecia a oposição formal do nosso padre. Sem levar em conta a recomendação do
padre Révérony, fiz mais do que mostrar diamantes a Sua Excelência, dei alguns a
ele!... Vi que ficou emocionado; pegando-me pelo pescoço, apoiava minha cabeça
no ombro dele e me fazia carícias como nunca, ao que parece, alguém recebera
dele. Disse-me que nem tudo estava perdido, que ficava muito contente em eu
fazer a viagem a Roma para firmar minha vocação e que em vez de chorar devia
alegrar-me. Acrescentou que, na semana seguinte, devendo ir a Lisieux, falaria
de mim com o pároco de São Tiago e que, certamente, eu receberia resposta dele
na Itália. Compreendi ser inútil insistir mais, aliás nada mais tinha a dizer,
tinha esgotado todos os recursos da minha eloqüência.
Sua Excelência acompanhou-nos até o jardim. Papai o divertiu muito quando lhe
disse que, para parecer mais velha, eu tinha levantado meu cabelo. Isso não foi
esquecido, pois Sua Excelência não fala da sua "filhinha" sem contar a história
dos cabelos... O padre Révérony quis acompanhar-nos até a extremidade do jardim
do bispado; disse a papai que nunca vira coisa igual: "Um pai tão disposto a dar
sua filha a Deus quanto esta em se oferecer!"
Papai fez-lhe diversas perguntas a respeito da peregrinação, inclusive sobre a
maneira de se vestir para o encontro com o Santo Padre. Vejo-o ainda virando-se
diante do padre Révérony, perguntando-lhe: "Estou bem assim?..." Dissera também
a Sua Excelência que se não me permitisse ingressar no Carmelo eu pediria essa
graça ao Soberano Pontífice. Meu Rei querido era muito simples nas suas palavras
e nas suas maneiras, mas era tão bonito... tinha uma distinção natural que deve
ter agradado muito a Sua Excelência, acostumado a se ver cercado de pessoas que
conhecem todas as regras da etiqueta dos salões, mas não o Rei da França e de
Navarra com sua rainhazinha...
Uma vez na rua, minhas lágrimas brotaram de novo, não tanto por causa da minha
dor, mas por ver meu paizinho querido que acabava de fazer uma viagem inútil...
Planejara enviar uma resposta festiva ao Carmelo para anunciar a resposta de Sua
Excelência, via-se de volta sem resposta... Ah! quanto sofri!... parecia-me que
meu futuro estava abalado para sempre. Mais o tempo passava, mais as coisas
ficavam confusas. Minha alma estava mergulhada na amargura, mas na paz, também,
pois só procurava a vontade de Deus.
Logo de volta a Lisieux, fui buscar consolo no Carmelo e o encontrei em vós,
querida Madre. Oh, não! Nunca esquecerei tudo o que sofrestes por minha causa.
Se não receasse profaná-las, servindo-me delas, repetiria as palavras que Jesus
dirigia a seus apóstolos, na tarde da sua Paixão: "Vós sois aqueles que
permanecestes ao meu lado nas minhas provações"... Minhas bem-amadas irmãs
ofereceram-me também doces consolos...
Três dias após a viagem a Bayeux, fazia outra muito maior, à cidade eterna...
Ah! que viagem aquela!... Ela sozinha fez-me conhecer mais coisas que longos
anos de estudo, mostrou-me a vaidade de tudo o que passa e que tudo é aflição de
espírito sob o sol... Mas vi muitas coisas bonitas, contemplei todas as
maravilhas da arte e da religião, sobretudo pisei a mesma terra que os santos
apóstolos, a terra regada com o sangue dos mártires, e minha alma cresceu em
contato com coisas santas...
Estou muito feliz por ter ido a Roma, mas compreendo as pessoas de fora que
pensaram que papai me levara a fazer essa grande viagem a fim de mudar minhas
idéias sobre a vida religiosa; de fato, havia com que abalar uma vocação pouco
firme.
Não tendo vivido na alta sociedade, Celina e eu nos encontramos no meio da
nobreza que compunha quase exclusivamente a romaria. Ah! longe de nos
deslumbrar, todos esses títulos e esses "de" pareceram-nos mera fumaça... De
longe, algumas vezes, aquilo me impressionara, mas de perto vi que "nem tudo que
reluz é ouro" e compreendi essa palavra da Imitação: "Não ides atrás dessa
sombra que chamam de grande nome, não desejai numerosas relações, nem a amizade
particular de homem algum".
Compreendi que a verdadeira grandeza se encontra na alma e não no nome pois,
como o disse Isaías: "O Senhor dará outro nome a seus eleitos", e são João diz
também: "Ao vencedor darei maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, sobre
a qual estará escrito um nome novo, que ninguém conhece, exceto aquele que o
recebe". Portanto, é no Céu que conheceremos nossos títulos de nobreza. Então,
cada um receberá de Deus o louvor que merece e quem na terra desejou ser o mais
pobre, o mais esquecido por amor a Jesus, será o primeiro, o mais nobre e o mais
rico!...
A segunda experiência que fiz diz respeito aos sacerdotes. Não tendo vivido
nunca na intimidade deles, não podia compreender a principal finalidade da
reforma do Carmelo. Rezar pelos pecadores me empolgava, mas rezar pelas almas
dos padres, que eu acreditava mais puras que o cristal, parecia-me estranho!...
Ah! compreendi minha vocação na Itália, não era ir buscar longe demais um
conhecimento tão útil...
Durante um mês, vivi com muitos padres santos e vi que, se sua sublime dignidade
os eleva acima dos anjos, nem por isso deixam de ser homens frágeis e fracos...
Se padres santos, que Jesus denomina no seu Evangelho "sal da terra", mostram em
sua conduta que precisam extremamente de orações, o que dizer daqueles que são
tíbios? Jesus não disse também: "Se o sal se tornar insípido, com que há de se
lhe restituir o sabor"?
Oh Madre! como é bonita a vocação que tem por finalidade conservar o sal
destinado às almas! Essa vocação é a do Carmelo, pois a única finalidade das
nossas orações e dos nossos sacrifícios é ser apóstolo dos apóstolos, rezando
para eles enquanto evangelizam as almas por suas palavras e, sobretudo, por seus
exemplos... Preciso parar, se continuasse a falar sobre este assunto, não
acabaria nunca!...
Vou, querida Madre, relatar minha viagem com alguns pormenores. Perdoai-me se me
excedo em minúcias. Não penso antes de escrever e, por causa do pouco tempo que
tenho livre, recomeço tantas vezes que meu relato poderá lhe parecer um pouco
enfadonho... O que me consola é pensar que, no Céu, vos falarei das graças que
recebi e poderei fazê-lo em termos agradáveis e encantadores... Nada mais haverá
para interromper nossas efusões íntimas e, num único olhar, tereis entendido
tudo... Sendo que ainda preciso usar a linguagem da triste terra, vou tentar
fazê-lo com a simplicidade de uma criança que conhece o amor da sua mãe!...
A romaria saiu de Paris em 7 de novembro, mas papai nos levou a essa cidade
alguns dias antes para que pudéssemos visitá-la.
Às três horas de certa manhã, atravessei a cidade de Lisieux ainda adormecida;
muitas impressões atravessaram minha alma naquele momento. Sentia estar me
dirigindo para o desconhecido e que grandes coisas me esperavam lá... Papai
estava alegre; quando o trem se pôs a andar, cantou este velho refrão: "Corre,
corre, diligência minha; eis-nos na estrada real". Chegamos a Paris antes do
meio-dia e começamos a visitar logo. Nosso pobre paizinho cansou-se muito a fim
de nos agradar; mas logo tínhamos visto todas as maravilhas da capital. A mim,
só uma encantou, foi "Nossa Senhora das Vitórias". Ah! o que senti a seus pés é
indescritível... As graças que me concedeu emocionaram-me tão profundamente que
minhas lágrimas expressaram sozinhas a minha felicidade, como no dia da minha
primeira comunhão... Fez-me sentir que foi verdadeiramente ela quem me sorrira e
curara. Compreendi que velava por mim, que eu era sua filha, portanto só podia
atribuir-lhe o nome de "Mamãe", pois parecia-me ainda mais terno que o de mãe...
Com que fervor lhe pedi para me proteger sempre e realizar em breve o sonho de
esconder-me à sombra do seu manto virginal!... Ah! era um dos meus primeiros
desejos de criança... Ao crescer, compreendi que era no Carmelo que me seria
possível encontrar, de verdade, o manto de Nossa Senhora, e era para essa
montanha fértil que meus desejos todos tendiam...
Invoquei Nossa Senhora das Vitórias para que afastasse de mim tudo o que poderia
ter embaçado a minha purezal Não ignorava que, numa viagem como essa à Itália,
se encontrariam muitas coisas capazes de me perturbar, sobretudo porque,
desconhecendo o mal, temia descobri-lo; não tendo experimentado que tudo é puro
para os puros e que a alma simples e reta não enxerga o mal em lugar nenhum,
pois, de fato, o mal só existe nos corações impuros e não nos objetos
sensíveis... Pedi também a são José para velar por mim; desde a minha infância,
tinha por ele uma devoção que se confundia com meu amor pela Santíssima Virgem.
Todo dia rezava a oração: "Ó são José, pai e protetor das virgens"; por isso,
empreendi sem receio minha longa viagem, estava tão bem protegida que me parecia
impossível ter medo.
Depois de nos consagrarmos ao Sagrado Coração, na basílica de Montmartre saímos
de Paris na segunda-feira, dia 7, pela manhã; logo travamos conhecimento com as
pessoas da romaria. Eu, costumeiramente tão tímida que nem ousava falar, vi-me
completamente livre desse defeito incômodo; surpreendi-me a conversar livremente
com todas as grandes damas, os padres e até o bispo de Coutances. Parecia-me ter
sempre vivido no meio dessa gente. Creio que éramos queridos de todos, e papai
parecia orgulhoso das suas duas filhas. Mas, se ele estava satisfeito conosco,
também estávamos com ele, pois no grupo todo não havia senhor mais bonito e mais
distinto que meu Rei querido; gostava de ficar cercado por Celina e por mim.
Muitas vezes, quando não estávamos num carro e eu me afastava dele, chamava-me
para lhe dar o braço como em Lisieux... O padre de Révérony prestava atenção a
todas as nossas ações e, muitas vezes, via-o nos observando de longe. Na mesa,
quando eu não estava na frente dele, ele encontrava um meio de se inclinar para
me ver e ouvir o que eu dizia. Sem dúvida queria conhecer-me a fim de saber se,
de fato, eu era capaz de ser carmelita. Creio que ficou satisfeito com o exame
pois, no final da viagem, pareceu bem disposto a meu favor. Em Roma, porém,
estava longe de me ser favorável, segundo vos contarei adiante. Antes de chegar
a essa cidade eterna, meta da nossa viagem, foi-nos dado contemplar muitas
maravilhas. Primeiro, foi a Suíça, com montanhas cujos cumes se perdem nas
nuvens, as cascatas caindo de mil diferentes e graciosas maneiras, os vales
profundos cheios de samambaias gigantes e de urzes cor-de-rosa. Ah! Madre
querida, como as belezas da natureza distribuídas em profusão fizeram bem à
minha alma, como a elevaram para Aquele que se agradou em lançar tamanhas
obras-primas numa terra de exílio que deve durar apenas um dia... Não tinha
olhos suficientes para contemplar. Em pé na portinhola, quase não respirava.
Queria estar, ao mesmo tempo, dos dois lados do vagão, pois ao virar-me via
paisagens encantadoras e diferentes das que estavam na minha frente.
Às vezes, estávamos no cume de uma montanha, a nossos pés, precipícios de
profundidade inalcançável pelo olhar pareciam querer nos engolir... ou ainda um
charmoso e pequeno lugarejo com seus graciosos chalés e seu campanário, por cima
do qual balançavam indolentes algumas nuvens resplandecentes de brancura... mais
longe, um vasto lago, dourado pelos últimos raios do sol, com ondas calmas e
puras a mesclar o tom azulado do Céu aos fogos do crepúsculo, apresentava a
nossos olhares maravilhados o mais poético espetáculo que se pode ver... Ao
fundo do vasto horizonte, montanhas de formas indecisas, que teriam escapado ao
nosso olhar não fossem seus cumes nevados que o sol tornava ofuscantes,
acrescentavam um encanto suplementar ao belo lago que nos encantava...
Vendo todas essas belezas, surgiam pensamentos muito profundos em minha alma.
Tinha a impressão de já estar compreendendo a grandeza de Deus e as maravilhas
do Céu... A vida religiosa apresentava-se a mim tal como é, com suas submissões,
seus pequenos sacrifícios feitos às ocultas. Compreendia como é fácil
ensimesmar-se, esquecer a sublime finalidade da vocação e me dizia: mais tarde,
no momento da provação, quando, prisioneira no Carmelo, só puder contemplar um
pequeno canto do Céu estrelado, recordarei o que vejo hoje, esse pensamento me
dará coragem, esquecerei facilmente meus pobres e pequenos interesses ao ver a
grandeza e o poder de Deus a quem quero amar unicamente. Não terei a
infelicidade de apegar-me a palhas, agora que "meu coração pressentiu o que
Jesus reserva a quem o ama!..."
Após ter admirado o poder de Deus, pude ainda admirar o poder que deu às suas
criaturas. A primeira cidade da Itália que visitamos foi Milão. Sua catedral,
inteiramente de mármore branco, com estátuas numerosas para formar um povo
incontável, foi examinada por nós em seus mínimos detalhes. Celina e eu éramos
intrépidas, sempre as primeiras e seguindo imediatamente Sua Excelência, a fim
de ver tudo o que se referia às relíquias dos santos e ouvir as explicações.
Assim é que, enquanto celebrava o santo sacrifício sobre o túmulo de são Carlos,
estávamos com papai atrás do altar, com a cabeça encostada na urna que contém o
corpo do santo revestido dos seus trajes pontificais. Era assim em todo lugar...
Exceto quando se tratava de subir onde a dignidade de um bispo não permitia,
pois naquelas ocasiões sabíamos nos afastar de Sua Grandeza... Deixando as
senhoras tímidas esconder o rosto nas mãos logo após ter alcançado as primeiras
campainhas que coroam a catedral, seguíamos os mais destemidos romeiros e
chegávamos até o alto da última campainha de mármore, e tínhamos o prazer de ver
a nossos pés a cidade de Milão, cujos numerosos habitantes pareciam formar um
pequeno formigueiro... Uma vez tendo descido do nosso pedestal, começamos nossos
passeios de carro, que deviam durar um mês e saciar-me para sempre do meu desejo
de rodar sem cansaço! O campo santo encantou-nos ainda mais que a catedral.
Todas essas estátuas de mármore branco, que um cinzel genial parece ter animado,
estão colocadas sobre o vasto campo dos mortos numa espécie de displicência que,
para mim, aumenta o encanto... Dá vontade, quase, de consolar os personagens
ideais que nos cercam. Sua expressão é tão realista, sua dor, tão calma e
resignada que não há como deixar de reconhecer os pensamentos de imortalidade
que devem encher o coração dos artistas quando executam essas obras-primas.
Aqui, uma criança joga flores sobre o túmulo de seus pais, parece que o mármore
perdeu seu peso, que as pétalas delicadas deslizam entre os dedos da criança,
que o vento já começa a dispersá-las, a fazer flutuar o véu leve das viúvas e as
fitas que adornam os cabelos das moças. Papai estava tão encantado quanto nós;
na Suíça, sentiu cansaço, mas agora sua alegria havia voltado, gozava do belo
espetáculo que contemplávamos, sua alma de artista manifestava-se nas expressões
de fé e admiração que se estampavam no seu belo rosto. Um velho senhor
(francês), que, sem dúvida, não tinha alma tão poética, olhava-nos de soslaio e
dizia mal-humorado, embora parecendo lastimar não ser capaz de partilhar da
nossa admiração: "Ah! como os franceses são entusiastas!" Creio que esse pobre
senhor teria feito melhor ficando em casa, pois não pareceu gostar da viagem.
Encontrava-se freqüentemente perto de nós e sempre ficava resmungando. Reclamava
dos carros, dos hotéis, das pessoas, das cidades, enfim, de tudo... Com sua
habitual grandeza de alma, papai procurava animá-lo, oferecia seu lugar etc...
enfim, achava-se bem em qualquer lugar, sendo de um caráter totalmente oposto ao
do seu desagradável vizinho... Ah! quantas pessoas diferentes vimos, como o
estudo do mundo se faz interessante quando estamos prestes a deixá-lo!...
Em Veneza, o cenário muda completamente. Em vez do ruído das grandes cidades, só
se ouvem, no meio do silêncio, os gritos dos gondoleiros e o murmúrio da onda
agitada pelos remos. Veneza não é desprovida de encantos, mas acho essa cidade
triste. O palácio dos doges é esplêndido, porém também triste com seus vastos
aposentos onde reinam o ouro, a madeira, os mais preciosos mármores e as
pinturas dos maiores mestres. Há muito tempo que suas abóbadas sonoras deixaram
de ouvir as vozes dos governadores que pronunciavam sentenças de vida e de morte
nas salas que atravessamos... Os infelizes prisioneiros que mantinham nas
masmorras e calabouços subterrâneos deixaram de sofrer... Ao visitar esses
horrendos cárceres, reportava-me ao tempo dos mártires e desejei poder ficar, a
fim de imitá-los!... Mas foi preciso sair logo e passar na ponte dos suspiros,
assim chamada por causa dos suspiros de alívio dados pelos condenados por se
verem livres do horror dos subterrâneos, aos quais preferiam a morte...
Depois de Veneza, fomos a Pádua, onde veneramos a língua de santo Antônio, e a
Bolonha, onde vimos santa Catarina, que conserva a impressão do beijo do Menino
Jesus. Há muitos pormenores interessantes que eu poderia dar sobre cada cidade e
sobre as mil pequenas circunstâncias particulares da nossa viagem, mas não teria
fim, por isso só vou relatar os principais.
Deixei Bolonha com satisfação. Essa cidade tornara-se insuportável para mim,
devido aos estudantes dos quais está repleta e que formavam uma barreira quando
tínhamos a infelicidade de sair a pé, e, sobretudo, por causa de pequena
aventura que me aconteceu com um deles. Foi com alegria que rumei para Loreto.
Não me surpreendeu que Nossa Senhora tenha escolhido esse lugar para transportar
sua casa abençoada. A paz, a alegria, a pobreza reinam soberanamente; tudo é
simples e primitivo, as mulheres conservaram o gracioso traje italiano e não
adotaram, como em outras cidades, a moda parisiense. Enfim, Loreto encantou-me!
Que direi da casa abençoada?... Ah! minha emoção foi profunda ao me ver sob o
mesmo teto que a Sagrada Família, a contemplar os muros nos quais Jesus fixara
seus divinos olhos, pisando a terra que são José molhou com seus suores, onde
Maria carregara Jesus em seus braços depois de tê-lo carregado no seu seio
virginal... Vi o quartinho onde o anjo desceu para perto da Santíssima Virgem...
Coloquei meu terço na tigelinha do Menino Jesus... Como essas recordações são
maravilhosas!...
Nosso maior consolo foi receber Jesus em sua própria casa e ser seu templo vivo
no lugar que Ele honrou com sua presença. Segundo um costume da Itália, o santo
cibório só se conserva, em cada igreja, sobre um altar, e somente aí se pode
receber a santa comunhão. Esse altar encontra-se na própria basílica onde está a
casa abençoada, guardada como um diamante precioso num estojo de mármore branco.
Isso não nos agradou, pois queríamos comungar no próprio diamante, não no
estojo... Com sua cordialidade habitual, papai fez como todos os outros, mas
Celina e eu fomos encontrar um sacerdote que nos acompanhava em todo lugar e
que, naquele momento e por um privilégio especial, se preparava para celebrar
missa na casa abençoada. Pediu duas pequenas hóstias que colocou na patena junto
à grande e compreendeis, Madre querida, com que êxtase comungamos, as duas,
nessa casa abençoada!... Era uma felicidade toda celeste que as palavras não
podem expressar. Como será então quando recebermos a santa comunhão na eterna
morada do Rei dos Céus?... Não mais veremos terminar a nossa felicidade, não
haverá mais a tristeza da partida e, para levar uma lembrança, não será mais
necessário raspar furtivamente as paredes santificadas pela presença divina,
sendo que a casa dele será nossa para a eternidade... Não quer nos dar a da
terra, contenta-se em mostrá-la a nós para nos fazer amar a pobreza e a vida
oculta. A morada que Ele nos reserva é seu palácio de glória onde não mais o
veremos oculto, sob a aparência de uma criança ou de uma hóstia branca, mas tal
como é, no seu esplendor infinito!!!...
É de Roma, agora, que me resta falar, Roma, meta da nossa viagem, lá onde
acreditava encontrar o consolo, mas onde encontrei a cruz!... À nossa chegada,
era noite e dormíamos. Fomos acordados pelos funcionários da estação que
gritavam: "Roma, Roma". Não era um sonho, estava em Roma!...
O primeiro dia passou-se fora dos muros e foi, talvez, o mais agradável, pois
todos os monumentos conservaram sua marca de antiguidade, enquanto no centro
poder-se-ia acreditar estar em Paris ao ver a magnificência dos hotéis e das
lojas. Esse passeio na campanha romana deixou em mim urna doce recordação. Não
falarei dos lugares que visitamos, são muitos os livros que os descrevem nos
pormenores, falarei apenas das principais impressões que tive. Uma das mais
agradáveis foi a que me fez estremecer à vista do Coliseu. Estava vendo, enfim,
essa arena onde tantos mártires tinham derramado o sangue por Jesus. Já ia
apressar-me a beijar a terra que santificaram, mas que decepção! O centro não
passa de um montão de entulho que os romeiros têm de se contentar em olhar, pois
uma barreira impede a entrada. Aliás, ninguém fica interessado em penetrar
naquelas ruínas... Seria possível ir a Roma sem visitar o Coliseu?... Não queria
admitir, não escutava mais as explicações do guia, só um pensamento me
atormentava: descer à arena... Vendo um operário que passava com uma escada,
estive prestes a pedir-lhe, felizmente não pus meu plano em execução, porque me
teriam considerado louca... Diz-se no Evangelho que Madalena tinha ficado junto
ao sepulcro e que, inclinando-se por diversas vezes para ver dentro, acabou
vendo dois anjos. Como ela, depois de constatar a impossibilidade de realizar
meus desejos, continuei me inclinando sobre as ruínas onde queria descer; no
fim, não vi anjo nenhum, mas sim o que eu procurava. Soltei um grito de alegria
e disse a Celina: "Venha depressa, vamos poder passar!..." Logo atravessamos a
barreira de entulhos e eis-nos escalando as ruínas que caíam sob nossos passos.
Papai olhava-nos espantado com nossa audácia. Logo nos disse para voltar, mas as
duas fugitivas não ouviam mais nada. Assim como os guerreiros sentem a coragem
aumentar no meio do perigo, nossa alegria crescia na proporção da dificuldade
que tínhamos para alcançar o objeto dos nossos desejos. Mais precavida que eu,
Celina tinha escutado o guia e lembrou-se de que falara de uma certa lajinha
cruzada como sendo o lugar onde combatiam os mártires e pôs-se a procurá-la.
Achou-a e, ao ajoelharmos sobre essa terra sagrada, nossas almas confundiram-se
numa mesma oração... Meu coração batia fortemente quando meus lábios se
aproximaram do pó tingido do sangue dos primeiros cristãos. Pedi a eles a graça
de ser também mártir para Jesus e senti no fundo do meu coração que minha oração
seria atendida!... Tudo isso foi feito em muito pouco tempo. Depois de pegar
algumas pedras, voltamos em direção aos muros em ruína a fim de refazer em
sentido inverso a nossa perigosa trajetória. Vendo-nos tão felizes, papai não
pôde chamar a nossa atenção e vi que estava feliz pela nossa coragem... Deus
protegeu-nos visivelmente, pois os romeiros não tomaram conhecimento da nossa
escapada, estando afastados de nós, ocupados a olhar as magníficas arcadas onde
o guia fazia observar "as pequenas cornijas e os cupidos fixados em cima".
Portanto, nem ele nem "os senhores padres" conheceram a alegria que enchia
nossos corações...
As catacumbas deixaram também em mim uma suave impressão: são exatamente como eu
as imaginava ao ler sua descrição na vida dos mártires. Depois de ter passado
parte da tarde ali, parecia-me ter entrado poucos minutos antes, tão perfumada
me parecia a atmosfera que se respira... Era preciso levar algumas recordações
das catacumbas. Deixando a procissão se afastar um pouco, Celina e Teresa
penetraram juntas até o fundo do antigo túmulo de santa Cecília e pegaram terra
santificada pela sua presença. Antes da minha viagem a Roma, eu não tinha por
essa santa devoção especial, mas ao visitar sua casa transformada em igreja, o
lugar do seu martírio, informada que fora proclamada rainha da Harmonia, não por
causa da sua bela voz nem do seu talento musical, mas em memória do canto
virginal que fez ouvir a seu Esposo Celeste escondido no fundo do seu coração,
senti por ela mais do que devoção: uma verdadeira ternura de amiga... Passou a
ser minha santa predileta, minha confidente íntima... Tudo nela me extasia,
sobretudo seu desprendimento, sua confiança ilimitada que a tornou capaz de
virginizar almas que nunca desejaram outras alegrias que as da vida presente...
Santa Cecília é parecida com a esposa dos cânticos. Nela vejo "um coro num campo
de exército...". Sua vida não foi senão um canto melodioso em meio às maiores
provações, e isso não me é estranho, sendo que "o Evangelho sagrado repousava
sobre seu coração!" e que em seu coração repousava o Esposo das Virgens!...
A visita à igreja Santa Inês foi também muito doce para mim. Era uma amiga de
infância que ia visitar na própria casa. Falei-lhe muito tempo de quem leva tão
bem o nome e fiz tudo o que pude para obter uma relíquia da angélica padroeira
da minha Madre querida a fim de lhe trazer, mas foi-nos impossível conseguir
senão uma pedrinha vermelha que se desprendeu de um rico mosaico cuja origem
remonta ao tempo de santa Inês e que ela deve ter olhado muitas vezes. Não era
delicado por parte da santa dar-nos, ela própria, o que procurávamos e que nos
era proibido pegar?... Sempre considerei o fato como uma delicadeza e uma prova
do amor com que a doce santa Inês olha e protege minha querida Madre!...
Seis dias se foram em visitas às principais maravilhas de Roma e, no sétimo, vi
a maior de todas: "Leão XIII..." Desejava e temia esse dia, dele dependia minha
vocação, pois a resposta que eu devia receber de Sua Excelência não tinha
chegado e soubera por uma carta vossas, Madre, que ele não estava mais muito bem
disposto a meu favor. Portanto, minha única tábua de salvação era o Santo
Padre... Mas para obter a permissão era preciso pedi-la, era preciso, na frente
de todos, ousar falar "ao Papa". Essa idéia fazia-me tremer. Como sofri antes da
audiência, só Deus e minha querida Celina o sabem. Nunca me esquecerei da parte
que ela tomou em minhas provações. Minha vocação parecia ser dela. (Nosso amor
mútuo era notado pelos padres da romaria: uma noite, numa reunião tão numerosa
que faltavam lugares, Celina fez-me sentar no seu colo e olhávamo-nos tão
gentilmente que um padre exclamou: "Como se amam, ah! nunca essas duas irmãs
poderão separar-se!" Sim, amávamo-nos, mas nosso afeto era tão puro e tão forte
que a idéia da separação não nos perturbava, pois sentíamos que nada, nem o
oceano, poderia afastar uma da outra... Celina via com calma o meu barquinho
acostar à margem do Carmelo; resignava-se a ficar o tempo que Deus quisesse no
mar turbulento do mundo, certa de chegar um dia à margem desejada...)
Domingo, 20 de novembro, depois de nos vestir segundo o cerimonial do Vaticano
(isto é, de preto, com uma mantilha de renda na cabeça), e ter-nos enfeitado com
uma grande medalha de Leão XIII amarrada com fita azul e branca, fizemos nossa
entrada no Vaticano, na capela do Soberano Pontífice. Às 8 horas, nossa emoção
foi profunda ao vê-lo entrar, para celebrar a santa Missa... Depois de dar a
bênção aos numerosos romeiros reunidos ao seu redor, subiu os degraus do santo
altar e mostrou-nos, pela sua piedade digna do Vigário de Jesus, que era
verdadeiramente "O Santo Padre". Meu coração batia muito forte e minhas orações
eram muito fervorosas, quando Jesus descia nas mãos do seu Pontífice, e eu
estava muito confiante. O Evangelho desse dia continha essas palavras
animadoras: "Não tenhais receio, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso
Pai dar-vos o seu reino". Eu não receava, esperava que o reino do Carmelo fosse
meu em breve. Não pensava então nessas outras palavras de Jesus: "Preparo para
vós, como o Pai preparou para ruim, um reino". Isto é, reservo para vós cruzes e
provações; assim é que sereis dignos de possuir esse reino pelo qual ansiais.
Por ter sido necessário o Cristo sofrer para entrar na sua glória, se desejais
ter lugar ao lado Dele, bebei do cálice que Ele bebeu!... Esse cálice foi-me
apresentado pelo Santo Padre e minhas lágrimas misturaram-se à bebida que me era
oferecida. Depois da missa de ação de graças que se seguiu à de Sua Santidade, a
audiência começou. Leão XIII estava sentado numa grande poltrona, vestido
simplesmente da batina branca, camalha da mesma cor e solidéu. Ao redor dele
estavam cardeais, arcebispos, bispos, mas só os vi vagamente, estando ocupada
com o Santo Padre. Desfilávamos diante dele, cada romeiro se ajoelhava, beijava
o pé e a mão de Leão XIII, recebia sua bênção e dois guardas o tocavam para
indicar-lhe que se levantasse (o romeiro, pois explico-me tão mal que se poderia
pensar que fosse o Papa). Antes de subir ao apartamento pontifício, eu estava
muito resolvida a falar, mas senti minha coragem falhar vendo à direita do Santo
Padre "o padre Révérony!..." Quase no mesmo instante, disseram-nos, da parte
dele, que proibia falar com Leão XIII, pois a audiência estava se prolongando
demais... Virei para minha querida Celina a fim de consultá-la: "Fala", disse-me
ela. Um instante depois, eu estava aos pés do Santo Padre. Tendo eu beijado sua
sandália, ele me apresentou a mão. Em vez de beijá-la, pus as minhas e,
levantando para o rosto dele meus olhos banhados em lágrimas, exclamei:
"Santíssimo Padre, tenho um grande favor para pedir-vos!..." Então, o Soberano
Pontífice" inclinou a cabeça de maneira que meu rosto quase encostou no dele e
vi seus olhos pretos e profundos fixarem-se sobre mim e parecer penetrar-me até
o fundo da alma. "Santíssimo Padre", disse, "em honra do vosso jubileu, permitai
que eu entre no Carmelo aos 15 anos!..."
Sem dúvida, a emoção fez tremer a minha voz e, virando-se para o padre Révérony,
que me olhava surpreso e descontente, o Santo Padre disse: "Não compreendo muito
bem". Se Deus tivesse permitido, teria sido fácil para o padre Révérony obter
para mim o que eu desejava, mas era a cruz e não a consolação que Ele queria me
dar. "Santíssimo Padre", respondeu o vigário-geral, "é uma criança que deseja
ingressar no Carmelo aos 15 anos, mas os superiores examinam a questão neste
momento." "Então, minha filha", respondeu o Santo Padre, olhando-me com bondade,
"fazei o que os superiores vos disserem." Apoiando minhas mãos sobre seus
joelhos tentei um último esforço e disse com voz suplicante: "Oh! Santíssimo
Padre, se dissésseis sim, todos estariam a favor!..." Ele olhou-me fixamente e
pronunciou as seguintes palavras, destacando cada sílaba: "Vamos... Vamos...
Entrareis se Deus quiser..." Sua acentuação tinha alguma coisa de tão penetrante
e de tão convincente que tenho impressão de ouvi-lo ainda. A bondade do Santo
Padre me animava e eu queria falar mais, mas os dois guardas tocaram-me
polidamente para fazer-me levantar. Vendo que isso não era suficiente,
seguraram-me pelos braços e o padre Révérony os ajudou a levantar-me, pois ainda
estava com as mãos juntas, apoiadas nos joelhos de Leão XIII, e foi pela força
que me arrancaram dos seus pés... No momento em que estava sendo retirada, o
Santo Padre colocou sua mão nos meus lábios e levantou-a para me benzer. Então,
meus olhos encheram-se de lágrimas e o padre Révérony pôde contemplar, pelo
menos, tantos diamantes como tinha visto em Bayeux... Os dois guardas
carregaram-me, pode-se dizer, até a porta e um terceiro me deu uma medalha de
Leão XIII. Celina, que me seguia e havia sido testemunha da cena que acabava de
acontecer, quase tão emocionada quanto eu, ainda teve a coragem de pedir ao
Santo Padre uma bênção para o Carmelo. O padre Révérony, com voz descontente,
respondeu: "O Carmelo já foi abençoado". O bondoso Santo Padre confirmou com
doçura: "Oh, sim! já foi abençoado". Antes de nós, papai viera aos pés de Leão
XIII, com os homens. O padre Révérony foi gentil com ele, apresentando-o como
pai de duas carmelitas. Como sinal de benevolência, o Soberano Pontífice pôs a
mão sobre a cabeça venerável do meu Rei querido, parecendo marcá-la com um selo
misterioso, em nome Daquele de quem é o verdadeiro representante... Ah! agora
que esse Pai de quatro carmelitas está no Céu, não é mais a mão do pontífice que
repousa sobre sua fronte, profetizando-lhe o martírio... É a mão do Esposo das
Virgens, do Rei de Glória, que faz resplandecer a cabeça de seu Fiel Servo. E,
mais do que nunca, essa mão adorada não deixará de repousar na fronte que tem
glorificado...
Meu papai querido ficou muito triste ao me encontrar chorando à saída da
audiência, fez tudo o que pôde para me consolar. Mas foi inútil... No fundo do
coração, sentia grande paz, pois tinha feito tudo o que me era possível fazer
para responder ao que Deus queria de mim; mas essa paz estava no fundo e a
amargura enchia minha alma, pois Jesus ficava calado. Parecia-me ausente, nada
revelava a presença Dele... Ainda naquele dia, o sol não brilhou e o belo céu
azul da Itália, carregado de nuvens escuras, não parou de chorar comigo... Ah!
para mim, a viagem tinha acabado. Não comportava mais encantos, pois a
finalidade não fora alcançada. Todavia, as últimas palavras do Santo Padre
deveriam ter-me consolado: não eram, de fato, verdadeira profecia? Apesar de
todos os obstáculos, o que Deus quis cumpriu-se. Não permitiu que as criaturas
fizessem o que queriam, mas a vontade Dele... Havia algum tempo oferecera-me ao
Menino Jesus para ser seu brinquedinho. Tinha-lhe dito para não me usar como
brinquedo caro que as crianças só podem olhar sem ousar tocar, mas como uma bola
sem valor que podia jogar no chão, dar pontapés, furar, largar num cantinho ou
apertar contra seu coração conforme achasse melhor; numa palavra, queria
divertir o Menino Jesus, agradar-lhe, queria entregar-me a suas manhas de
criança... Ele aceitou minha oferta...
Em Roma, Jesus furou seu brinquedinho. Queria ver o que havia dentro e, depois
de ver, contente com sua descoberta, deixou cair sua pequena bola e adormeceu...
Que fez durante o sono e que foi feito da bola deixada de lado?... Jesus sonhou
que continuava brincando com sua bola, deixando-a e retomando-a, e que, depois
de deixá-la rolar muito longe, a apertou no seu coração, não permitindo mais que
se afastasse de sua mãozinha...
Compreendeis, querida Madre, quanto a pequena bola ficou triste ao ver-se
largada... Mas eu não deixava de esperar contra toda a esperança. Alguns dias
após a audiência com o Santo Padre, papai foi visitar o bom irmão Simião e lá
encontrou o padre Révérony, que se mostrou muito amável. Papai censurou-o,
brincando, por não me ter ajudado no meu difícil empreendimento e contou a
história da sua Rainha ao irmão Simião. O venerável ancião escutou o relato com
muito interesse, tomou notas até, e disse com emoção: "Isso não se vê na
Itália!" Creio que essa entrevista causou muito boa impressão no padre Révérony.
A partir dela, não deixou mais de me provar estar finalmente convicto da minha
vocação.
No dia seguinte ao dia memorável, tivemos de partir cedo para Nápoles e Pompéia.
Em nossa honra, o Vesúvio fez-se barulhento o dia todo, trovejando e deixando
escapar uma coluna de grossa fumaça. Os vestígios que deixou sobre as ruínas de
Pompéia são apavorantes, mostram o poder de Deus: "Ele que com um olhar faz
tremer a terra, e a seu toque os montes fumegam..." Teria gostado de andar
sozinha no meio das ruínas, sonhar com a fragilidade das coisas humanas, mas o
número de visitantes tirava grande parte do encanto melancólico da cidade
destruída... Em Nápoles, foi o contrário. O grande número de carros de dois
cavalos tornou magnífico nosso passeio ao mosteiro San Martino, situado numa
alta colina que domina a cidade. Infelizmente, os cavalos que nos levavam
tomavam o freio nos dentes e, mais de uma vez, pensei ver chegar minha última
hora. Embora o cocheiro repetisse constantemente a palavra mágica dos condutores
italianos: "Appipau, appipau...", os cavalos queriam derrubar o carro. Enfim,
graças à ajuda dos nossos anjos da guarda, chegamos ao nosso hotel. Durante toda
a viagem fomos alojadas em hotéis principescos, nunca tinha estado cercada de
tanto luxo; vem ao caso dizer que a riqueza não traz a felicidade. Pois teria
sido mais feliz numa choupana, com a esperança do Carmelo, do que no meio de
lambris dourados, escadas de mármore branco, tapetes de seda, e com amargura no
coração... Ah! senti-o muito bem: a felicidade não está nos objetos que nos
cercam, está no mais íntimo da alma. Pode ser gozada tanto numa prisão como num
palácio; a prova é que sou mais feliz no Carmelo, mesmo no meio de provações
interiores e exteriores, do que no mundo, cercada pelas comodidades da vida e,
sobretudo, pelas doçuras do lar paterno!...
Minha alma estava mergulhada na tristeza mas, por fora, permanecia a mesma, pois
pensava que não se sabia do pedido que eu tinha feito ao Santo Padre. Logo,
porém, constatei o contrário. Tendo ficado no vagão, a sós com Celina (os outros
romeiros tinham descido para um lanche durante os poucos minutos de parada), vi
o padre Legoux, vigário-geral de Coutances, abrir a portinhola e, olhando-me
sorridente, dizer: "Como vai nossa pequena carmelita?..." Soube então que todas
as pessoas da romaria sabiam do meu segredo. Felizmente, ninguém comentou
comigo, mas vi, pela maneira simpática de me olhar, que meu pedido não tinha
produzido má impressão, pelo contrário... Na pequena cidade de Assis, tive
oportunidade de subir no mesmo carro que o padre Révérony, favor que não foi
concedido a nenhuma senhora durante a viagem toda. Eis como obtive esse
privilégio.
Após ter visitado os lugares perfumados pelas virtudes de são Francisco e de
santa Clara, terminamos pelo mosteiro de santa lnês, irmã de santa Clara. Tinha
contemplado à vontade a cabeça da santa quando, uma das últimas a me retirar,
percebi ter perdido meu cinto. Procurei-o no meio do povo, um padre teve pena de
mim e me ajudou. Mas, depois de lê-lo achado, vi-o afastar-se e fiquei sozinha
procurando, pois embora tivesse encontrado o cinto não podia colocá-lo, porque
faltava a fivela... Enfim, vi-a brilhar num canto; não demorei em ajustá-la à
fita. Mas o trabalho anterior havia demorado mais e percebi estar sozinha ao
lado da igreja, todos os carros tinham ido embora, exceto o do padre Révérony.
Que fazer? Devia correr atrás dos carros que não via mais, arriscar-me a perder
o trem e colocar meu papai querido na inquietação, ou pedir carona na caleça do
padre Révérony? Optei pela última solução. Com a cara mais graciosa e menos
constrangida possível, apesar do meu extremo embaraço, expus-lhe. minha situação
crítica e o coloquei, por sua vez, em situação difícil, pois seu carro estava
lotado com os mais distintos senhores da romaria, impossível encontrar um lugar;
porém, um cavalheiro apressou-se em descer, fez-me subir no seu lugar e
colocou-se modestamente perto do cocheiro. Parecia um esquilinho pego numa
armadilha e estava longe de me sentir à vontade, cercada por todos esses
personagens e, sobretudo, do mais temível, diante do qual assentei-me...
Todavia, ele foi muito amável comigo, interrompendo, de vez em quando, sua
conversação com os senhores para falar-me do Carmelo. Antes de chegar à estação,
todos os grandes personagens sacaram suas grandes carteiras a fim de dar
dinheiro ao cocheiro (já pago). Fiz como eles e tirei minha diminuta carteira,
mas o padre Révérony não me deixou pegar bonitas moedinhas, preferiu dar uma
grande por nós dois.
Numa outra ocasião, encontrei-me ao lado dele num ônibus. Foi ainda mais amável
e prometeu fazer tudo o que pudesse para meu ingresso no Carmelo... Mesmo com
esse bálsamo todo sobre minhas feridas, esses pequenos encontros não impediram
que a volta fosse menos agradável que a ida, pois não tinha mais a esperança "do
Santo Padre". Não encontrava ajuda nenhuma na terra, que me parecia ser um
deserto árido e sem água. Toda a minha esperança estava unicamente em Deus...
Acabava de experimentar que é melhor recorrer a Ele que a seus santos...
A tristeza da minha alma não me impedia de sentir grande interesse pelos santos
lugares que visitávamos. Em Florença, fiquei feliz em contemplar santa Madalena
de Pazzi no meio do coro das carmelitas, que abriram a grande grade para nós.
Como não sabíamos que teríamos esse privilégio, muitas pessoas desejavam
encostar seus terços no túmulo da santa. Só eu conseguia passar a mão pela grade
que nos separava dele, portanto, todos me traziam seus terços e eu estava muito
contente com meu ofício... Eu precisava sempre encontrar o meio de mexer em
tudo. Assim também na igreja de Santa Cruz de Jerusalém (em Roma), onde pudemos
venerar diversos pedaços da verdadeira Cruz, dois espinhos e um dos cravos
sagrados mantidos num magnífico relicário em ouro lavrado, mas sem vidro; foi-me
possível, ao venerar a preciosa relíquia, enfiar meu dedinho num dos orifícios
do relicário e tocar o cravo que fora banhado com o sangue de Jesus...
Francamente, era audaciosa demais!... Felizmente, Deus, que vê o fundo dos
corações, sabe que minha intenção era pura e que por nada neste mundo teria
querido desagradar-lhe. Comportava-me com Ele como uma criança que acredita que
tudo lhe é permitido e olha os tesouros de seu pai como sendo dela. Ainda não
consegui entender porque as mulheres são tão facilmente excomungadas na Itália.
A cada instante, diziam-nos: "Não entrem aqui... Não entrem aí, seriam
excomungadas!..." Ah! pobres mulheres, como são desprezadas!... Todavia, são
muito mais numerosas em amar a Seus e, durante a Paixão de Nosso Senhor, as
mulheres tiveram mais coragem que os apóstolos, pois enfrentaram os insultos dos
soldados e atreveram-se a enxugar a Face adorável de Jesus... É sem dúvida por
isso que Ele permite que o desprezo seja a herança delas na terra, sendo que Ele
o escolheu para Si mesmo....
No Céu, saberá mostrar que as idéias Dele não se confundem com as dos homens,
pois então as últimas serão as primeiras... Mais de uma vez, durante a viagem,
não tive a paciência de esperar pelo Céu para ser a primeira... Num dia em que
visitávamos um mosteiro de padres carmelitas, não estando satisfeita em
acompanhar os romeiros nos corredores exteriores, adentrei os claustros
internos... De repente, vi um bom velho carmelita que me fazia sinal, de longe,
para me afastar. Em vez de voltar, aproximei-me dele mostrando os quadros do
claustro e dizendo, por sinal, que eram bonitos. Ele percebeu, sem dúvida pelos
meus cabelos soltos e meu ar jovem, que eu não passava de uma criança; sorriu-me
com bondade e se afastou, ciente de que não tinha enfrentado uma inimiga. Se eu
soubesse falar italiano, ter-lhe-ia dito ser uma futura carmelita, mas por causa
dos construtores da torre de Babel isso não foi possível.
Depois de ter visitado Pisa e Gênova, voltamos à França. No percurso, a vista
era magnífica. Às vezes, íamos pela beira-mar e a ferrovia passava tão perto que
dava a impressão de que as ondas iam nos alcançar. Esse espetáculo foi causado
por uma tempestade. Era noite, o que tornava a cena ainda mais imponente. Outras
vezes, planícies cobertas de laranjais com frutas maduras, verdes oliveiras com
folhagem leve, palmeiras graciosas... no fim da tarde, víamos numerosos pequenos
portos marítimos iluminar-se com milhares de luzes, enquanto no Céu brilhavam as
primeiras estrelas... Ah! que poesia enchia minha alma vendo todas essas coisas
pela primeira e última vez na minha vida!... Era sem pena que as via esvair-se,
meu coração aspirava a outras maravilhas. Ele tinha contemplado suficientemente
as belezas da terra, as do Céu eram objeto dos seus desejos e para dá-las às
almas queria tornar-me prisioneira!... Antes de ver abrir-se diante de mim as
portas da prisão abençoada com a qual sonhava, precisava lutar e sofrer ainda
mais... sentia-o ao voltar à França. Todavia, minha confiança era tão grande que
não cessava de esperar que me seria permitido ingressar em 25 de dezembro... De
volta a Lisieux, nossa primeira visita foi ao Carmelo. Que reencontro aquele!...
Tínhamos tantas coisas para nos contar após um mês de separação, mês que me
pareceu mais longo e durante o qual aprendi mais que durante muitos anos...
Oh, Madre querida! como foi doce para mim vos rever, abrir-vos minha pobre
pequena alma ferida. A vós que tão bem sabíeis me compreender, a quem uma
palavra, um olhar bastava para adivinhar tudo! Abandonei-me completamente, tinha
feito tudo o que dependia de mim, tudo, até falar com o Santo Padre. Não sabia
mais o que tinha de fazer. Dissestes-me para escrever a Sua Excelência e
lembrar-lhe sua promessa; eu o fiz logo, o melhor que me foi possível, mas em
termos que meu tio achou simples demais. Ele refez minha carta. No momento em
que ia enviá-la, recebi uma de vós, dizendo-me para não escrever, para esperar
alguns dias. Obedeci logo, pois estava certa de que era o melhor meio de não
errar. Enfim, dez dias antes do Natal, minha carta partiu. Convicta de que a
resposta não demoraria, ia todas as manhãs, depois da missa, com papai à agência
dos correios, acreditando encontrar aí a permissão para levantar vôo. Cada manhã
trazia nova decepção que, porém, não abalava minha fé... Pedia a Jesus para
romper meus laços. Ele os rompeu, mas de maneira totalmente diferente do que
esperava... A bela festa de Natal chegou e Jesus não acordou... Deixou no chão
sua pequena bola sem ao menos olhar para ela...
Foi de coração partido que assisti à missa do galo; esperava tanto assistir
atrás das grades do Carmelo!... Essa provação foi muito grande para minha fé...
Mas Aquele cujo coração vigia durante o sono fez-me compreender que, para quem
tem fé do tamanho de um grão de mostarda, Ele opera milagres e transporta as
montanhas para firmar essa pequena fé, mas para seus íntimos, para sua Mãe, não
opera milagres antes de provar sua fé. Não deixou Lázaro morrer, embora Marta e
Maria o tivessem avisado que ele estava doente?... Nas bodas de Caná, quando
Nossa Senhora lhe pediu para socorrer os anfitriões, não respondeu que sua hora
não tinha chegado?... Mas, depois da provação, que recompensa: a água se
transforma em vinho... Lázaro ressuscita... É assim que Jesus age com sua
Teresinha; depois de a pôr à prova durante muito tempo, satisfez todos os
desejos do seu coração...
Na tarde da radiosa festa que passei chorando, fui visitar as carmelitas; foi
grande a surpresa quando, ao abrir-se a grade, vi um lindo menino Jesus
segurando nas mãos uma bola com meu nome escrito nela. No lugar de Jesus,
pequeno demais para poder falar, as carmelitas cantaram para mim um cântico
composto pela minha querida Madre. Cada palavra derramava em minha alma um doce
consolo. Nunca me esquecerei dessa delicadeza do coração materno que sempre me
cumulou das mais finas ternuras... Após ter agradecido no meio de doces
lágrimas, relatei a surpresa que minha Celina querida me fizera ao voltar da
missa do galo. Encontrei no meu quarto, dentro de uma bela bacia, um barquinho
carregando o menino Jesus dormindo com uma pequena bola ao lado Dele. Na vela
branca, Celina escrevera as seguintes palavras: "Durmo, mas meu coração vela",
e, sobre o barquinho, apenas essa palavra: "Abandono!" Ah! se Jesus ainda não
falava com sua noivinha, se seus divinos olhos continuavam sempre fechados, pelo
menos Ele se revelava a ela por meio de almas que compreendiam todas as
delicadezas e o amor do seu coração...
No primeiro dia do ano de 1888, Jesus ainda me presenteou com sua cruz, mas
dessa vez carreguei-a sozinha, pois era tanto mais dolorosa quanto
incompreendida... Uma carta de Paulina veio me informar que a resposta de Sua
Excelência tinha chegado dia 28, festa dos santos Inocentes, mas que não a
comunicou para mim por ter decidido que meu ingresso só se daria depois da
quaresma. Não pude segurar as lágrimas com a idéia de tão longa espera. Essa
provação teve para mim um caráter muito peculiar: via meus laços com o mundo
rompidos e a arca santa recusando a entrada para sua pobre pombinha... Quero
acreditar que devo ter parecido manhosa por não aceitar alegremente meus três
meses de exílio, mas creio também que, sem deixar transparecer, essa provação
foi muito grande e me fez crescer muito no abandono e nas outras virtudes.
Como passaram esses três meses tão ricos de graças para minha alma?... Primeiro,
ocorreu-me a idéia de não me constranger a levar uma vida tão bem regrada como
de costume; mas logo compreendi o valor do tempo que me estava sendo oferecido e
resolvi entregar-me, mais do que nunca, a uma vida séria e mortificada. Quando
digo mortificada, não é para fazer crer que eu fazia penitências, ai! nunca fiz,
longe de parecer com as belas almas que desde a infância praticavam toda espécie
de mortificações, não sentia atrações por elas. Sem dúvida, isto decorria da
minha covardia, pois podia, com Celina, encontrar mil pequenas invenções para me
fazer sofrer; em vez disso, sempre me deixei mimar e cevar como um passarinho
que não precisa fazer penitência... Minhas mortificações consistiam em refrear
minha vontade, sempre prestes a se impor, em reprimir uma palavra de réplica, em
prestar pequenos serviços sem retribuição, em não me encostar quando sentada
etc. etc... Foi pela prática desses nadas que me preparei para ser a noiva de
Jesus e não posso dizer o quanto essa espera deixou em mim doces lembranças...
Três meses passam muito depressa e, enfim, chegou o momento tão desejado.
Escolheu-se para meu ingresso a segunda-feira, 9 de abril, dia em que o Carmelo
celebrava a festa da Anunciação, adiada por causa da quaresma. Na véspera, a
família toda reuniu-se em volta da mesa a que me sentava pela última vez. Ah!
como são dilacerantes essas reuniões íntimas!... quando o que se quer é ser
esquecido, prodigalizam-se carícias, e as mais carinhosas palavras fazem sentir
o sacrifício da separação... Meu Rei querido quase não falava, mas seu olhar
fixava-se em mim com amor... Minha tia chorava de vez em quando e meu tio
fazia-me mil elogios afetuosos. Joana e Maria também se esmeravam em
delicadezas, sobretudo Maria, que puxando-me à parte, me pediu mil perdões pelas
penas que pensava ter-me causado. Enfim, minha querida Leoninha, de volta da
Visitação havia alguns meses, enchia-me de beijos e carícias. Só de Celina eu
não falei, mas adivinhais, querida Madre, corno se passou a última noite em que
dormimos juntas... Na manhã do grande dia, depois de lançar um último olhar aos
Buissonnets, ninho gracioso da rainha infância que não devia nunca mais rever,
parti de braços dados com meu Rei querido para subir a montanha do Carmelo...
Como na véspera, a família toda se reuniu para assistir à missa e comungar. Logo
após Jesus ter descido ao coração dos meus familiares queridos, só ouvi soluços
ao meu redor. Só eu não chorava, mas senti meu coração bater com tanta violência
que me pareceu impossível andar quando nos fizeram sinal para chegar até a porta
do convento. Andei, embora me perguntando se não ia morrer devido à força das
batidas do meu coração... Ah! que momento aquele. É preciso tê-lo vivido para
saber como é...
Minha emoção não se expressava externamente. Depois de ter abraçado todos os
membros da minha querida família, pus-me de joelhos diante do meu incomparável
pai e pedi-lhe a bênção. Ele mesmo ajoelhou-se e me abençoou chorando... Era um
espetáculo de fazer os anjos sorrir, esse de um ancião apresentando ao Senhor
sua criança ainda na primavera da vida!... Alguns momentos depois, as portas da
arca sagrada fechavam-se sobre mim e passava a receber os abraços das irmãs
queridas que me haviam servido de mães e que ia, doravante, tomar por modelo das
minhas ações... Enfim, meus desejos estavam realizados, minha alma gozava de uma
PAZ tão suave e tão profunda que me seria impossível expressar e, há sete anos e
meio, essa paz íntima continuou sendo meu quinhão. Não me abandonou em meio às
maiores provações.
Como todas as postulantes, fui levada ao coro logo após minha entrada; estava
escuro, por causa do Santíssimo exposto, e o que chamou minha atenção foram os
olhos da nossa santa Madre Genoveva, que se fixaram sobre mim. Fiquei algum
tempo de joelhos a seus pés, agradecendo a Deus pela graça que me concedia de
conhecer uma santa, e acompanhei nossa Madre Maria de Gonzaga aos diversos
recintos do convento. Tudo me parecia bonito, tinha impressão de ter sido
transportada para o deserto. Nossa pequena cela me encantava especialmente, mas
a alegria que sentia era calma, nem a menor aragem fazia ondular as águas
tranqüilas em que navegava meu barquinho, nenhuma nuvem escurecia meu céu
azul... ah! estava plenamente recompensada por todas as minhas provações... Com
que alegria profunda repetia estas palavras: "É para sempre, sempre, que estou
aqui!..."
Não era uma felicidade efêmera; não iria embora com as ilusões dos primeiros
dias. Deus concedeu-me a graça de não ter ilusões, NENHUMA ilusão ao entrar para
o Carmelo. Encontrei a vida religiosa tal como a imaginara, nenhum sacrifício me
surpreendeu e, contudo, vós sabeis, Madre querida, meus primeiros passos
encontraram mais espinhos do que rosas!... Sim, o sofrimento estendeu-me os
braços e atirei-me a ele com amor... O que eu vinha fazer no Carmelo, declarei-o
aos pés de Jesus-Hóstia, no exame que antecedeu minha profissão: "Vim para
salvar as almas e sobretudo, rezar elos sacerdotes". Quando se quer atingir um
fim, é preciso tomar os meios, Jesus fez-me compreender que era pela cruz que
queria me dar almas e minha atração pelo sofrimento crescia na medida em que o
sofrimento aumentava. Durante cinco anos, esse caminho foi o meu mas, por fora,
nada exteriorizava meu sofrimento, mais doloroso por ser eu a única a saber
dele. Ah! quantas surpresas teremos no juízo final, quando conhecermos a
história das almas!... haverá pessoas surpresas ao conhecer a via pela qual fui
conduzida!...
Isso é tão verdadeiro que, dois meses após meu ingresso, estando aqui para a
profissão de Irmã Maria do Sagrado Coração, o padre Pichon ficou espantado ao
constatar o que Deus operava em minha alma e disse-me que, na véspera, tendo-me
observado rezando no coro, pensou ser meu fervor totalmente infantil e meu
caminho muito manso. Minha entrevista com o bom padre foi para mim um grande
consolo, mas coberto de lágrimas diante da dificuldade que sentia em abrir minha
alma. Fiz, porém, uma confissão geral tal como nunca tinha feito; no final, o
padre me disse as mais consoladoras palavras que já ressoaram aos ouvidos da
minha alma: "Na presença de Deus, da Santíssima Virgem e de todos os santos,
declaro nunca terdes cometido um único pecado mortal". E acrescentou: deis
graças a Deus pelo que Ele faz por vós, pois se Ele vos abandonasse, em vez de
serdes um anjinho, seríeis um diabinho. Ah! não tinha dificuldade em acreditar,
sentia o quanto era fraca e imperfeita, mas a gratidão enchia minha alma. Tinha
tanto receio de ter maculado meu vestido de batismo, que tal certidão, oriunda
da boca de um diretor conforme os desejos de Nossa Santa Madre Teresa, isto é,
que une ciência e virtude, parecia-me ter saído da própria boca de Jesus... O
bom padre disse-me ainda essas palavras que se gravaram em meu coração: "Minha
filha, que Nosso Senhor seja sempre vosso Superior e vosso Mestre de noviças".
De fato o foi, e foi também "meu diretor". Não quero dizer com isso que minha
alma estivesse fechada para minhas superioras, ah! longe disso, sempre procurei
fazer dela um livro aberto; mas nossa Madre, freqüentemente doente, tinha pouco
tempo para cuidar de mim. Sei que me amava muito e dizia de mim todo o bem
possível, todavia Deus permitia que, à sua revelia, ela fosse SEVERÍSSIMA; não
podia encontrá-la sem beijar a terra, era a mesma coisa por ocasião das escassas
direções espirituais que eu tinha com ela... Que graça inestimável!... Como Deus
agia visivelmenle naquela que o substituía!... Que teria sido de mim se, como
pensavam as pessoas de fora, tivesse sido "o brinquedinho" da comunidade?...
Quiçá, em vez de ver Nosso Senhor em minhas Superioras, não teria considerado
apenas as pessoas e meu coração, tão bem preservado no mundo, ter-se-ia ligado
humanamente no claustro... Felizmente, fui protegida contra essa desgraça. Sem
dúvida, gostava muito da nossa Madre, mas de um afeto puro que me elevava para o
Esposo da minha alma...
Nossa mestra era uma verdadeira santa, o tipo acabado das primeiras carmelitas.
Eu ficava com ela o dia todo, pois ensinava-me a trabalhar. Sua bondade para
comigo era sem limites e, todavia, minha alma não se dilatava... Só com esforço
eu conseguia fazer direção espiritual, não estando habituada a falar da minha
alma não sabia expressar o que se passava. Uma boa velha madre compreendeu o que
ocorria comigo e disse-me, rindo, num recreio: "Filhinha, creio que não tendes
muita coisa a dizer às vossas superioras". "Por que, Madre, dizeis isso?..."
"Porque vossa alma é extremamente simples", mas quando estiverdes perfeita
sereis ainda mais simples, mais nos aproximamos de Deus, mais simples ficamos".
A boa Madre estava com a razão, porém, a dificuldade que sentia para abrir minha
alma, embora viesse da minha simplicidade, era uma verdadeira provação.
Reconheço-o agora, pois, sem deixar de ser simples, exprimo meus pensamentos com
muito maior facilidade.
Disse que Jesus fora "meu Diretor". Ao ingressar no Carmelo, conheci aquele que
devia servir-me de diretor, mas apenas me admitira como sua filha partiu para o
exílio... Portanto, só o conheci para ficar privada dele... Reduzida a receber
dele uma carta anual pelas doze que lhe escrevia, meu coração dirigiu-se logo
para o diretor dos diretores e foi Ele quem me instruiu dessa ciência que
esconde dos sábios e dos pedantes e revela aos menores...
A florzinha transplantada sobre a montanha do Carmelo ia desabrochar à sombra da
Cruz; as lágrimas, o sangue de Jesus foram seu orvalho. Seu sol foi a Face
Adorável coberta de lágrimas... Até então, não tinha imaginado a imensidade dos
tesouros escondidos na Sagrada Face. Foi por vosso intermédio, querida Madre,
que aprendi a conhecê-los, assim como, em outro momento, precedeu a todas nós no
Carmelo, da mesma forma sondastes primeiro os mistérios de amor escondidos no
Rosto do nosso Esposo. Chamastes-me então e compreendi... Compreendi em que
consiste a verdadeira glória. Aquele cujo reino não é deste mundo ensinou-me que
a verdadeira sabedoria consiste em "querer ser ignorado e tido por nada, em
colocar sua alegria no desprezo de si mesmo..." Ah! como o de Jesus, queria que:
"Meu rosto fosse verdadeiramente escondido, que ninguém me reconhecesse nesta
terra". Tinha sede de sofrer e ser esquecida...
Como é misteriosa a via pela qual Deus sempre me conduziu, nunca me fez desejar
alguma coisa sem dá-lo a mim, por isso seu amargo cálice me pareceu delicioso...
Depois das lindas festas de maio, da profissão e tomada do véu da nossa querida
Maria, a mais velha da família que a mais jovem teve a felicidade de coroar no
dia das suas bodas, era necessário que a provação viesse nos visitar... No ano
anterior, no mês de maio, papai fora vítima de um ataque de paralisia nas
pernas; nossa inquietação foi grande então, mas o temperamento forte do meu Rei
querido superou logo o mal, e nossos temores sumiram. Porém, mais de uma vez
durante a viagem a Roma, reparamos que ele se cansava facilmente, que não estava
tão alegre quanto de costume... O que eu mais reparei eram os progressos que ele
fazia rio aperfeiçoamento; a exemplo de são Francisco de Sales, chegara a
dominar a própria vivacidade natural até parecer possuir a mais doce natureza do
mundo... As coisas da terra pareciam tocá-lo de leve apenas, vencia facilmente
as contrariedades desta vida, enfim, Deus o inundava de consolações. Durante
suas visitas diárias ao Santíssimo, seus olhos enchiam-se freqüentemente de
lágrimas e seu rosto deixava transparecer uma felicidade celeste... Quando
Leônia saiu da Visitação, não se perturbou, não reclamou junto a Deus por não
ter atendido às orações que tinha feito para obter a vocação da querida filha.
Foi até com certa alegria que foi buscá-la...
Eis a fé com que papai aceitou a separação da sua rainhazinha; anunciou a seus
amigos de Alençon: "Caros Amigos, Teresa, minha rainhazinha, ingressou ontem no
Carmelo!... Só Deus para exigir tal sacrifício... Não lastimeis por mim, pois
meu coração exulta de alegria".
Chegara o momento de um tão bom e fiel servo receber o prêmio das suas obras,
era justo que seu salário se assemelhasse ao que Deus dera ao Rei do Céu, seu
Filho único... Papai acabava de oferecer um Altar a Deus e foi ele a vítima
escolhida para ser imolada com o Cordeiro imaculado. Conheceis, Madre querida,
nossas amarguras de junho e, sobretudo, do 24 do ano de 1888, essas lembranças
estão tão bem gravadas no fundo dos nossos corações que não é necessário
escrevê-las... Oh, Madre! quanto sofremos!... e ainda era apenas o começo da
nossa provação... Todavia, o tempo da minha tomada do hábito havia chegado; fui
recebida pelo Capítulo, mas como pensar numa cerimônia? Já se falava de me dar o
santo hábito sem fazer-me sair, quando se decidiu esperar. Contra qualquer
esperança, nosso pai querido restabeleceu-se uma segunda vez e Sua Excelência
marcou a cerimônia para 10 de janeiro. A espera havia sido longa, mas que bela
festa!... Nada faltava, nada, nem a neve... Não sei se já vos falei do meu amor
pela neve... Quando pequenina, sua brancura me encantava; um dos meus maiores
prazeres consistia em andar sob os flocos de neve caindo. De onde me vinha esse
gosto pela neve?... Talvez por ser uma florzinha de inverno, o primeiro adorno
da natureza que meus olhos de criança viram tenha sido seu manto branco...
Enfim, sempre sonhara com que no dia da minha tomada de hábito a natureza se
vestisse como eu, de branco. Na véspera desse belo dia, olhava tristemente o céu
cinzento de onde caía de tempo em tempo um chuva fina, e a temperatura era tão
alta que não esperava neve. Na manhã seguinte, o céu não havia mudado, mas a
festa foi encantadora e a flor mais bela, a mais encantadora, era meu Rei
querido, nunca estivera tão bonito, mais digno... Foi admirado por todos. Esse
dia foi seu triunfo, sua última festa na terra. Havia dado todas as suas filhas
a Deus, pois quando Celina lhe comunicou sua vocação chorou de alegria e foi com
ela agradecer Àquele que "lhe dava a honra de tomar todas as suas filhas".
No final da cerimônia, Sua Excelência entoou o Te Deum. Um sacerdote tentou
lembrar-lhe que esse cântico só se canta nas profissões, mas a partida fora dada
e o hino de ação de graças prosseguiu até o final. Não devia a festa ser
completa, pois reunia todas as outras?... Depois de ter beijado urna última vez
meu Rei querido, voltei para a clausura. A primeira coisa que vi foi "meu
pequeno Jesus cor-de-rosa" sorrindo-me no meio das flores e das luzes e logo vi
os flocos de neve... o pátio estava branco como eu. Que delicadeza de Jesus!
Antecipando-se aos desejos da sua noiva, mandava-lhe neve... Neve! que mortal,
por mais poderoso que seja, é capaz de fazer cair neve do céu para encantar sua
amada?... Talvez as pessoas do mundo se perguntem isso, mas o certo é que a neve
da minha tomada de hábito pareceu ser um pequeno milagre e toda a cidade ficou
surpresa. Achou-se que eu tinha um gosto esquisito, gostar da neve... Tanto
melhor, isso acentuou ainda mais a incompreensível condescendência do Esposo das
virgens... Daquele que gosta dos Lírios brancos como a NEVE!... Sua Excelência
entrou depois da cerimônia, e foi de uma bondade muito paterna para comigo.
Creio que ele estava satisfeito em ver que eu tinha conseguido; dizia a todos
que eu era "sua filhinha". Todas as vezes que voltou, depois, foi sempre muito
bom comigo; recordo-me especialmente de sua visita por ocasião do centenário de
N. P. são João da Cruz. Pegou minha cabeça em suas mãos, fez-me mil carícias de
todas as espécies, nunca eu tinha sido tão honrada! enquanto isso, Deus fazia-me
pensar nas carícias que me prodigalizará diante dos anjos e dos santos e das
quais me dava uma fraca imagem desde então; por isso, a consolação que senti foi
muito grande.
Como acabo de dizer, 10 de janeiro foi o triunfo para meu Rei. Comparo esse dia
ao da entrada de Jesus em Jerusalém no dia dos Ramos. Como a do Nosso Divino
Mestre, a glória dele foi de um dia e seguida por uma paixão dolorosa. Mas essa
paixão não foi só dele; assim como as dores de Jesus traspassaram como um punhal
o coração da sua divina Mãe, também os nossos corações sentiram os sofrimentos
daquele a quem queríamos com a maior ternura nesta terra... Recordo que no mês
de junho de 1888, quando das primeiras provações, eu dizia: "Sofro muito, mas
sinto que posso suportar provações ainda maiores". Não pensava então naquelas
que me estavam reservadas... Não sabia que em 12 de fevereiro, um mês depois da
minha tomada de hábito, nosso Pai querido beberia na mais amarga e mais
humilhante de todas as taças...
Ah! naquele dia eu não disse que podia sofrer ainda mais!!!... As palavras não
conseguem expressar nossas angústias, por isso não vou procurar descrevê-las. Um
dia, no Céu, gostaremos de nos recordar das nossas gloriosas provações. Não
estamos felizes, no presente momento, por tê-las sofrido?... Sim, os três anos
do martírio de Papai pareceram-me os mais amáveis, os mais rendosos de toda a
nossa vida, não os doaria em troca de todos os êxtases e revelações dos santos.
Meu coração transborda de gratidão ao pensar nesse tesouro inestimável que deve
causar santa inveja aos anjos da Corte celeste...
Meu desejo de sofrimento estava repleto, mas minha atração por ele não diminuía,
por isso minha alma compartilhou logo do sofrimento do meu coração. A aridez
passou a ser meu pão de cada dia; privada de qualquer consolação, não deixava de
ser a mais feliz das criaturas, sendo que todos os meus desejos estavam
satisfeitos...
Oh, Madre querida! como foi doce a nossa grande provação, sendo que do coração
de todas nós só saíram suspiros de amor e de gratidão!... Não mais andávamos nas
sendas da perfeição, voávamos, as cinco. As duas pobres pequenas exiladas de
Caen, embora estivessem ainda no mundo, não eram mais do mundo... Ah! que
maravilhas a provação operou na alma da minha Celina querida!... Todas as cartas
que escreveu na época têm o selo da resignação e do amor... E quem poderia
relatar as conversações que tínhamos?... Ah! longe de nos separar, as grades do
Carmelo uniam mais fortemente nossas almas, tínhamos os mesmos pensamentos, os
mesmos desejos, o mesmo amor de Jesus e das almas... Quando Celina e Teresa
falavam uma com a outra, nunca uma palavra das coisas da terra entrava na
conversação, que já era do Céu. Como outrora no mirante, elas sonhavam com as
coisas da eternidade, e para gozar logo dessa felicidade sem fim escolhiam, na
terra, por única partilha "o sofrimento e o desprezo".
Assim decorreu o tempo do meu noivado... foi muito demorado para a pobre
Teresinha! No final do meu ano, nossa Madre disse-me para não sonhar com a
profissão, que certamente o padre superior recusaria meu pedido. Fui obrigada a
esperar mais oito meses... Naquele momento, foi-me muito difícil aceitar esse
grande sacrifício, mas logo fez-se luz em minha alma. Meditava então "os
fundamentos da vida espiritual" do padre Surin. Um dia, durante a oração,
compreendi que meu tão vivo desejo de fazer profissão estava mesclado de um
grande amor-próprio; sendo que me dera a Jesus para agradar a Ele, consolá-lo,
não devia obrigá-lo a fazer minha vontade de preferência à Dele, compreendi
também que uma noiva devia estar preparada para o dia do enlace, e eu nada tinha
feito para isso... disse então a Jesus: "Oh, meu Deus! não peço para fazer os
santos votos, esperarei o tempo que Vós quiserdes, só não quero que, por culpa
minha, nossa união seja adiada, mas vou fazer o maior esforço para confeccionar
para mim um vestido bonito, enriquecido de pedras. Quando Vós o achardes
bastante bonito, estou certa de que nenhuma criatura Vos impedirá de descerdes a
mim, a fim de me unir para sempre a Vós, ó meu amado!..."
Desde minha tomada de hábito, eu recebera luz abundante a respeito da perfeição
religiosa, principalmente do voto de pobreza. Durante meu postulado, gostava de
possuir coisas boas para meu uso e de encontrar à mão tudo o que me era
necessário. "Meu Diretor" tolerava isso com paciência, pois Ele não gosta de
revelar tudo ao mesmo tempo às almas. Geralmente, dá sua luz pouco a pouco. No
início da minha vida espiritual, pelos 13 ou 14 anos, perguntava a mim mesma o
que eu aprenderia mais tarde, pois parecia-me impossível entender melhor a
perfeição. Não demorei em compreender que mais se avança nesse caminho, mais se
acredita estar afastado da meta; agora, resigno-me em ser sempre imperfeita e
fico contente... . Volto às lições que "meu Diretor" me deu. Uma noite, depois
das Completas, procurei em vão nossa lampadinha sobre as tábuas reservadas para
esse uso, era silêncio total, impossível perguntar... entendi que uma irmã,
acreditando ter pegado sua lâmpada, pegou a nossa, da qual eu estava muito
necessitada; em vez de desgostar-me, fiquei feliz, sentindo que a pobreza
consiste em se ver privado não só das coisas agradáveis, mas ainda das
indispensáveis. Portanto, no meio das trevas exteriores, fui iluminada
interiormente... Naquela época, empolguei-me pelos mais feios e mais
desajeitados objetos e foi com alegria que vi terem tirado a moringa bonitinha
da nossa cela, substituindo-a por uma grande toda desbicada... Fazia também
muitos esforços para não me desculpar, sobretudo com a nossa Mestra, a quem não
queria ocultar coisa alguma; eis minha primeira vitória. Não é grande, mas
custou-me muito. Um pequeno vaso colocado atrás de uma janela foi encontrado
quebrado. Pensando que fosse eu quem o largara ali, mostrou-o para mim dizendo
que eu deveria ter mais cuidado. Sem dizer uma só palavra, beijei a terra e
prometi ter mais ordem no futuro. Devido à minha falta de virtude, essas
pequenas práticas custavam-me muito e precisava pensar que, no juízo final, tudo
seria conhecido, pois pensava: quando se cumpre com sua obrigação, sem se
desculpar nunca, ninguém toma conhecimento; pelo contrário, as imperfeições
aparecem logo...
Cultivava sobretudo a prática das pequenas virtudes, não tendo facilidade para
praticar as grandes; gostava de dobrar os mantos esquecidos pelas irmãs e
prestar-lhes todos os pequenos serviços que podia.
Foi-me dado também o amor pela mortificação, foi grande na medida em que nada me
era permitido para satisfazê-lo... A única pequena mortificação que eu fazia no
mundo, a de não me encostar quando sentada, foi-me proibida devido à minha
tendência a ficar curvada. Aliás, meu entusiasmo não teria durado muito se me
fosse permitido praticar muitas mortificações... Aquelas que me eram concedidas,
sem eu pedir, tinham por finalidade mortificar meu amor-próprio, o que me
causava um bem maior do que as penitências corporais...
O refeitório onde fui prestar serviço logo após minha tomada de hábito
propiciou-me diversas ocasiões para colocar meu amor-próprio no seu devido
lugar, debaixo dos pés... Verdade é que tinha a grande consolação de estar no
mesmo serviço que vós, Madre querida, de poder contemplar de perto vossas
virtudes; mas essa aproximação era motivo de sofrimento, não me sentia como
outrora, livre para vos dizer tudo; tinha de observar a regra, não podia abrir
para vós a minha alma, enfim, estava no Carmelo e não nos Buissonnets, no lar
paterno!...
Porém, Nossa Senhora ajudava-me a preparar o vestido da minha alma. Logo que foi
terminado, os obstáculos sumiram. Sua Excelência expediu-me a permissão
solicitada, a comunidade aceitou receber-me, e minha profissão foi marcada para
8 de setembro...
O que acabo de escrever em resumo precisaria de muitas páginas para os
pormenores, mas essas páginas nunca serão lidas na terra. Em breve, querida
Madre, falar-vos-ei de todas essas coisas em nossa casa paterna, no belo Céu
para o qual sobem os suspiros dos nossos corações!...
Meu vestido de noiva estava pronto; mesmo enriquecido com as antigas jóias que
meu Noivo me havia dado, ainda não era suficiente para sua generosidade. Queria
dar-me um novo brilhante de inúmeros reflexos. A provação de Papai, com todas as
circunstâncias que a cercaram, constituía as antigas jóias, a nova foi uma
provação aparentemente muito pequena, mas que me fez sofrer muito. Desde algum
tempo, nosso pobre paizinho estava melhor, faziam-no sair de carro, cogitava-se
até fazê-lo viajar de trem para vir nos visitar. Naturalmente, Celina pensou
logo no dia da minha tomada de véu. Para não cansá-lo, dizia ela, não deixarei
que assista à cerimônia inteira, só no final irei buscá-lo e o levarei devagar
até a grade para que Teresa receba sua bênção. Ah! como vejo bem aí o coração da
minha Celina querida... como é verdade que "o amor não vê impossibilidade porque
pensa que tudo lhe é possível e permitido"... A prudência humana, ao contrário,
treme a cada passo e não ousa, por assim dizer, dar um passo. Querendo
provar-me, Deus serviu-se dela como de um instrumento dócil e, no dia das minhas
núpcias, fiquei verdadeiramente órfã, não tendo mais Pai na terra, mas podendo
olhar para o Céu confiante e dizer com toda a verdade: "Pai Nosso que estais no
Céu".
Antes de falar-vos dessa provação, Madre querida, deveria ter-vos falado do
retiro que antecedeu minha profissão; não me trouxe consolações, mas a mais
absoluta aridez, quase o abandono. Jesus dormia como sempre no meu barquinho;
ah! vejo que raramente as almas o deixam dormir sossegado nelas. Jesus fica tão
cansado de sempre dar os primeiros passos e pagar as contas, que se apressa em
aproveitar o descanso que eu lhe propicio. Provavelmente não acordará antes do
meu grande retiro de eternidade, mas, em vez de causar-me tristeza, isso me
alegra extremamente...
Verdadeiramente, estou longe de ser santa, só isso o prova bem; em vez de me
regozijar com a minha aridez, deveria atribuí-la a minha falta de fervor e de
fidelidade, deveria ficar aflita por dormir (há sete anos) durante minhas
orações e minhas ações de graças, mas não, não me aflijo... penso que as
criancinhas agradam tanto seus pais quando dormem como quando estão acordadas,
penso que para fazer cirurgias os médicos adormecem seus pacientes. Enfim, penso
que: "O Senhor vê nossa fragilidade, que Ele não perde de vista que só somos
pó".
Meu retiro de profissão foi, portanto, igual a todos os que fiz depois, um
retiro de grande aridez. Mas Deus mostrava-me, claramente, sem eu o perceber, o
meio de Lhe agradar e de praticar as mais sublimes virtudes. Notei muitas vezes
que Deus não quer dar-me provisões, alimenta-me a cada momento com alimento
novo, encontro-o em mim, sem saber como chegou... Creio simplesmente que é o
próprio Jesus, oculto no fundo do meu coraçãozinho que me faz a graça de agir em
mim e me leva a pensar tudo o que Ele quer que eu faça no presente momento.
Alguns dias antes da minha profissão, tive a felicidade de obter a bênção do
Soberano Pontífice; tinha-a solicitado por intermédio do bom irmão Simião para
Papai e para mim. Foi um grande consolo poder propiciar a meu Paizinho querido a
graça que ele me tinha dado levando-me a Roma.
Enfim, chegou o belo dia das minhas núpcias. Foi sem nuvem, mas na véspera
levantou-se em minha alma uma tempestade como nunca tinha visto... Nenhuma
dúvida quanto à minha vocação tinha surgido antes, precisava passar por essa
provação. De noite, ao fazer minha via-sacra após matinas, minha vocação
apareceu-me como um sonho, uma quimera... achava a vida do Carmelo muito bonita,
mas o
demônio me assegurava que não era para mim, que eu enganaria meus superiores
prosseguindo num caminho que não era para mim... Minhas trevas eram tão grandes,
que não via e só compreendia uma coisa: não tinha essa vocação!... Ah! como
descrever a angústia da minha alma?... Tinha impressão (coisa absurda que mostra
bem que essa tentação vinha do demônio) de que se falasse dos meus temores para
minha mestra ela me impediria de fazer meus santos votos; mas eu queria fazer a
vontade de Deus e voltar para o mundo de preferência a ficar no Carmelo fazendo
a minha. Fiz minha mestra sair e, cheia de confusão, contei-lhe o estado da
minha alma... Felizmente, ela enxergou melhor que eu e me tranqüilizou
completamente. Aliás, o ato de humildade que eu tinha feito acabava de afugentar
o demônio, que talvez pensasse que eu não ia ousar confessar a minha tentação;
logo que acabei de falar, minhas dúvidas se foram. Mas, para tornar meu ato de
humildade mais completo, quis confiar minha estranha tentação à nossa Madre, que
se contentou em rir de mim.
Na manhã de 8 de setembro senti-me inundada por um rio de paz e foi nessa paz,
"ultrapassando qualquer sentimento", que pronunciei meus santos votos... Minha
união com Jesus fez-se, não em meio a trovões e relâmpagos, isto é, a graças
extraordinárias, mas no meio de uma leve brisa parecida àquela que nosso Pai
santo Elias ouviu na montanha... Quantas graças pedi naquele dia!... Sentia-me
verdadeiramente Rainha, e aproveitei do meu título para liberar cativos, obter
favores do meu Rei para com seus súditos ingratos, enfim, queria libertar todas
as almas do purgatório e converter os pecadores... Rezei muito por minha Madre,
minhas irmãs queridas... pela família toda, mas sobretudo por pneu paizinho tão
provado e tão santo ... Ofereci-me a Jesus, a fim de que cumprisse perfeitamente
em mim a sua vontade sem que nunca as criaturas impusessem obstáculos...
Esse belo dia, à semelhança dos mais tristes, passou, sendo que os mais
radiantes também têm o dia seguinte. Mas foi sem tristeza que depositei minha
coroa aos pés de Nossa Senhora, sentia que o tempo não levaria embora a minha
felicidade... Que festa bonita foi a da Natividade de Maria para vir a ser a
esposa de Jesus! Era a pequena Santíssima Virgem que apresentava sua pequena
flor ao menino Jesus... Naquele dia, tudo era pequeno, fora as graças e a paz
que recebi, fora a alegria calma que senti de noite ao olhar as estrelas
brilharem no firmamento, pensando que em breve o belo Céu iria se abrir para
meus olhos maravilhados e poderia unir-me a meu Esposo no seio de uma alegria
eterna...
No dia 24, houve a cerimônia da minha tomada de véu. Foi inteiramente coberta de
lágrimas... Papai não estava para abençoar sua rainha... O padre estava no
Canadá... Sua Excelência, que devia vir e almoçar na casa do meu tio, ficou
doente e não veio, enfim, tudo foi tristeza e amargura... Porém, a paz, sempre a
paz encontrava-se no fundo do cálice ... Naquele dia, Jesus permitiu que eu não
pudesse segurar as lágrimas, que não foram compreendidas ... de fato, eu tinha
suportado sem chorar provações muito maiores, mas então era ajudada por uma
graça poderosa. No dia 24, pelo contrário, Jesus deixou-me entregue às minhas
próprias forças e mostrei como eram pequenas.
Oito dias depois da minha tomada de véu, houve o casamento de Joana. Dizer-vos,
querida Madre, como seu exemplo me instruiu a respeito das delicadezas que uma
esposa deve prodigalizar ao esposo ser-me-ia impossível. Escutava ávida tudo o
que eu podia aprender, pois não podia fazer menos por meu Jesus amador" do que
Joana por Francis, criatura sem dúvida muito perfeita, mas criatura!...
Brinquei de compor um convite para compará-lo ao dela. Eis como era:
Convite para o Casamento de irmã Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face
O Deus todo-poderoso, Criador do céu e da terra, soberano Dominador do
mundo, e a Gloriosíssima Virgem Maria, Rainha da Corte Celeste, têm o prazer de
vos participar o casamento do seu Augusto Filho Jesus, Reis dos Reis e Senhor
dos Senhores, com a Senhorita Teresa Martin, agora Senhora Princesa dos reinos
trazidos em dote pelo seu divino Esposo, a saber: a Infância de Jesus e sua
Paixão, sendo seus títulos: do Menino Jesus e da Sagrada Face.
|
O senhor Louis
Martin, Proprietário e Dono dos Senhorios do Sofrimento e da Humilhação, e a
Senhora Martin, Princesa e Dama de Honra da Corte Celeste, querem vos anunciar
o casamento de sua Filha, Teresa, com Jesus, o Verbo de Deus, segunda Pessoa
da Adorável Trindade, que, por obra do Espírito Santo, se fez Homem e Filho de
Maria, a Rainha dos Céus. |
Não podendo ter-vos convidado para a bênção nupcial que lhe foi
dada sobre a montanha do Carmelo, em 8 de setembro de 189O (só a corte celeste
foi admitida), estais convidados, porém, a participar da festa que será dada
amanhã, Dia da Eternidade, Dia em que Jesus, Filho de Deus, virá sobre as nuvens
do Céu no esplendor da sua Majestade, a fim de julgar os Vivos e os Mortos.
Devido à incerteza da hora, sois convidados a permanecer de prontidão e
aguardar.
Agora, Madre querida, o que resta para vos dizer? Ah! pensava ter concluído, mas
nada vos disse ainda da minha felicidade por ter conhecido nossa Santa Madre
Genoveva... É uma graça sem preço essa; Deus, que me dera tantas graças, ainda
quis que eu vivesse com uma santa, não inimitável, mas uma Santa santificada por
virtudes ocultas e comuns... Mais de uma vez recebi dela grandes consolações,
sobretudo num domingo. Indo, como de costume, fazer-lhe uma pequena visita,
encontrei duas irmãs com Madre Genoveva. Olhei sorrindo para ela e preparava-me
para sair, por não podermos ficar três perto de uma doente, olhou-me com ar
inspirado e me disse: "Aguardai, filhinha, vou dizer-vos apenas uma palavrinha.
Cada vez que vindes, pedistes-me para vos dar um buquê espiritual, bem, hoje,
vou dar-vos o seguinte: servi a Deus na paz e na alegria, lembrai-vos, boa
filha, que nosso Deus é o Deus da Paz". Depois de simplesmente agradecer-lhe,
saí emocionada até as lágrimas e, convicta de que Deus lhe revelara o fundo da
minha alma, pois naquele dia eu estava extremamente provada, quase triste, numa
noite tal que não sabia mais se eu era amada de Deus, mas a alegria e a
consolação que sentia, as adivinhais, querida Madre!...
No domingo seguinte, quis saber que revelação Madre Genoveva tivera,
assegurou-me não ter recebido nenhuma. Então, minha admiração foi ainda maior,
vendo em que eminente grau Jesus vivia nela e a fazia agir e falar. Ah! essa
santidade parece-me a mais verdadeira, a mais santa e é essa que eu desejo, pois
nela não há ilusão ...
No dia da minha profissão, consolou-me saber dela que também passara pela mesma
provação que eu antes de fazer seus votos... No momento das nossas grandes
penas, recordai, Madre querida, as consolações que encontramos junto dela?
Enfim, a lembrança de Madre Genoveva deixou em meu coração uma recordação
perfumada... No dia da sua partida para o Céu, senti-me particularmente
emocionada. Era a primeira vez que eu assistia a uma morte. Verdadeiramente,
esse espetáculo era encantador... Fiquei ao pé da cama da santa moribunda, via
perfeitamente seus mais leves movimentos. Pareceu-me, durante as duas horas que
ali passei, que minha alma deveria ter sentido muito fervor. Pelo contrário, uma
espécie de insensibilidade apoderara-se de mim. Mas no exato momento do
nascimento da nossa Santa Madre Genoveva no Céu, minha disposição interior
mudou. Num piscar de olhos, senti-me repleta de uma alegria e de um fervor
indizíveis, era como se Madre Genoveva me desse uma parte da felicidade que ela
gozava, pois estou certa de que foi diretamente para o Céu... Durante sua vida,
disse a ela uma vez: "Oh -Madre! não passareis pelo purgatório!...'' "Também
espero", respondeu-me com doçura... Ali! certamente Deus não ludibriou uma
esperança tão cheia de humildade; todos os favores que recebemos são a prova...
Cada irmã se apressou em pedir alguma relíquia; sabeis, querida Madre, a que
tenho a felicidade de possuir... Durante a agonia de Madre Genoveva, vi uma
lágrima brilhar na sua pálpebra, como um diamante, essa lágrima, a última de
todas aquelas que derramou, não caiu, via-a brilhar ainda no coro, sem que
ninguém pensasse em recolhê-la. Então, peguei um pequeno pano fino, atrevi-me em
me aproximar, de noite, sem ser vista e para retirar uma relíquia, a última
lágrima de uma Santa... Desde então, sempre a carrego no saquinho onde guardo
meus votos.
Não dou importância aos meus sonhos, aliás, tenho poucos significativos e até me
pergunto como é que, pensando em Deus o dia todo, não penso mais Nele durante
meu sono... de costume, sonho com matas, flores, riachos, o mar e quase sempre
vejo lindas criancinhas, pego borboletas e passarinhos tais como nunca vi.
Estais vendo, Madre, que meus sonhos têm jeito poético, mas estão longe,de ser
místicos...
Uma noite, após a morte de Madre Genoveva, tive um mais consolador. Sonhei que
fazia seu testamento, dando a cada irmã uma coisa que lhe pertencera; quando
chegou minha vez, pensava nada receber, pois não lhe sobrava nada, mas,
erguendo-se, disse-me três vezes, num tom penetrante: "A vós, deixo meu coração".
Um mês depois da partida da nossa santa Madre, começou uma epidemia de gripe na
comunidade. Só eu e mais duas irmãs ficamos de pé. Naquela época, eu estava
sozinha para cuidar da sacristia, a primeira encarregada estava gravemente
doente. Eu devia preparar os enterros, abrir as grades do coro durante as missas
etc. Naquele momento, Deus me deu muitas graças de força; pergunto-me agora como
pude fazer tudo o que fiz sem temor, a morte reinava em todo lugar, as mais
doentes eram tratadas pelas que apenas conseguiam se arrastar. Logo que uma irmã
soltava o último suspiro, éramos obrigadas a deixá-la sozinha. Numa manhã, ao me
levantar, tive o pressentimento de que Irmã Madalena estava morta, o dormitório
estava escuro, ninguém saía das celas. Por fim, decidi-me a entrar na de Irmã
Madalena, cuja porta estava aberta; de fato, vendo-a vestida e deitada numa
enxerga, não tive o menor medo. Vendo que ela não tinha vela, fui buscar uma e a
coroa de rosas.
Na noite da morte da Madre Vice-Priora, eu estava sozinha com a enfermeira; é
impossível imaginar o triste estado da comunidade naquele momento, só as que
estavam de pé podem ter idéia, mas no meio daquele abandono sentia que Deus
velava por nós. As moribundas passavam sem esforço para a eternidade. Logo
depois da morte, uma expressão de alegria e de paz espalhava-se em seus traços,
parecia um sono repousante. De fato o era, pois após o cenário deste mundo que
passa acordarão para usufruir eternamente das delícias reservadas aos eleitos...
Durante todo o tempo em que a comunidade foi provada dessa forma, pude ter a
inefável consolação de comungar todos os dias... Ah! como era bom!... Jesus me
mimou muito tempo, mais tempo que suas fiéis esposas, pois permitiu que me fosse
dado sem as outras terem a felicidade de recebê-Lo. Estava também muito feliz
por poder tocar nos vasos sagrados, por preparar os paninhos destinados a
receber Jesus. Sentia que precisava ser muito fervorosa e lembrava-me com
freqüência esta palavra dirigida a um santo diácono: "Sede santo, vós que levais
os vasos do Senhor".
Não posso dizer que recebi freqüentes consolações durante minhas ações de
graças; talvez seja o momento em que tenho menos... Acho isso muito natural,
pois ofereci-me a Jesus não como uma pessoa que deseja receber a visita Dele
para a própria consolação mas, pelo contrário, para o prazer de Quem se dá a
mim. Vejo minha alma como território livre e peço a Nossa Senhora que tire o
entulho que poderia impedi-la de ser livre, depois suplico-lhe que erga uma
ampla tenda digna do Céu, enfeite-a com seus próprios adornos e convido todos os
santos e anjos para vir dar um concerto magnífico".
Quando Jesus desce ao meu coração, tenho a impressão de que Ele fica contente
por ser tão bem recebido e eu também fico contente... Tudo isso não impede as
distrações e o sono de vir visitar-me. Mas ao terminar a ação de graças, vendo
que a fiz tão mal, tomo a resolução de passar o resto do dia em ação de
graças... Estais vendo, Madre querida, que estou muito longe de ser levada pelo
temor, sempre encontro o meio de ser feliz e tirar proveito das minhas misérias
... Sem dúvida, isso não desagrada a Jesus, pois parece encorajar-me nessa via.
Um dia, contrariamente a meu hábito, estava um pouco perturbada ao ir comungar,
tinha impressão de que Deus não estava contente comigo e pensava: "Ah! se hoje
eu receber só metade de uma hóstia, vou ficar muito aflita, vou crer que Jesus
vem forçado ao meu coração". Aproximo-me... oh felicidade! pela primeira vez na
minha vida, vejo o padre pegar duas hóstias, bem separadas, e dá-Ias a mim!...
Compreendeis minha alegria e as doces lágrimas que derramei vendo tão grande
misericórdia...
No ano seguinte à minha profissão, isto é, dois meses antes da morte de Madre
Genoveva, recebi grandes graças durante o retiro.
Ordinariamente, os retiros pregados são-me mais dolorosos que os que faço
sozinha, mas naquele ano foi diferente. Tinha feito uma novena preparatória com
muito fervor, apesar do sentimento íntimo que me animava, pois tinha a impressão
de que o pregador não saberia compreender-me, por ser destinado sobretudo aos
grandes pecadores, mas não às almas religiosas. Querendo Deus mostrar-me que só
Ele era o diretor da minha alma, serviu-se justamente desse padre que não foi
apreciado por mim... Tinha então grandes provações interiores de diversos tipos
(até me perguntar, às vezes, se o Céu existe). Sentia-me disposta a nada dizer
sobre minhas disposições interiores, não sabendo como expressá-las; logo que
entrei no confessionário, senti minha alma dilatar-se. Depois de falar poucas
palavras, fui compreendida de modo maravilhoso e até adivinhada... minha alma
parecia um livro no qual o padre lia melhor do que eu mesma... Lançou-me de
velas desfraldadas nas ondas da confiança e do amor que me atraíam com muita
força, mas nas quais não ousava avançar... Disse-me que minhas faltas não
entristeciam a Deus, que, estando no lugar Dele, me dizia em nome Dele que
estava muito satisfeito comigo...
Oh! como fiquei feliz ao ouvir essas palavras consoladoras!... Nunca tinha
ouvido dizer que as faltas podiam não entristecer a Deus. Essa segurança
encheu-me de alegria, fez-me suportar com paciência o exílio da vida... No fundo
do meu coração, sentia muito bem que era verdade, pois Deus é mais terno que uma
mãe. Vós, Madre querida, não estais sempre disposta a me perdoar pelas pequenas
indelicadezas que vos faço involuntariamente?... Quantas vezes fiz a doce
experiência!... Nenhuma censura me teria atingido melhor que uma das vossas
carícias. Sou de tal natureza que o temor me faz recuar; com o amor, não só
avanço, mas vôo...
Oh Madre! foi sobretudo a partir do dia abençoado da vossa eleição que voei nas
vias do amor..,. Naquele dia, Paulina passou a ser meu Deus vivo... pela segunda
vez, passou a ser: "Mamãe!..."
Já faz quase três anos que tenho a felicidade de contemplar as maravilhas que
Jesus opera por meio da minha Madre querida... Vejo que só o sofrimento pode
gerar as almas e que, mais do que nunca, essas sublimes palavras de Jesus me
revelam sua profundeza: "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo,
lançado na terra, não morrer, fica só, como é; mas, se morrer, produz abundante
fruto". Que safra abundante não tendes colhido!... Semeastes nas lágrimas, mas
logo vereis o fruto dos vossos trabalhos, voltareis cheia de alegria carregando
feixes... Oh Madre, entre esses feixes floridos, a florzinha branca mantém-se
oculta, mas no Céu terá voz para cantar a doçura e as virtudes que vos vê
praticar cada dia, na sombra e no silêncio da vida de exílio... Sim, há três
anos compreendi os mistérios até então ocultos a mim. Deus teve para comigo a
mesma misericórdia que teve para com o rei Salomão: Não quis que eu tivesse um
único desejo realizado, não só meus desejos de perfeição, mas ainda todos
aqueles cuja vaidade compreendia sem a ter experimentado.
Tendo-vos considerado sempre como meu ideal, querida Madre, desejava ser
semelhante a vós em tudo. Vendo-vos executar belas pinturas e maravilhosas
poesias, dizia comigo mesma: "Ah! como seria feliz em poder pintar, em saber
expressar meus pensamentos em versos e também fazer bem às almas..." Eu não
teria desejado pedir esses dons naturais e meus desejos permaneciam ocultos no
fundo do meu coração. Jesus oculto também nesse pobre coraçãozinho quis
mostrar-lhe que tudo é vaidade e aflição de espírito sob o sol... Para grande
espanto das irmãs, fizeram-me pintar e Deus permitiu que eu soubesse aproveitar
as lições que minha Madre querida me deu... Quis ainda que, a exemplo dela, eu
pudesse compor poesias, peças teatrais que foram consideradas bonitas... Assim
como Salomão, refleti em todas as obras realizadas por minhas mãos e em todas as
fadigas a que me submeti para levá-las a cabo, e vi que tudo era vaidade e afã
de espírito e que não há proveito algum sob o sol. Percebi também, por
EXPERIÊNCIA, que a felicidade consiste em esconder-se, em ignorar as coisas
criadas. Compreendi que sem o amor todas as obras são nada, mesmo as mais
brilhantes, como ressuscitar os mortos ou converter os povos...
Em vez de me causar mal, levar-me à vaidade, os dons que Deus me prodigalizou
(sem que Lhe tenha pedido) me levam para Ele. Vejo que só Ele é imutável, que só
Ele pode satisfazer meus enormes desejos...
Há ainda outros desejos, de outro tipo, que Jesus se agradou em me atender,
desejos infantis, semelhantes aos da neve da minha tomada de hábito.
Sabeis, querida Madre, o quanto gosto de flores; fazendo-me prisioneira aos 15
anos, renunciei para sempre à alegria de correr pelos campos salpicados dos
tesouros da primavera: pois bem! nunca tive tantas flores antes do meu ingresso
no Carmelo... É costume os noivos oferecerem com freqüência ramalhetes às suas
noivas. Jesus não o esqueceu, mandou-me em profusão centáureas, grandes
margaridas, papoulas etc., todas as flores que mais me agradam. Havia até uma
florzinha chamada nigelo dos trigos, que não havia visto desde nosso tempo de
Lisieux; desejava muito rever essa flor da minha infância, que eu colhia nos
campos de Alençon; foi no Carmelo que veio me sorrir e mostrar-me que, nas
menores como nas maiores coisas, Deus dá o cêntuplo desde aqui na terra para as
almas que deixaram tudo por seu amor.
Mas o mais íntimo dos meus desejos, o maior de todos, que pensava nunca ver
realizado, era o ingresso da minha querida Celina no mesmo Carmelo que nós...
Esse sonho parecia-me inverossímil; viver sob o mesmo teto, partilhar das
mesmas alegrias e das mesmas penas da minha companheira de infância, já tinha
feito o sacrifício disso, tinha entregue a Jesus o futuro da minha querida irmã,
resolvida a vê-la partir para o fim do mundo se fosse preciso. A única coisa que
eu não podia aceitar era que não fosse Esposa de Jesus, pois, amando-a tanto
quanto a mim mesma, era-me impossível vê-la entregar o coração a um mortal. Já
sofrera bastante por sabê-la exposta no mundo a perigos que me haviam sido
desconhecidos. Posso dizer que, depois da minha entrada no Carmelo, meu amor por
Celina era tanto de mãe como de irmã... Um dia em que ela devia ir a uma festa,
isso me causou tantos dissabores que suplicava Deus de impedi-la de dançar e até
(contra meu hábito) derramei torrentes de lágrimas. Jesus me atendeu, não
permitiu que sua noivinha dançasse naquela noite (embora não tivesse qualquer
constrangimento em fazê-lo graciosamente quando necessário). Tendo sido
convidada sem poder recusar, seu par ficou totalmente impossibilitado de dançar;
muito confuso, foi condenado a simplesmente andar para levá-la a seu lugar e
saiu sem reaparecer. Esse caso, único no gênero, fez aumentar minha confiança e
meu amor Naquele que, pondo seu sinal na minha testa, o tinha também impresso na
da minha querida Celina...
Em 29 de julho do ano passado, rompendo os laços do seu incomparável servo e
chamando-o para a recompensa eterna, rompeu ao mesmo tempo os que retinham no
mundo sua querida noiva. Tinha cumprido sua primeira missão; encarregada de
representar a nós todas junto a nosso Pai tão ternamente amado. Essa missão,
cumpriu-a como um anjo... e os anjos não ficam na terra depois de cumprida a
vontade de Deus; voltam logo para junto Dele, é para isso que têm asas... Nosso
anjo também sacudiu suas asas brancas, estava disposto a voar muito longe para
encontrar Jesus, mas Jesus o fez voar muito perto... Contentou-se com a
aceitação do grande sacrifício que foi muito doloroso para Teresinha... Durante
dois anos, sua Celina escondera-lhe um segredo... Ah! como sofreu também!...
Enfim, do Céu, meu Rei querido, que na terra não gostava das lerdezas,
apressou-se em ajeitar as coisas tão confusas da sua Celina e, em 14 de
setembro, reunia a todas nós!...
Num dia em que as dificuldades pareciam insuperáveis, disse a Jesus durante
minha ação de graças: "Sabeis, meu Deus, como desejo saber se Papai foi direto
para o Céu, não vos peço para me falar, mas dai-me um sinal. Se minha Irmã A. de
J. consentir na entrada de Celina ou não opuser obstáculo, essa será a resposta
de que Papai foi direto para junto de vós". Essa irmã, como o sabeis, querida
Madre, achava que já era demais três de nós e, conseqüentemente, não queria mais
uma. Mas Deus, que segura em sua mão o coração das criaturas e o dirige como
quer, mudou as disposições da irmã; depois da ação de graças, a primeira pessoa
que encontrei foi ela, que me chamou com ar amável, disse-me para ir vos
encontrar e falou-me de Celina com lágrimas nos olhos...
Ah! quantos motivos tenho para agradecer a Jesus, que soube satisfazer todos os
meus desejos!...
Agora, não tenho mais desejos, a não ser o de amar Jesus loucamente... meus
desejos infantis se foram; ainda gosto de enfeitar de flores o altar do Menino
Jesus, mas depois que me deu a Flor que eu desejava, minha querida Celina, não
desejo outra, é ela que Lhe ofereço como meu mais encantador ramalhete...
Tampouco desejo o sofrimento nem a morte embora ame os dois, mas é só o amor que
me atrai... Durante muito tempo os desejei; tive o sofrimento e pensei ter
tocado as margens do Céu; pensei que a florzinha seria colhida na sua
primavera... agora, só o abandono me guia, não tenho outra bússola!... Não posso
pedir mais nada com ardor, exceto o cumprimento perfeito da vontade de Deus para
minha alma, sem que as criaturas possam opor obstáculo. Posso dizer essas
palavras do cântico espiritual do Nosso Pai são João da Cruz: "No celeiro
interior, do meu Amado, bebi e quando saí, em toda essa planície, não conhecia
mais nada e perdi o rebanho que eu seguia antes... Minha alma pôs-se com todos
os seus recursos a seu serviço. Não guarda mais rebanho algum, não tenho outro
ofício, porque agora meu exercício todo consiste em amar! Ou ainda: "Desde que o
experimentei, o AMOR é tão poderoso em obras que sabe tirar proveito de tudo, do
bem e do mal que encontra em mim e transformar minha alma em si. Ó Madre
querida! Como é doce o caminho do amor. Sem dúvida, pode-se cair, podem-se
cometer infidelidades, mas sabendo o amor tirar proveito de tudo tem consumido
logo tudo o que possa desagradar a Jesus, deixando apenas uma humilde e profunda
paz no fundo do coração...
Ah! quantas luzes encontrei nas obras do Nosso Pai são João da Cruz!... Aos 17 e
18 anos não tinha outro alimento espiritual, depois, todos os livros deixaram-me
na aridez. Ainda estou nesse estado. Quando abro um livro composto por um autor
espiritual (até o mais bonito, o mais emocionante), sinto logo meu coração
apertar-se e leio-o sem, por assim dizer, compreender ou, se compreendo, meu
espírito pára sem poder meditar... Nesses momentos, a Sagrada Escritura e a
lmitação vêm socorrer-me; nelas encontro um alimento sólido e totalmente puro.
Mas é sobretudo o Evangelho que me sustenta nas minhas orações; nele encontro
tudo o que é necessário para minha pobre alminha. Sempre descubro novas luzes,
sentidos ocultos e misteriosos...
Compreendo e sei por experiência "Que o reino de Deus está dentro de nós". Jesus
não precisa de livros nem de doutores para instruir as almas, Ele é o Doutor dos
doutores, ensina sem o ruído de palavras... Nunca o ouvi falar, mas, a cada
momento, sinto que está em mim. Guia-me, inspira o que devo dizer ou fazer. Bem
no momento em que preciso, descubro luzes que nunca tinha visto antes, na
maioria das vezes, não é durante as minhas orações que elas surgem mais
abundantes, é no meio das ocupações diárias...
Oh Madre querida! depois de tantas graças, posso cantar com o salmista: "O
Senhor é bom, eterna é sua misericórdia". Parece-me que, se todas as criaturas
tivessem as mesmas graças que tenho, Deus não seria temido por ninguém, mas
amado loucamente, e por amor, não tremendo, as almas recusariam causar-lhe
tristeza... Compreendo que as almas não podem ser todas iguais, é preciso que
existam de diversas famílias a fim de honrar especificamente cada uma das
perfeições de Deus. A mim, Ele deu sua infinita Misericórdia e é por meio dela
que contemplo e adoro as demais perfeições divinas!... Então, todas me parecem
radiantes de amor, a própria Justiça (e talvez mais que as outras) me parece
revestida de amor...
Que doce alegria essa de pensar que Deus é justo, que leva em conta as nossas
fraquezas, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa natureza. Portanto,
de que teria eu medo? Ah! o Deus tão justo que se dignou perdoar com tanta
bondade todas as faltas do filho pródigo não deve ser justo também para comigo
que "sou sempre com Ele?
Neste ano, em 9 de junho, festa da Santíssima Trindade, recebi a graça de
compreender mais do que nunca o quanto Jesus deseja ser amado.
Pensava nas almas que se oferecem como vítimas à Justiça divina, a fim de
desviar e atrair sobre si os castigos reservados aos culpados. Esse oferecimento
parecia-me grande e generoso, mas estava longe de sentir-me inclinada a fazê-lo.
"Oh, meu Deus!", exclamei no fundo do meu coração, "só vossa Justiça recebe
almas que se imolam como vítimas?... Vosso Amor Misericordioso não precisa
também? Em todo lugar é desconhecido, rejeitado; os corações aos quais quereis
prodigalizá-lo inclinam-se para as criaturas, pedindo a elas a felicidade com
sua miserável afeição, em vez de lançar-se em vossos braços e aceitar vosso
infinito Amor... Oh, meu Deus! vosso Amor desprezado vai ficar em vosso Coração?
Parece-me que, se encontrásseis almas que se oferecessem como vítimas de
holocausto ao vosso Amor, as consumiríeis rapidamente. Parece-me que estaríeis
feliz em não conter as ondas de infinitas ternuras que estão. em vós... Se vossa
justiça gosta de descarregar-se, embora só se exerça na terra, quanto mais vosso
Amor Misericordioso que se eleva até os Céus deseja abrasar as almas... Oh, meu
Jesus! que seja eu essa feliz vítima, consumais vosso holocausto pelo fogo do
vosso divino Amor!..."
Madre querida, vós que permitistes que eu me oferecesse assim a Deus, conheceis
os rios, ou melhor, os oceanos de graças que vieram inundar minha alma... Ah!
desde esse feliz dia, parece-me que o Amor me penetra, me cerca; que a cada
instante esse Amor Misericordioso me renova, purifica minha alma e não deixa
vestígio algum de pecado. Portanto, não posso temer o purgatório... Sei que por
mim mesma não mereço entrar nesse lugar de expiação, pois só as almas santas
podem ter acesso a ele, mas sei também que o Fogo do Amor é mais santificante
que o do purgatório, sei que Jesus não pode desejar sofrimentos inúteis para nós
e que Ele não me inspira desejos que não quer satisfazer.
Oh! como é doce o caminho do Amor!... Como quero me esforçar para fazer sempre,
com o maior desprendimento, a vontade de Deus!...
Eis, querida Madre, tudo o que posso dizer-vos da vida da vossa Teresinha,
conheceis melhor, por vós mesma, o que ela é e o que Jesus fez por ela;
portanto, perdoar-me-eis por ter abreviado a história da sua vida religiosa...
Como terminará essa "história de uma florzinha branca"? Talvez a florzinha seja
colhida no seu frescor ou transplantada a outras praias... ignoro-o, mas tenho
certeza de que a Misericórdia de Deus a acompanhará sempre, porque nunca deixará
de abençoar a Madre querida que a deu a Jesus; regozijar-se-á eternamente por
ser uma das flores da sua coroa... Eternamente cantará com essa Madre querida o
cântico sempre novo do Amor...
EXPLICAÇÃO DAS ARMAS
O brasão JHS é o que Jesus se dignou trazer como dote para sua pobre esposinha.
A órfã da Beresina tornou-se Teresa do MENINO JESUS E DA SAGRADA FACE, são esses
seus títulos de nobreza, sua riqueza e sua esperança. A videira que separa o
brasão é a figura Daquele que nos disse: "Eu sou a vide, vós os sarmentos.
Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto". Os dois ramos ao
redor, a Sagrada Face e o menino Jesus, são a imagem de Teresa que só tem um
desejo cá na terra, oferecer-se como um cachinho de uvas' para refrescar Jesus
Menino, diverti-lo, deixar-se apertar por Ele ao sabor dos seus caprichos e
poder estancar a sede ardente que teve durante sua paixão'. A harpa também
representa Teresa que quer cantar sem cessar melodias de amor para Jesus'.
O brasão FMT é o de Maria Francisca Teresa, a florzinha da Santíssima Virgem,
por isso essa florzinha é representada recebendo os raios benéficos da Doce
Estrela da manhã. A terra verdejante representa a família abençoada no seio da
qual a florzinha cresceu; mais ao longe, vê-se uma montanha que representa o
Carmelo. É esse lugar abençoado que Teresa escolheu para representar, nessas
armas, o dardo abrasado' do amor que deve merecer-lhe a palma do martírio' à
espera de poder verdadeiramente dar seu sangue por Aquele que ama. Pois para
retribuir todo o amor de Jesus gostaria de fazer por Ele o que Ele fez por
ela... mas Teresa não esquece que é um caniço fraco, por isso o colocou no
brasão.
O triângulo luminoso representa a Adorável Trindade que não cessa de distribuir
seus dons inestimáveis na alma da pobre Teresinha, por isso, na sua gratidão,
nunca se esquecerá desse lema: "O Amor só se paga com o Amor".
MANUSCRITO "B"
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